terça-feira, janeiro 26, 2021

A primeira semana e a descoberta de que inseguranças são compartilhadas

24 de novembro: Hoje completa uma semana desde que tomei a dose experimental da vacina que o laboratório Janssen-Cilag desenvolve contra a Covid-19. Tirando o dia seguinte à aplicação do imunizante, quando meu corpo doía como se não houvesse amanhã e momentos esparsos de dor de cabeça, sobrevivi bem. Vale a pena ser voluntária porque o objetivo final de se fabricarem bilhões de doses para conter a pandemia é muito maior do que qualquer indisposição ou efeito adverso pontual. Vale a pena, mesmo que a guerra das vacinas tenha que ser decidida pelo STF.

Para pessoas que não são da área médica, como eu, é difícil avaliar se um incômodo no ombro ou um cansaço específico tem ou não relação com a vacina. Em geral, acredito que não estão interligados, mas é uma dúvida que perpassa a cabeça de muitos voluntários. Me chamaram de hipocondríaca desde que anunciei que participaria do projeto em busca de uma vacina anti-Covid. Em minha defesa, quero dizer que as inseguranças sobre onde nós, voluntários, estamos pisando são extremamente comuns. Acabei inserida em uma espécie de rede virtual de solidariedade formada por pessoas que se dispuseram a participar das pesquisas clínicas.

Voluntários me perguntam sobre medos, dores, paranoias e protocolos de preenchimento dos efeitos colaterais do dia. Uma voluntária da Janssen relata que apresentou sintomas leves que indicam que pode ter sido infectada pelo novo coronavírus. O protocolo foi acionado: ela fez um teste PCR na própria casa (sim, temos na mesa da cabeceira aquelas hastes terríveis que parecem que tocam o cérebro para fazermos um autoexame de Covid) e vai em breve ao centro médico fazer exames complementares. “Sempre ficamos na dúvida se são efeitos, sintomas de Covid ou coisas da nossa cabeça, não é?”, escreveu ela em uma mensagem privada. Concordo integralmente.

10h38: Decidida a fazer um checkup no meio do estudo clínico em que sou voluntária de uma vacina experimental, chego ao consultório delatando tudo que senti e temi nos últimos sete dias. Quero que uma médica avalie se estou somatizando efeitos ou se tenho algo com que me preocupar. Conclusão dela: provavelmente estou com picos de cortisol causados por estresse. Mais uma vez não estou só. Mudanças bruscas de rotina afetaram a saúde mental de muita gente nesta pandemia. A conclusão é de um estudo realizado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) publicado pela revista The Lancet, a bíblia da ciência em tempos tão incertos. Crises de ansiedade e estresse agudo mais do que dobraram no início da pandemia, de acordo com a pesquisa. Meu cortisol está aí para provar que é verdade.

15h51: As notícias promissoras sobre vacinas em experimentação não param de chegar. Contam muito com o feedback que damos às equipes clínicas. No Brasil, quatro vacinas receberam autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para serem testadas na fase 3. Ao todo somos 33.720 voluntários brasileiros nos submetendo a estudos clínicos naquela que é a pesquisa científica mais urgente das últimas gerações.

17h03: O gabinete do ministro Ricardo Lewandowski informa que, a partir da sexta-feira da semana que vem, o STF vai começar a julgar se o governo tem de ser obrigado a comprar doses das vacinas específicas, como a CoronaVac, desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac Biotech em parceria com o Instituto Butantan. Há um pedido para que a Justiça determine que seja assinado um protocolo de intenção para a aquisição de 46 milhões de doses e outro para que nem o presidente nem o ministro da Saúde “dificultem ou impeçam” qualquer parceria em busca da vacina. “Que não dificultem ou impeçam”, repito.

19h35: Continuo somatizando efeitos outros que não os relacionados à vacina. Decido ir a um laboratório fazer testes de sangue.

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