terça-feira, dezembro 1, 2020

Em descoberta inédita no mundo, cientistas brasileiros encontram parasita preservado dentro de ossos de dinossauro


Pesquisadores da UFRN, da UFSCar e da Unicamp identificaram microrganismo em ‘dino zumbi’ que sofria de osteomielite aguda, doença que até hoje afeta animais e também humanos. Ilustração mostra titanossauro com osteomielite aguda, infecção óssea que deforma os ossos e que provavelmente causou muita dor aos dinos.
Hugo Cafasso
Uma equipe de cientistas brasileiros encontrou, em uma descoberta inédita no mundo, um parasita sanguíneo preservado dentro dos ossos de um dinossauro. A pesquisa foi publicada na quinta-feira (15) na revista científica “Cretaceous Research”.
Os pesquisadores – da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e da Unicamp – acharam o parasita nos ossos de um titanossauro (os dinos de pescoço comprido) que sofria com uma doença chamada osteomielite aguda, uma infecção óssea que até hoje atinge animais e humanos.
Antes da descoberta dos brasileiros, parasitas pré-históricos só haviam sido encontrados dentro de insetos preservados em âmbares ou em fezes fossilizadas – ou seja, nenhum dentro de um hospedeiro.
Como foi feita a descoberta?
Em 2017, enquanto fazia seu pós-doutorado, a cientista Aline Ghilardi, da UFRN, autora sênior da pesquisa, notou que um dos ossos dos dinossauros que estudava – que havia sido descoberto em São Paulo e que hoje é mantido em um laboratório da UFSCar – tinha caroços esponjosos.
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A equipe resolveu, então, estudá-lo mais a fundo. No ano seguinte, o pesquisador Tito Aureliano, que fazia mestrado na Unicamp, decidiu estudar os ossos com um microscópio – e, depois, com uma tomografia, feita na Faculdade de Medicina da USP.
Com as análises, foi feito o diagnóstico da osteomielite aguda, uma infecção que pode causar deformações nos ossos e que, provavelmente, causava muita dor ao titanossauro (veja detalhes mais abaixo).
Depois, os cientistas fizeram uma biópsia do material – algo que ninguém nunca tinha feito antes – para ver o desenvolvimento da doença. (A maioria das pesquisas do tipo descreve as amostras a olho nu ou com uma radiografia simples – o máximo que fazem é uma tomografia, explica Tito Aureliano, que é o primeiro autor do estudo.)
Foi aí que veio a surpresa.
A paleontóloga Fresia Ricardi-Branco, da Unicamp, detectou a presença de um microfóssil dentro dos canais vasculares do osso do dinossauro. Ao examiná-lo, Aureliano achou mais de dez microrganismos fossilizados.
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Entrou em cena, então, a paleoparasitóloga Carolina Nascimento, da UFSCar, para analisar detalhadamente a amostra. Ela conseguiu achar mais de 70 microrganismos similares preservados dentro do osso do titanossauro e determinou que eles eram algum tipo de parasita sanguíneo.
“Quando descobrimos que era um parasita e que estava dentro dos canais do dinossauro, começamos a ficar nervosos para sermos os primeiros [a publicar]”, relata Tito Aureliano. “Não acreditamos que nunca tinham feito isso [a biópsia]”.
Os pesquisadores ainda não sabem, entretanto, se foram os parasitas que causaram a osteomielite. Isso porque eles encontraram, também, uma colônia de bactérias no fóssil.
Os cientistas brasileiros esclareceram como a inflamação no dinossauro evoluiu até a formação dos caroços e identificaram, até mesmo, o momento em que a ferida se abriu e foi colonizada por bactérias (na imagem).
Tito Aureliano, Carolina S.I.Nascimento, Marcelo A.Fernandes, Fresia Ricardi-Branco, Aline M.Ghilardi
“Não sabemos se esses parasitas compridinhos causaram a doença ou se a doença causou a presença deles”, diz Aureliano.
“O máximo que a gente se atreveu a dizer é que é um parasita – um pouco maior do que os que são encontrados em âmbar – e que mais estudos são necessários”, afirma.
A equipe trabalha nesses próximos resultados, que deverão ser publicados em breve.
Dino sentiu muita dor
Ilustração de reconstrução mostra titanossauro com osteomielite aguda, infecção óssea que deforma os ossos e que provavelmente causou muita dor aos dinos.
Hugo Cafasso
O que os pesquisadores podem determinar, por enquanto, é que o titanossauro “sentiu dor – e muita dor – para morrer”, diz Aureliano.
“Ele estava apodrecendo vivo”, afirma.
Em um vídeo em que explicam a pesquisa, Aureliano e Ghilardi dizem que, considerando o modo como essa doença age em organismos atuais, o dinossauro deve ter sofrido muito até atingir o estado grave que eles viram – com a formação de feridas abertas expelindo pus pelas pernas, braços e corpo.
“Neste fóssil recuperado, o estágio da doença estava tão agressivo que a gente apelidou esse espécime de ‘Dino Zumbi'”, diz Aureliano.
Eles conseguiram determinar também que, quando morreu, o titanossauro era idoso. Analisando as feridas, esclareceram como a inflamação evoluiu até a formação dos caroços e identificaram, até mesmo, o momento em que a ferida se abriu e foi colonizada por bactérias.
Os pesquisadores perceberam que a lesão ia desde a parte mais interna do osso até a parte de fora – onde formava os caroços esponjosos vistos por Ghilardi.
Reconstrução em 3D da tomografia (em azul e verde) permitiu aos cientistas enxergar que a lesão ia desde a parte mais interna do osso até a parte de fora
Tito Aureliano, Carolina S.I.Nascimento, Marcelo A.Fernandes, Fresia Ricardi-Branco, Aline M.Ghilardi
“Esses dados todos serão muito importantes para o avanço da compreensão da doença na medicina atual e no tratamento em humanos”, afirma Ghilardi.
Os achados dos pesquisadores só foram possíveis graças a um processo chamado fosfatização, que garantiu uma “fossilização excepcional” ao dino.
“A fossilização é um processo muito destrutivo – é raro ter essa preservação excepcional, quando são preservadas partes moles. A química dentro do osso petrificou muito rápido os microrganismos”, explica Aureliano.
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A descoberta decorre de um conjunção de fatores certos ocorridos na hora certa: os cientistas encontraram o titanossauro “certo” e que morreu “do jeito certo”, mantendo o grau de preservação alto necessário para exame no microscópio.
Contribuições
“Esse trabalho foi inovador, pois uniu, pela primeira vez, os campos da histologia, patologia e parasitologia aplicados aos fósseis, o que abrirá novas possibilidades para a paleontologia de agora em diante”, diz Ghilardi.
“É, também, um exemplo de como a ciência de base pode acabar causando impacto na medicina moderna, contribuindo para a compreensão de doenças que até hoje acometem animais, inclusive a espécie humana.”
“Estamos muito satisfeitos, muito felizes, de fazer uma contribuição sólida na nossa área, de abrir novas possibilidade para a paleontologia. Agora a gente sabe que pode tirar parasitas de amostragens, incluindo nossos ancestrais humanos”, lembra Aureliano.
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