segunda-feira, novembro 30, 2020

População de veado típico da Amazônia é descoberta em área de Mata Atlântica


Indivíduos foram encontrados no Espírito Santo e no Sul da Bahia; grupo isolado requer ações conservacionistas específicas. Espécie típica da Amazônia foi flagrada por estúdios fotográficos instalados no Espírito Santo
Expedicionários Fotografia e Natureza
A natureza nos surpreende a cada dia e, graças ao trabalho de pesquisadores, essas surpresas se transformam em descobertas importantes para a ciência e conservação. A novidade agora é na família dos cervídeos, popularmente conhecidos como veados: especialistas descobriram uma população de veado-roxo (Mazama nemorivaga) ocupando áreas de Mata Atlântica no Espírito Santo e no Sul da Bahia. A espécie era conhecida apenas na Amazônia, mais de mil quilômetros de distância de onde foi encontrada.
Tudo começou pela análise de fotografias, atividade comum entre os pesquisadores do Núcleo de Pesquisa e Conservação de Cervídeos (Nupecce), da Universidade Estadual Paulista (UNESP), campus de Jaboticabal (SP). “Diferenciar as espécies do gênero Mazama é difícil, pois são todas muito parecidas morfologicamente. Como pesquisamos sobre o gênero há muitos anos, nossa equipe se tornou referência na identificação de fotografias. Entre tantas que recebemos, os flagrantes enviados pela Andressa Gatti, coordenadora da ONG Pró-Tapir chamou atenção”, conta Márcio Leite de Oliveira, pesquisador do Núcleo.
“O professor Maurício Barbanti, que tem uma experiência gigantesca e muita autoridade para identificar as espécies por foto, levantou a suspeita de que o animal registrado poderia ser o veado-roxo. Então, em 2017, fomos até a região de Sooretama (ES) para coletar amostras”, detalha.
As fotos foram tiradas pelos estúdios fotográficos instalados em parques e reservas biológicas do Espírito Santo, base do projeto “Biodiversidade Capixaba – Uma expedição ao Espírito Santo Selvagem”
Veado-amazônico também é popularmente conhecido por veado-roxo
Expedicionários Fotografia e Natureza
Com ajuda de cães farejadores – ‘carro chefe’ da amostragem feita pela equipe; os pesquisadores coletaram fezes para analisar o DNA. “No laboratório identificamos que realmente era a espécie amazônica e, para não restar dúvidas, ainda analisamos o DNA retirado dos pelos dos animais”, completa o especialista.
Foi uma surpresa porque normalmente, naquela região de Mata Atlântica, são observados veado-mateiro e veado-catingueiro, espécies que são bem comuns inclusive
Conhecer para conservar
Apesar das análises mostrarem parentesco genético entre os animais da Amazônia e a população descoberta na Mata Atlântica, o pesquisador reforça que há diferenças importantes a considerar nos planos de conservação desses indivíduos. “Como essa população está isolada há um certo tempo, é necessário um esforço conservacionista exclusivo para ela. Mas para que isso aconteça, o primeiro passo é fazer com que as políticas públicas a reconheça”.
Diferenciar as espécies de Mazama é desafiador e demanda análises genéticas
Expedicionários Fotografia e Natureza
Márcio explica que o financiamento de toda política conservacionista, seja ela promovida pelo governo ou por ONGs, precisa da avaliação do estado de conservação das espécies por um órgão ambiental que reconheça a nova população. “Nesse caso temos a lista nacional e internacional de espécies ameaçadas de extinção, assim como a regional, específica da fauna do Espírito Santo e da Bahia. Ou seja, quando houver uma revisão dessas listas, serão anexadas observações sobre esses indivíduos recém-descobertos”, diz.
O veado-roxo não é considerado ameaçado de extinção na lista nacional e internacional da fauna brasileira, no entanto, em uma revisão da lista regional a nova população pode ser classificada como ameaçada
Outra etapa importante é a análise dos cromossomos de um desses animais do grupo. “No caso dos cervídeos, a contenção por armadilhas ou anestésicos é inviável. Por isso, estamos elaborando um plano detalhado de captura de um indivíduo para analisar as células vivas e estudar a fundo o DNA da espécie”, detalha o biólogo, que explica ainda a complexidade da genética dos cervídeos.
“Os cromossomos das espécies desse gênero possuem partes mais frágeis que, quando se quebram, prejudicam por exemplo a reprodução entre indivíduos da mesma espécie. Com a mudança nos cromossomos alguns animais ficam incompatíveis e se isolam naturalmente, iniciando o processo de formação de uma nova espécie”, diz.
Essa etapa é importantíssima, porque se a gente não descrever cientificamente essa nova população, ela não vai existir para as políticas públicas e, consequentemente, não haverá iniciativas de conservação
Mazama bororo, popularmente conhecido por veado-mateiro, está ameaçado de extinção
Expedicionários Fotografia e Natureza
Cervídeos do Brasil
O País é casa para cinco espécies de cervídeos do gênero Mazama, que se distribuem pelos biomas brasileiros. Essas, se dividem geneticamente em dois grupos classificados por cor. “Temos os veados ‘vermelhos’ e os ‘cinzas’, categorias criadas justamente pelos tons predominantes da pelagem. Por estarem em florestas, as espécies foram selecionadas com as mesmas características morfológicas. Então há poucas diferenças visuais”, detalha.
“Normalmente os vermelhos são noturnos e vivem em ambientes de floresta mais fechada e, consequentemente, mais escura. Já os cinzas ocorrem em florestas mais abertas, com mais luz solar, e apresentam hábitos diurnos”, diz.
Os representantes “cinzas” são veado-catingueiro (Mazama gouazoubira) e veado-roxo (Mazama nemorivaga). Na ‘turma’ dos vermelhos estão veado-mateiro (Mazama amareicana), veado-mateiro-pequeno (Mazama bororo) e veado-mão-curta (Mazama nana)
Mazama bororo e Mazama nana são as duas espécies brasileiras ameaçadas de extinção na categoria ‘Vulnerável’. “Hoje a principal ameaça é o ataque de cães domésticos, seguido da caça. No caso da Amazônia, o desmatamento também coloca as populações em risco”, explica o especialista.
Herbívoras, as espécies selecionam o cardápio com rigor. “Elas optam por plantas com menos celulose e melhores índices nutritivos, justamente para acelerar o processo digestivo. O curioso é que essas plantas costumam ter substâncias tóxicas, justamente para afastar os predadores. Por isso, o fígado dessas espécies é um pouco mais desenvolvido e resistente”, complementa Márcio.

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