segunda-feira, janeiro 18, 2021

Esperança me fez deixar de lado futilidade e ser voluntária, diz estudante

27 de novembro, 13h10: Descubro com o absolutamente perdoável atraso de pessoas pouco afeitas a redes sociais que uma jovem mato-grossense havia me mandado há dias mensagens privadas sobre a experiência de ser voluntária nas pesquisas que buscam vacinas contra a Covid. Leslie Ayumi Ikeno, de 24 anos, se candidatara para atuar como voluntária do imunizante da Janssen-Cilag, o mesmo estudo do qual sou parte, e estava hesitante em encarar a empreitada. Temia ter febre, enjoo, mal-estar e dores, receios que eu e outros milhares de voluntários por todo o mundo certamente compartilhamos. Leslie seguiu em frente, recebeu o fármaco experimental em Cuiabá e resultado: nenhum efeito colateral.

Conversamos na tarde desta sexta-feira, mais de uma semana depois do meu lapso de não ter visto a mensagem dela. É interessante ouvir o que levou a estudante de Direito e Relações Internacionais a decidir ela mesma ser um vetor de testes na pesquisa científica mais importante dos últimos tempos. Ela conta que explicou para a mãe – preocupada com a “ousadia” da filha, como provavelmente a esmagadora maioria das mães de voluntários – que certas posturas altruístas, ainda que singelas, são um grãozinho de areia em busca de melhorias para toda a coletividade. “É importante que certas iniciativas partam de nós de forma altruísta mesmo. Por mais que sejam mínimas, elas fazem toda a diferença. Se todos depositarmos a responsabilidade no outro, acaba que ninguém se responsabiliza por nada”, me disse ela.

O raciocínio da Leslie é digno de nota: se as pesquisas clínicas precisam de voluntários para que possam ter êxito, não faz nenhum sentido ficar acomodado em sua zona de conforto contando que apenas os outros – pessoas desconhecidas de lugares distantes – assumam o papel de se candidatar para os estudos em prol da vacina. “Não é ato de heroísmo, tampouco de egoísmo para ser imunizada antes. É essa genuinidade de pensar no coletivo, de se importar com pessoas que você ama, de poder contribuir para que meus pais, família e amigos estejam seguros”, me disse ela.

“A verdade é que pensei que todos estamos vivendo um momento onde tudo é novo e há muita insegurança e muita incerteza. Me surgiu uma faísca de esperança em meio a uma crise sanitária dessa magnitude, esperança de que temos que deixar de lado vaidade, egoísmo, futilidade e mesquinhez”, afirmou Leslie em um depoimento ao blog. “Ainda existem pessoas com senso de humanidade, empatia e altruísmo no mundo. E tive certeza, pelo menos do que partia de mim, que ser voluntária era genuíno e consciente”.

19h26: Respondo ao questionário do estudo clínico – agora não mais diariamente – e informo que não tenho qualquer sintoma que possa estar relacionado à Covid. Valeu muito à pena lidar com a dor no corpo que tive (e que não foi pouca) e com a enxaqueca que me acompanhou por alguns dias. A perspectiva de participar do projeto de desenvolvimento de uma vacina transforma qualquer incômodo em mero detalhe.

19h43: Fiquei feliz de ver pessoas tão jovens como a Leslie encarando a pandemia não com festas e aglomerações, mas com um importante senso de coletividade.

21h41: A Anvisa informa que a Jannsen-Cilag  iniciou o processo de submissão contínua de seus dados sobre a vacina para as autoridades brasileiras. É o primeiro passo antes de, com a posse, em um futuro breve, de informações sobre a eficácia do imunizante, ela pedir a autorização emergencial para aplicar na população. Espero nos próximos meses compartilhar com a Leslie a alegria de quando soubermos a taxa de eficiência da vacina que estamos testando.

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