domingo, janeiro 17, 2021

Grupo de mulheres cria fundo para viabilizar negócios de empreendedoras negras e indígenas na região de Campinas


Por meio de colaborações voluntárias, Projeto Agbara beneficia mulheres nas cidades de Campinas, Hortolândia, Sumaré, Americana e Paulínia. Iniciativa é recente e já conta com cerca de 170 doadores. Fabiana (à esquerda), a beneficiária Nil Sena (no centro) e Aline (à direita)
Aline Odara/Arquivo Pessoal
Agbara significa potência, força e poder em iorubá, idioma de origem nigeriana. Em Campinas (SP), o termo também dá nome a um projeto que busca, por meio do repasse de verbas para empreendedoras negras e indígenas, ajudar que esses termos sejam cada vez mais próprios da vida dessas mulheres.
Em meio à crise econômica causada pela pandemia da Covid-19, o “Projeto Agbara”, um fundo rotativo solidário criado por quatro mulheres da metrópole do interior de São Paulo, arrecada doações para transferência de renda tanto na cidade quanto em outros municípios da região, como Hortolândia, Sumaré, Americana e Paulínia.
A iniciativa é recente, foi lançada em setembro deste ano, mas soma 170 doadores cadastrados. Também já recebeu 60 inscrições e beneficiou cinco mulheres. Uma delas é Sandra Gomes, que conheceu o projeto na ocupação Joana d’Arc, em Campinas. Sandra foi a segunda beneficiada.
À época, ela queria abrir o próprio negócio de venda de salgados, mas a falta de recursos financeiros impedia. Ser contemplada permitiu o início do sonho.
“Hoje meus filhos já estão criados, mas quando eu criei eles, foi vendendo salgadinho de porta em porta. […] Com os R$ 600 [arrecadados pelo Projeto Abgara], eu fui no Atacadão, comprei tudo que eu precisava para começar. Com o dinheirinho que sobrou, eu comprei um freezer”, lembra.
Projeto permitiu que Sandra realizasse o sonho de abrir o próprio negócio
Aline Odara/Arquivo Pessoal
A educadora Aline Odara é uma das coordenadoras do projeto, junto com Fabiana Aguiar, Iara Teixeira e Mariana Pimentel. Segundo ela, a iniciativa tem como proposta combater o racismo cotidiano.
“Para combater o racismo estrutural é necessário ter uma circularidade do poder que está concentrado apenas na mão de um grupo étnico. Esse poder pode ser simbólico ou econômico”, afirma a educadora .
Autonomia e autoestima
Segundo Odara, o objetivo é fomentar a autonomia e autoestima das beneficiárias, que pertencem a um grupo social diretamente afetado pela crise do novo coronavírus. As mulheres, escolhidas com base em critérios socioeconômicos, recebem de R$ 600 a R$ 900, de acordo com a necessidade dos projetos delas.
Para participar, as empreendedoras interessadas devem realizar a inscrição pela internet.
“Além desse fomento, a gente tem tentado fornecer algumas assessorias. Estamos cadastrando também parceiros que queiram oferecer assessorias dos mais diversos tipos. E, para depois da pandemia, temos feito uma reserva financeira para fazer cursos para essas mulheres”, afirma Odara.
Iniciativa já recebeu 60 inscrições e contemplou cinco mulheres da região
Aline Odara/Arquivo Pessoal
Outra fundadora, a publicitária Fabiana afirma que a iniciativa vai muito além da contribuição financeira e abrange também o sentimento acolhimento e apoio trazido pela rede.
“A gente sabe que o brasileiro é empreendedor, e as mulheres brasileiras pretas e periféricas, mais ainda. Essas mulheres sobrevivem todos os dias. […] Foi lindo ver nos olhos delas a possibilidade, sabe? A possibilidade de algo acontecer no meio dessa pandemia”, afirma Fabiana.
Sonho realizado
Atualmente, Sandra Gomes continua vendendo salgados na região do Jardim Santo Antônio, além de ter incorporado bolos de pote ao cardápio. De acordo com ela, o negócio já possui página na internet, cartões de visita e etiqueta personalizada para as embalagens.
“Eu tenho o sonho de ser uma grande empresária, vendendo os meus salgadinhos e o meu bolo de pote, e expandir mais. Eu pretendo fazer tortas e vender aos domingos”, afirma, ambiciosa.
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*Sob a supervisão de Arthur Menicucci.
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