domingo, janeiro 24, 2021

Os recados das eleições municipais para 2022

Embora as eleições municipais tenham seus resultados mais impactados pela lógica local, o pleito também emite alguns sinais para 2022. Nas eleições deste ano, que foi bastante atípico por conta da pandemia, há três recados importantes:

1) PSDB, DEM e MDB, que elegeram 13 prefeitos nas capitais, emitem sinais que poderão caminhar para uma “tríplice aliança” em 2022;

2) O enfraquecimento da hegemonia do PT no campo progressista. O partido não elegeu nenhum prefeito nas capitais, além de perder espaço para o PDT e PSB. Além disso, o PSOL desponta como mais um concorrente nesse campo;

3) A necessidade do presidente Jair Bolsonaro reinventar sua narrativa, a partir da derrota do discurso da “anti-política” nas eleições municipais

Começamos por Jair Bolsonaro, que por ser o presidente da República e provável candidato à reeleição, é o protagonista da sucessão de 2022. Ao contrário das eleições de 2018, é improvável que Bolsonaro consiga se reeleger com a narrativa da polarização permanente. As eleições municipais mostraram um eleitor bastante pragmático. Prova disso foi o sucesso eleitoral de muitos prefeitos/candidatos que demostraram ser bom gestores.

Não apenas isso, em 2022, ao contrário de 2018, o governo Bolsonaro será avaliado. Nesta avaliação, a agenda econômica deve voltar a ser o item prioritário, deixando a pauta de costumes e a narrativa antipetista, que foi muita intensa no último pleito, num plano secundário.

Esta mudança de conjuntura levará a necessidade de Jair Bolsonaro caminhar para a centro-direita. Aliás, não é por acaso que, diante das dificuldades encontradas para viabilizar o registro da Aliança pelo Brasil – partido conservador criado pelo bolsonarismo –, é possível Bolsonaro que se filie a uma legenda já existente. Além de um possível retorno ao PSL, siglas como o PP, Republicanos, PL, PTB e Patriotas estão entre as especulações.

Com o Aliança muito provavelmente fora da agenda, haverá uma intensa disputa pelo passe de Bolsonaro ‒ afinal de contas o presidente, que possui mais de 30% de avaliação positiva, tem uma vaga praticamente garantida no segundo turno em 2022.

Ao que tudo indica, embora muita água ainda irá passar por baixo da ponte, está se criando o que defino como tríplice aliança – PSDB, DEM e MDB.

Apesar da forte estrutura partidária, o controle de máquinas administrativas com grande peso político e do robusto tempo de TV que uma aliança PSDB, DEM e MDB teria, essas siglas ainda carecem de um nome natural para a sucessão presidencial de 2022.

No campo da esquerda, apesar de o PT ter chegado ao segundo turno em 15 cidades do chamado G-96, venceu apenas em 4. Esse desempenho, combinado com o crescimento do PSOL ‒ sobretudo a chegada de Guilherme Boulos ao segundo turno na eleição em São Paulo ‒, a possível candidatura do governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), ao Palácio do Planalto, além da provável aliança PDT/PSB em torno do ex-ministro Ciro Gomes (PDT), poderá, mais uma vez fragmentar as esquerdas.

Ao contrário de pleitos anteriores, o PT não será o condutor natural do campo progressista. Embora o ex-prefeito Fernando Haddad (PT) tenha chegado ao segundo turno em 2018, não é um candidato que empolgue. O governador da Bahia, Rui Costa (PT), embora esteja na bolsa de apostas, é uma liderança apenas regional. Além disso, a própria narrativa do lulismo emite sinais de esgotamento, principalmente depois que o bolsonarismo invadiu o chamado Brasil profundo e enfraqueceu a base social lulista construída desde 2006 a partir do programa Bolsa Família.

Após as eleições municipais, o novo round visando a sucessão presidencial de 2022 será travado em fevereiro, na disputa pela Mesa Diretora da Câmara dos Deputados, para o biênio 2021-2022. Nos últimos anos, essas eleições foram utilizadas como um marco inicial de construções visando a eleição presidencial seguinte.

Por exemplo, em 1997, o então presidente FHC, através de um acordo firmado com o então PFL (hoje DEM) e o P(MDB), acabou consolidando a aliança PSDB, PFL e PMDB que deu suporte a sua campanha à reeleição em 1998. Embora o PMDB não tenha formalmente apoiado FHC em 98, a grande maioria de seus líderes regionais apoiou FHC.

Cenário similar ocorreu em 2009, quando o PT, a partir de uma articulação do então presidente Lula, cedeu as presidências da Câmara e do Senado para Michel Temer (PMDB) e José Sarney (PMDB), respectivamente, selando a aliança nacional PT/PMDB, que foi o pilar da eleição e reeleição de Dilma Rousseff em 2010 e 2014.

Ao que tudo indica, PSDB, DEM e MDB devem apoiar o candidato indicado pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), ou então dar suporte à própria candidatura de Maia à reeleição, se ele concorrer a um novo mandato. Os bolsonaristas na Câmara, mesmo que o Palácio do Planalto não se envolva na disputa, tendem a apoiar o candidato que for lançado pelo PP, PL, PTB, PSD e Republicanos.

Os partidos de esquerda (PT, PCdoB, PSOL, PDT, PSB e Rede) podem ter um ou dois candidatos no primeiro turno da disputa pela Mesa Diretora da Câmara. No segundo turno, tendem a apoiar o candidato apoiado por Maia contra o nome mais alinhado com o Planalto.

Embora ainda as articulações estejam em curso, se esse cenário for mantido, a eleição na Câmara pode estar antecipando alguns movimentos visando a sucessão presidencial de 2022. Assim como as eleições municipais, sobretudo nas capitais, emitiram alguns sinais.

Embora os candidatos apoiados pelo presidente Jair Bolsonaro tenham registrado um desempenho ruim nas eleições municipais, é importante registrar que seu governo não estava em avaliação nesse pleito. Mesmo que Bolsonaro seja um candidato forte, o desafio será reconstruir uma narrativa ‒ afinal de contas, como a economia terá um grande peso na agenda, ele será cobrado por seu desempenho nessa área.

O centro, por sua vez, também possui desafios. O voto dado na política tradicional, após a significativa derrota do establishment em 2018, sugere que há espaço para a construção de uma candidatura centrista. No entanto, além de encontrar esse nome, o centro também precisará uma narrativa.

Em seus discursos de vitória, Bruno Covas, em São Paulo, e Eduardo Paes, no Rio de Janeiro, deram alguns indicativos nesse sentido.

Covas afirmou que “São Paulo disse sim ao equilíbrio e à moderação. São Paulo mostra que faltam poucos dias para o obscurantismo e negacionismo. São Paulo disse sim à ciência e disse sim à moderação”.

Paes, por sua vez, classificou sua vitória como “a vitória da política contra a radicalização. Nós passamos os últimos anos radicalizando a política brasileira. O resultado desse radicalismo certamente não fez bem a nenhum de nós cariocas, não bem a nenhum de nós brasileiros”.

Tais declarações sinalizam que PSDB e DEM estão cada vez mais afinados. O mesmo se pode dizer em relação ao MDB, que foi o partido que mais conquistou prefeituras nas capitais – cinco no total.

Entre as esquerdas, o cenário é de transição. A hegemonia que o PT exerceu desde 1989 no campo progressista parece em xeque. O partido não conseguiu projetar um nome nacional que represente uma renovação ao lulismo, embora tenha o ex-prefeito Fernando Haddad (PT) como alternativa natural por ter concorrido em 2018. Paralelamente a isso, vê novos nomes surgirem, como, por exemplo, o de Guilherme Boulos (PSOL) ‒ uma opção com raiz popular e que mostrou capacidade de seduzir a classe média progressista no maior colégio eleitoral do país.

Quem também está no jogo é o governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB). E o PDT provavelmente lançará novamente o ex-ministro Ciro Gomes (PDT) em aliança com o PSB. Apesar de uma quantidade de nomes disponíveis, as esquerdas estão amarradas na narrativa do antibolsonarismo.

Apesar dos sinais trazidos pelas eleições municipais, o cenário é de incerteza quando olhamos para 2022. Bolsonaro, embora não tenha adversários claros competitivos nesse momento, precisa remontar sua narrativa e administrar um cenário econômico e social muito complexo. PSDB, DEM e MDB se fortaleceram, mas ainda não tem nomes nem narrativa. E as esquerdas, possuem excesso de nomes, mas a divisão do campo progressista e a falta de um discurso de renovação são desafios.

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