segunda-feira, novembro 30, 2020

Pandemia gera queda de 30% em transplantes no HC da Unicamp, mas reduz recusa de famílias em doar órgãos: 'Mudança espontânea'


Médicos responsáveis pela logística de viabilizar doadores, transportar órgãos e realizar cirurgias afirmam que altruísmo das pessoas aumentou e mudou paradigma das famílias. No entanto, quarentena reduziu o número de órgãos disponíveis. Cirurgia para transplante de órgão no HC da Unicamp, em Campinas
Reprodução/EPTV
A pandemia provocou uma mudança de paradigma nas famílias dos doadores que tiveram morte cerebral, e também mudou o perfil de órgãos disponibilizados. Dados do Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp, em Campinas (SP), apontam que houve queda na recusa de famílias sobre a doação, e o número de doadores cresceu 6,9% entre janeiro e setembro. No entanto, os transplantes caíram 30,4%.
Em 30 anos de atuação, a médica Ilka Boin, chefe do transplante de fígado do HC, disse ao G1 o quanto ficou surpresa com a mudança na reação das pessoas quando há o momento de se falar sobre a doação de órgãos de um ente querido.
“É a primeira vez que vejo uma mudança espontânea da população. […] A gente notou que a população se tornou receptiva. É uma mudança de paradigma das famílias. A gente nota esse ato de generosidade, esse bem-estar consigo mesmo, de poder passar por um momento de dor, ultrapassar essa dor e ceder o órgão do ente querido.”
Em 2019 foram 86 doadores captados em nove meses, e em 2020, o número subiu para 92. Na média, um doador a cada três dias. Coordenador da Organização de Procura de Órgãos (OPO) da Unicamp, Luiz Antonio Sardinha explicou que a quarentena aumentou, sim, o altruísmo, o desejo de ajudar o outro, e a expectativa é que a captação de doadores continue subindo.
“A gente achava que ia cair, mas a pandemia chamou a atenção para a sensibilidade que as pessoas tiveram com a sociedade. Tivemos relatos de famílias que diziam que, no meio dessa pandemia toda, se pudermos ajudar alguém, seria bom.”.
O ano passado terminou com 45% de recusa familiar, e o índice atual está em 38%. Somado ao sentimento que veio à tona com a pandemia, profissionais de saúde têm se capacitado no HC em maneiras de abordar as famílias de pacientes críticos sobre a doação de órgãos.
“A família tem que ser respeitada sempre. A gente queria agradecer muito às famílias doadoras, são um diferencial. Alguém no momento da catástrofe pessoal que se preocupa com o outro.”.
O HC da Unicamp é um dos centros credenciados pelo Ministério da Saúde para transplantes de coração, fígado, rim, córnea e medula óssea. Abrange 128 cidades e cerca de sete milhões de pessoas no interior do Estado de São Paulo.
Só no HC a fila de espera conta com aproximadamente 780 pessoas. Veja a divisão no gráfico abaixo:
“Em média, o transplante de fígado demora cerca de seis meses; rim, cerca de 1 ano; e coração, varia de acordo com a gravidade.”, afirma a médica Ilka Boin.
Ilka alerta para as campanhas de doação de sangue, que precisam ser feitas para garantir que os transplantes possam ser efetuados. “Sem sangue, não conseguimos fazer transplante de fígado.”.
O Hospital de Clínicas da Unicamp está, segundo a chefe do transplante hepático, em tramitação para se credenciar junto ao Ministério da Saúde para transplantes de pâncreas e osso. A previsão é que isso ocorra em 2022.
Doadores mais velhos, menos órgãos disponíveis
No entanto, o fato da quarentena ter reduzido a circulação de pessoas e, por exemplo, mortes no trânsito e por outros traumas, provocou uma alteração no perfil dos doadores. Eles passaram a ter idade mais avançada e frequentemente são vítimas de hipertensão, doenças pulmonares e AVC.
Em 2019 foram 276 transplantes realizados pelo HC, contra 192 este ano, considerando meses de janeiro a setembro.
“Os doadores passaram a ser os de critérios expandidos, de maior idade, acima de 60, 65 anos, e às vezes inviabilizava o transplante. Tinha doador de rim, mas o rim tinha alguns problemas, ou o fígado tinha lesão pela idade.”, explica Sardinha.
Entre janeiro e dezembro de 2019, o HC realizou 395 transplantes a partir de doadores que tiveram morte encefálica.
Aumenta disposição para doações de órgãos durante a pandemia
Vítimas da Covid-19 não podem doar
No caso das mortes por Covid-19, a infecção inviabiliza a doação dos órgãos. Transplantados precisam tomar medicação imunossupressora para evitar a rejeição, e se recebessem um órgão doente, poderiam ter uma infecção generalizada.
A restrição à Covid-19 também ocorre, por exemplo, em casos de mortes por câncer e outras doenças infecciosas, segundo Sardinha.
Imagem criada pela Nexu Science Communication em conjunto com o Trinity College, em Dublin, mostra um modelo estruturalmente representativo de um betacoronavírus, que é o tipo de vírus vinculado ao COVID-19, mais conhecido como coronavírus vinculado ao surto atual.
NEXU Science Communication/via REUTERS
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Arte/G1
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