segunda-feira, novembro 30, 2020

Conheça o projeto do Espírito Santo que capturou onça-pintada de forma remota


Há 15 anos, Projeto Felinos atua de forma pioneira para conservação desses animais; pesquisa resiste diante de ameaças e retaliações. Pesquisadores ao redor da onça-pintada capturada pelo projeto em 2019 e monitorada até este ano
Projeto Felinos/Divulgação
Há 15 anos o Norte do Espírito Santo, uma área que preserva remanescentes de Mata Atlântica, é encoberto também pelo espírito de cuidado com a onça-pintada. É nesse ambiente que “habita” o “Projeto Felinos”, uma iniciativa voltada à pesquisa e conservação que já alçou altos voos incluindo a aplicação de uma tecnologia pioneira no mundo ao capturar um macho desse animal para estudo.
As atividades do projeto começaram com a análise do estado de conservação desses felinos. Com a instalação de armadilhas fotográficas, informações sobre a quantidade de onças-pintadas na área, o número de integrantes de cada gênero e até a presença de suas presas no território puderam ser catalogadas. Mas o cenário traçado com o início do projeto, em 2005, ditava o ritmo da ameaça à supremacia dessa espécie.
Macho de onça-pintada capturado pelo projeto faz parte de uma população monitorada desde 2005; imagem de armadilha fotográfica mostra o deslocamento
Projeto Felinos/Divulgação
“Com base em análises computacionais, estimamos que as reservas da região comportem até 20 indivíduos, restritos ao Complexo Florestal Linhares-Sooretama. Nos primeiros anos do estudo, registramos 11 indivíduos em uma área equivalente à metade do habitat disponível, o que reforça as estimativas obtidas por computador”, afirma Ana Carolina Srbek de Araujo, bióloga que fundou e coordena o projeto.
Dizimada pela perda do habitat e pela redução da disponibilidade de suas presas, a onça-pintada, que antes ocupava toda a Mata Atlântica, agora se vê restrita a poucos remanescentes desse ecossistema isolados em alguns estados brasileiros. A estimativa é de que menos de 250 indivíduos adultos resistam em toda a Mata Atlântica! Um cenário que torna urgente a necessidade de acompanhá-los de perto e ações assim já fazem parte da história recente do Projeto.
Veja como funciona o dispositivo que capturou de forma remota uma onça-pintada
Com uma espécie de controle remoto semelhante aos de vídeo games, uma tela com um visor e uma câmera acoplada a uma pistola anestésica, os pesquisadores uniram cuidado e precisão em uma ação bem sucedida em 2019. O equipamento remoto de captura, como é conhecido, foi utilizado a partir da parceria do projeto com o pesquisador Francisco Palomares, da Estação Biológica de Doñana (Espanha). Ele foi instalado em uma área de passagem da onça e acionado, disparando o tranquilizante, a partir de uso da câmera e do controle do “joystick” pelos pesquisadores, com um detalhe: tudo à distância.
“Comumente são utilizados métodos tradicionais de captura, como o laço com gatilho. Mas, no nosso caso, os animais de Mata Atlântica são muito arredios e desconfiados e estavam desviando dessas armadilhas. Além disso, nos métodos tradicionais, o animal vê você na área quando está preso na armadilha e fica bastante estressado. Com o equipamento remoto, ele é anestesiado e os procedimentos são realizados pela equipe sem que o animal tenha a percepção que estamos na área”, destaca Ana Carolina.
Com o apoio do Projeto, pela primeira vez em todo o mundo, um grande felino foi capturado com o equipamento remoto
No Espírito Santo, um grande remanescente isolado de floresta, onça foi capturada e passou por análises
Projeto Felinos/Divulgação
O macho de onça-pintada obtido através desse método, em julho do ano passado, foi também um marco para o estado, já que representou a primeira onça-pintada capturada no Espírito Santo para estudos. O contato próximo com esse animal garantiu informações que não se obtém apenas com amostras fecais ou com as armadilhas fotográficas. “É possível retirar amostras de sangue e avaliar a condição da dentição e da pelagem, por exemplo, que são indicativos da saúde geral do anima. Em machos, podemos detectar também se ele está reprodutivamente saudável, com a análise dos testículos”, afirma a bióloga.
Depois da captura, o animal recebeu um colar com GPS e foi monitorado por um ano pelos pesquisadores. Além dessa onça-pintada, uma onça-parda resgatada em área urbana e levada para outra região pelo Projeto Felinos também recebeu esse acessório. Ele permite que os pesquisadores entendam como é a dinâmica desses felinos na paisagem e em quais áreas eles costumam se deslocar ou permanecer por mais tempo. Informações tão preciosas que podem incomodar certos “inimigos” da natureza.
Onça-parda apareceu em uma residência, com alguns ferimentos, foi capturada, analisada e devolvida a uma área apropriada com o colar de monitoramento
Projeto Felinos/Divulgação
“Nós tivemos um avanço com a captura, mas caçadores que vão à mata em busca de outras espécies quebram e furtam equipamentos, como as armadilhas fotográficas. Em setembro, após uma pausa por conta da pandemia, a gente constatou a perda de mais duas delas”, destaca Ana Carolina. A pesquisadora ainda afirma que a ação de caça pode reduzir a disponibilidade das presas das onças, gerando crises na alimentação e aumento na competição entre os felinos. As populações animais reduzidas vivem também assombradas pela tendência do acasalamento entre parentes, o que pode causar a redução da variabilidade genética da espécie e acelerar seu desaparecimento.
Após o tempo estabelecido, colar preso à onça-pintada se desconectou do corpo do animal e foi recuperado na mata pelos pesquisadores
Projeto Felinos/Divulgação
Contra as ameaças contínuas, persistência e informação são necessárias. Ferramentas para superar a dificuldade de conservar animais tão relevantes. “Por que ecologicamente é importante conservar felinos? Como predadores, eles consomem outras espécies e, indiretamente, controlam as interações delas com outros organismos. Por exemplo, controlar a população de herbívoros é também controlar a forma com que esses herbívoros interagem com a flora. Há ainda outro ponto: existe uma tendência desses felinos capturarem principalmente presas debilitadas ou doentes, já que são mais frágeis. E, com isso, mantenham as populações desses animais saudáveis”, explica a bióloga responsável pelo “Projeto Felinos”.

Ultimas Notícias

Covid-19: SP apertará quarentena após alta de casos

O Estado de São Paulo retrocederá na abertura de atividades após alta de internações e casos de Covid-19 nas...

Petista sobre ofensas de Joyce: ‘muito dolorido, quero apagar da memória’

Na semana passada, a deputada Joice Hasselman (PSL-SP) foi condenada a pagar a hoje vice-governadora do Piauí, Regina Souza, do PT, 40.000 reais por...

PATs oferecem 360 oportunidades de emprego em oito cidades da região de Campinas; veja lista

Destaque é para Indaiatuba (SP), que oferece 129 vagas. Devido à pandemia do novo coronavírus, atendimentos ocorrem pela...

Os avanços da ciência além da Covid-19

Nesse 2020 pandêmico cheio de incertezas, procuramos encontrar uma saída, uma vacina, um tratamento para a Covid-19. Em paralelo a tudo isso, há ainda...

Covid-19: Reino Unido pode começar vacinação em 7 de dezembro

A vacina da Pfizer desenvolvida em parceria com o laboratório de biotecnologia BioNTech pode ser o primeiro imunizante para Covid-19 a ser autorizado de maneira emergencial no...
- Advertisement -