quarta-feira, dezembro 2, 2020

Reintrodução de jacutingas na natureza auxilia na conservação da espécie


Criadores de três estados brasileiros uniram esforços e, em 40 anos, já reintroduziram 140 indivíduos. Reprodução em cativeiro é esperança para a preservação das jacutingas
Edgar Fernandez/Instituto Guaju
Classificadas como “Em Perigo” na lista de espécies brasileiras ameaçadas de extinção, as jacutingas contam com o apoio de três amigos admiradores da natureza que há 40 anos lutam pela conservação através da reintrodução das aves na Mata Atlântica.
São três criadouros, localizados nos estados do Paraná, Minas Gerais e São Paulo, que dão início à longa jornada de reprodução e soltura. A última aconteceu no início do mês, na cidade de Lima Duarte (MG).
“A criação em cativeiro com objetivo de soltura e repovoamento em locais onde já esteja extinta, como nas matas da Comuna do Ibitipoca, na cidade mineira, pode ser uma solução para reestabelecer a vida nas florestas. As solturas em locais estratégicos contribuem para a formação de planteis geneticamente fortalecidos, oportunizando uma nova chance de reestabelecimento da espécie”, explica Roberto Azeredo, responsável pelo CRAX- Sociedade e Pesquisa da Fauna Silvestre.
Estima-se que existam menos de 2.500 jacutingas na natureza
Edgar Fernandez/Instituto Guaju
De início, ele e os criadores Marcos Wasilewski, do Criadouro Guaratuba, e Victor Fasano, do criadouro TROPICUS; se dedicavam individualmente ao estudo e desenvolvimento de técnicas de reintrodução. Há 20 anos, porém, resolveram unir esforços e aprimorar o projeto. “Essa união nos permitiu criar um banco genético para melhorar o plantel das aves, visando objetivos ainda maiores para os trabalhos de criação e reintrodução das jacutingas”, explica Marcos Wasilewski.
Resgatar o importante papel da jacutinga como uma das principais “jardineiras” da Mata Atlântica também é a missão de um grupo de pesquisadores que trabalha na região da Serra da Mantiqueira
Processo lento
As quatro décadas de trabalho resultaram na reintrodução de 140 indivíduos, mas para chegar nesse número foi preciso investimento, pesquisa e experiência. “Existe todo um preparativo para que as aves possam ser soltas na natureza, como separar os casais reprodutores, escolher o viveiro, monitorar a postura dos ovos e o manejo deles na chocadeira, assim como o acompanhamento dos filhotes e a escolha das aves que serão reintroduzidas”, detalha Azeredo, que revela os ‘bastidores’ do projeto.
“Os criadores, que são os gestores dos planteis, definem as ações a serem executadas em cada etapa e contam com apoio de uma equipe variada, responsável pelo tratamento das aves e limpeza dos recintos”, completa.
Marcos Wasilewski, Roberto Azeredo e Victor Fasano se dedicam à criação e soltura das aves
Edgar Fernandez/Instituto Guaju
O processo conta ainda com o apoio de biólogos e veterinários que contribuem no controle sanitário do local e nos exames de laboratório que avaliam a genética das aves. “Essa análise traz informações importantes que auxiliam na escolha do plantel reprodutor”.
Sou apaixonado pelo tema, afinal é luta de uma vida inteira e por conhecer grande parte da biodiversidade desse planeta e seus Biomas, tenho a responsabilidade moral de dar voz ao tema
Endêmica da Mata Atlântica, espécie corre risco de extinção
Edgar Fernandez/Instituto Guaju
Jacutingas pelo Brasil
As etapas de criação e de soltura acontecem simultaneamente em três estados diferentes: Paraná, Minas Gerais e Rio de Janeiro. “As reintroduções são feitas nessas três regiões, em reservas legalmente constituídas, RPPNs ou áreas de proteção ambiental que possuam uma boa condição de flora e fauna”, explica Marcos, que destaca o critério principal na escolha da reintrodução: obedecer a área de ocorrência da jacutinga.
Encontrada em florestas ricas em palmito e outras palmeiras, a ave ocorre naturalmente também em áreas próximas a córregos ou rios, desde o sul da Bahia até o Rio Grande do Sul, norte da Argentina e Paraguai. Hoje em dia, porém, as jacutingas vivem somente em áreas protegidas de Mata Atlântica
Observar as aves em grupos numerosos já não é mais uma realidade
Edgar Fernandez/Instituto Guaju
A partir da soltura, as aves são monitoradas por funcionários das reservas e pesquisadores que fazem estudos nas propriedades. “Eles são orientados a registrar todos os avistamentos com o máximo de detalhes, com informações sobre os indivíduos, quantidade de jacutingas avistadas, horário das observações, comportamentos flagrados e outros dados julgados importantes”, completa.
Para Victor Fasano, a jornada construída ao longo dos anos traz boas memórias e esperança para o futuro. “Toda vez que presencio uma reintrodução lembro da primeira vez que vi essa ave voando pela mata, quando tinha seis anos de idade. Lembro do emprenho diário para a formação dos primeiros casais, esses cujos descendentes dão início a um novo ciclo na natureza. Sinto ser possível reparar as ações nada sustentáveis da humanidade”, diz.
Reprodução em cativeiro é esperança para a preservação das jacutingas
Com dieta variada, ave tem papel importante como dispersora de sementes
Edgar Fernandez/Instituto Guaju
Jardineira das florestas
Endêmica da Mata Atlântica, a jacutinga é conhecida popularmente por jardineira das florestas graças ao papel que realiza na natureza: ao dispersar sementes do palmito-juçara e de tantas outras espécies que compõem a sua dieta, a ave ajuda a gerar novas plantas e alimentos para outras espécies.
Tradicionalmente encontradas em bandos de até 15 indivíduos, hoje as aves são vistas sozinhas ou aos pares. A quebra do grupo numeroso é reflexo do desmatamento e da destruição do habitat, responsável por reduzir drasticamente as populações.
As ameaças colocam a ave nas listas nacional e global de espécies ameaçadas de extinção. O cenário preocupa ainda mais, visto que as matas da Bahia e do Espírito Santo deixaram de abrigar a jacutinga

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