sexta-feira, novembro 27, 2020

Apenas 2% da área de ocorrência dos micos-leões-pretos é adequada para sobrevivência da espécie


Pesquisadores avaliam mapas de clima e paisagem para definir estratégias de conservação; símbolo do estado de São Paulo está ameaçado de extinção. Atualmente o mico-leão-preto é classificado na categoria “Em Perigo”
Gabriela Cabral Rezende/IPÊ
Ameaçado de extinção na categoria ‘Em Perigo’ o mico-leão-preto conta com o trabalho de pesquisadores como o de Gabriela Rezende, doutoranda pela UNESP de Rio Claro e coordenadora do Programa de Conservação do Mico-leão-preto (IPÊ), que junto aos colegas Thadeu Sobral (UFMT) e Laurence Culot (UNESP), desenvolveu uma técnica para detectar áreas de ocorrência da espécie que necessitam de ações de conservação.
A ideia foi combinar mapas climáticos e geográficos para analisar condições de temperatura, umidade e estrutura da floresta, entre os rios Tietê e Paranapanema. “A fragmentação do habitat é uma das principais ameaças à biodiversidade e também o principal desafio enfrentado pelo mico-leão-preto. Mas além da estrutura da paisagem, o clima é determinante para a sobrevivência da espécie em determinadas áreas, por isso, avaliar as condições do habitat é extremamente importante para entendermos onde ainda tem áreas adequadas”, explica a pesquisadora.
Mico-leão-preto encontrou na área de conservação o seu perfeito habitat: resistência
Chico Escolano/TG
O trabalho contou com análises detalhadas de variação de temperatura, regime de chuvas, cobertura florestal, tamanho de fragmento e distância entre remanescentes de floresta. “Ao combinarmos esses modelos identificamos as áreas que possuem as condições mais adequadas para a presença dos micos. Observamos que essas áreas de distribuição potencial apresentam grande sobreposição aos fragmentos de floresta remanescentes, indicando essa dependência dos micos pelos ambientes florestais”, detalha Gabriela, que ressalta índices preocupantes.
“Nossos resultados sugerem que a fragmentação das florestas e a modificação da paisagem tiveram efeitos profundamente adversos na distribuição dos micos. Os modelos indicam que apenas 2% da área está adequada, tanto em relação ao clima quanto à paisagem. Dessa área, somente 40% está sendo ocupada pelos primatas”, diz.
Apenas 2.096 km2, de uma distribuição original estimada em 92.239 km2 para a espécie, são hoje áreas adequadas para a sobrevivência do mico-leão-preto
Mapas são usados para priorizar áreas e desenvolver de estratégias de conservação
Divulgação/Gabriela Cabral Rezende
As análises apontaram as regiões oeste e sudeste do do estado de São Paulo, habitat natural da espécie, como áreas prioritárias para a conservação do mico-leão-preto, resultado que reforça a necessidade de incentivar ações conservacionistas. “Além de identificarmos essas áreas, pudemos direcionar estratégias de conservação pertinentes não só aos micos-leões, mas também a outras espécies ‘dependentes de floresta’. Outra conquista importante é a utilização desses dados no Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Primatas da Mata Atlântica e da Preguiça-de-coleira (PAN PPMA/ICMbio)”, completa.
Esse trabalho mostra como o uso de modelos teóricos podem ser aplicados de forma prática para o planejamento de políticas e ações de conservação. Apesar de direcionar a pesquisa a uma espécie específica, a abordagem é uma ferramenta poderosa que pode ser usada para estabelecer prioridades de conservação para outras espécies
Tecnologia em prol da natureza
A produção de relatórios tão detalhados contou com ajuda da tecnologia: ao combinar os modelos de clima e paisagem em um mapa, é gerada uma classificação para cada pixel, correspondente à área de 1 km², relativa ao grau de adequabilidade. Essa classificação varia de 0 a 100% em dois eixos, sendo um para o clima e outro para a paisagem. “Com base nessa escala enxergamos quais são as áreas que devem ser priorizadas para manejo e restauração de habitat, essas, que são majoritariamente locais onde a floresta foi desmatada e geralmente estão localizadas ao redor de áreas altamente prioritárias”, detalha Gabriela.
Os mapas indicam três cenários diferentes que precisam de atenção: áreas com clima adequado, mas paisagem fragmentada; áreas com florestas preservadas, mas clima inadequado e, por fim, locais altamente prioritários com clima e paisagem adequados. “Para esse último, a indicação é trabalhar com a conservação do habitat através da criação de Unidades de Conservação ou com manejo de populações, reintroduzindo a espécie em locais onde ela não esteja presente”, diz.
Num cenário em que recursos para conservação de espécies são cada vez mais escassos, a priorização de áreas e o direcionamento de estratégias ganha ainda mais relevância, por tornar as ações mais custo-efetivas
Gabriela Rezende foi uma das vencedoras do “Oscar Verde” com projeto de conservação dos micos-leões-pretos
Katie Garrett/Arquivo Pessoal
Símbolo do estado de São Paulo
Exclusivo da Mata Atlântica, o mico-leão-preto vive somente em matas do interior de São Paulo. No Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção a população da espécie é estimada em 1.400 indivíduos, sendo que 80% ocorre na região do Pontal do Paranapanema, no Parque Estadual do Morro do Diabo.
Nas florestas preservadas o primata encontra abrigo em ocos de árvores e alimento: a dieta é composta por frutos, néctar, flores e presas animais como anuros, lagartos, aves e insetos.
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