quarta-feira, dezembro 2, 2020

Anilhas colocadas para pesquisa descobrem idade de ave rara e ameaçada


Registro motiva a explicação da importância desse tipo de “acessório” para a ciência; você sabe para que elas servem? Bicudinho-do-brejo-paulista é endêmica do Estado de São Paulo é rara e foi descrita há apenas seis anos pelos pesquisadores
Rita de Cassia de Carvalho/Acervo Pessoal
Pulos de alegria. Essa foi a reação da enfermeira aposentada e observadora de aves Rita de Cassia de Carvalho ao conseguir fotografar um bicudinho-do-brejo-paulista, uma das aves mais ameaçadas do Brasil, em Salesópolis (SP). O registro foi feito durante uma expedição com o guia Rogério Magalhães no início da manhã de 23 de outubro e garantiu ainda mais significado por um simples objeto: uma “pulseirinha” na perna da ave.
A presença de anilhas foi notada só quando as fotos já tinham sido feitas. Essa espécie, que se esconde nos brejos conservados do município, “deu mole” e fez pose com acessório. “Como eu sou enfermeira e sempre gostei dessa área de biologia, associei a anilha com a conservação da espécie e do ambiente. Eu fiquei radiante de alegria de saber que ele estava sobrevivendo e que estava com uma parceira!”, conta Rita, que também viu a fêmea no local.
Bicudinho-do-brejo-paulista sobrevive há pelo menos oito anos, informação obtida graças à anilha
Rita de Cassia de Carvalho/Acervo Pessoal
A ave flagrada pela observadora foi anilhada há pelo menos oito anos pela ornitóloga Glaucia Del-Rio em parceria com a pesquisadora Crisley de Camargo. O trabalho de Glaucia, que fez parte do mestrado pelo Museu de Zoologia da USP, buscava medir o tamanho das populações, saber o quão ameaçada a espécie estava no local e mapear áreas dentro dos brejos adequadas a ela. “Descobri que em locais onde há lírio-do-brejo, planta exótica invasora, o bicudinho não habita”, descreve Glaucia.
Cada uma das aves recebeu uma combinação de anilhas coloridas única, nas duas pernas, o que permite obter dados ainda mais precisos. E, apesar de ser difícil garantir quem é o indivíduo que aparece na foto, a ornitóloga tem uma aposta. “Acredito que seja o Brazuca, pois tenho registros de que ele tinha uma anilha amarela e outra azul na perna esquerda. O Brazuca foi anilhado em 2012 e já era adulto nessa época”.
Glaucia , recentemente, liderou a expedição no Rio Juruá onde ornitólogas analisaram mais de 300 espécies de aves Amazônicas
A pesquisadora, que agora realiza outro tipo de análise com aves amazônicas, vibra pelo achado. “Ver os bichinhos que anilhei ainda vivos e bem é como ser visitada por parentes queridos que eu não via há muito tempo. Um passarinho aparentemente tão frágil e vulnerável viver quase 10 anos, é impressionante”, reforça ela sobre dados que só são possíveis de serem obtidos pela presença do pequeno acessório na perninha da ave.
Como se anilha uma ave
Aves pequenas são anilhadas a partir da captura em redes de neblina, já aves grandes são atraídas e capturadas de forma oportunista
Luciano Lima/Acervo Pessoal
Assim como Glaucia, o ornitólogo Luciano Lima também realiza o trabalho de anilhar as aves há diversos anos e explica a origem da prática. “O anilhamento começou a ser utilizado por pesquisadores na década de 1960 e ganhou grande impulso com a criação do CEMAVE em 1977, um órgão governamental vinculado ao ICMBIO que é responsável pelo Sistema Nacional de Anilhamento. Ele concede aos pesquisadores capacitados as licenças e as anilhas para o uso desta técnica e reúne os dados coletados em todo o Brasil”.
Durante o anilhamento, as aves são submetidas a medições, análises e pesagens por pesquisadores
Luciano Lima/TG
Desde então, essa se tornou uma das práticas mais tradicionais de monitoramento de populações de aves silvestres. O processo é feito, normalmente, utilizando redes-de-neblina, um equipamento de uso exclusivo de profissionais da área que barra a passagem das aves que não o enxergam e ficam enroladas nesse instrumento, sem que haja ferimentos. Aí então um anel frouxo é colocado na pata dos animais, sem machucar ou causar dano algum também, contendo alguns códigos para identificação.
Entenda como funcionam as anilhas em aves silvestres; sabiá-barranco da imagem foi batizado como Caparaó
Arte/TG
Capturada a ave, cinco minutos são suficientes para obter outros dados sobre a espécie. “Além de anilhar, os ornitólogos também coletam uma série de informações da ave capturada, como peso, medidas e estado da muda de penas, devolvendo imediatamente o animal à natureza após estes procedimentos”, define Luciano Lima.
Encontrando as “pulseirinhas”
O anilhamento realizado pelo projeto tem reforçado como aves florestais frequentavam áreas urbanas e a importância de parques nas cidades
Daniel Bernardo Bessi/Acervo Pessoal
Há quatros anos, uma iniciativa de restauração florestal decidiu usar a força das anilhas como forma de divulgar ciência. O projeto “Eu vi uma ave usando pulseiras!?”, criado pelo biólogo e pesquisador Eduardo Alexandrino, pretende unir curiosos que avistam espécies com esses acessórios com um banco de dados que possa fornecer informações sobre os indivíduos flagrados.
Mais de 180 aves anilhadas no Parque do Museu de Biologia Prof. Mello Leitão no Espírito Santo, no Legado das Águas em Tapiraí (SP), na RPPN Trapaga do Instituto Manacá em São Miguel Arcanjo (SP) e no Campus da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” da ESALQ/USP em Piracicaba (SP) compõem esse banco de dados.
Como parte da ação, Eduardo Alexandrino já realizou o monitoramento e anilhamento de seriemas na universidade Esalq
Tiriba-de-testa-vermelha apelidada de Lica foi anilhada no parque do Museu de Biologia Prof. Mello Leitão e já frequentou 33 vezes a casa de uma moradora local, que fez o flagrante
Fátima Rossini/Acervo Pessoal
A iniciativa de Eduardo, que ocorre principalmente pelas redes sociais, já permitiu que crianças dessem apelidos às aves anilhadas que visitam seus quintais e até começou a buscar respostas para dilemas antigos. “Num projeto da minha mestranda, Maristela Camolesi Alcântara, estamos avaliando qual é a frequência de cada ave visita comedouros. Como a gente anilhou cada uma, monitoramos por câmeras quantas vezes os indivíduos aparecem. Assim, saberemos se o comedouro atrapalha e cria dependência das aves no meio ambiente”.
O projeto é mantido em parceria com o Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA), Laboratório de Ecologia, Manejo e Conservação de Fauna Silvestre (LEMaC/ESALQ/USP), Instituto Manacá, Legado das Águas, Ecoloja e Prefeitura de Águas de São Pedro/SP
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O “Eu vi uma ave usando pulseiras!?” ainda se limita à proximidade das quatro localidades citadas, já que é necessário haver um padrão de cores e anilhas para que a população possa saber detalhes de cada espécie, mas já sonha com voos mais altos.
“Trabalhamos para que, um dia, exista um aplicativo no celular onde a população poderá mostrar a ave flagrada com a anilha e a gente saiba o histórico dela em uma localidade já que um ornitólogo informou sobre ela ao projeto”, afirma Alexandrino que já comemora os frutos colhidos desde já. E ainda completa: “Anilhando os indivíduos, a gente passa a acessar informações úteis e ter a participação do cidadão”.
Imagem mostra uma das espécies anilhadas entre outubro e novembro de 2019 pelo projeto “Eu vi uma ave usando pulseiras!?”
Daniel Bernardo Bessi /Acervo Pessoal
A observadora que flagrou o bicudinho-do-brejo-paulista já entendeu a mensagem passada pela presença das anilhas e propaga: “Não é simplesmente colocar uma pecinha lá e deixar como um presente para o passarinho. É um trabalho científico. É um símbolo da conservação, da preservação da espécie”, descreve Rita de Cassia de Carvalho.

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