segunda-feira, janeiro 18, 2021

Fake news atingem também as vacinas contra a Covid

3 de dezembro, 7h56: A Organização Mundial da Saúde (OMS) concluiu que a rejeição a vacinas foi uma das maiores ameaças sanitárias em todo o mundo em 2019. Em 2019 mesmo, quando a pandemia do novo coronavírus ainda nem existia e não víamos no noticiário dia sim outro também a luta de cientistas para encontrar um imunizante contra a Covid-19. Esse diagnóstico da OMS pode ser em boa parte atribuído à atuação dos movimentos antivacina, que produzem resultados desastrosos ao incentivar a baixa cobertura imunológica da população. Só no ano passado, a OMS diz que 170 países registraram casos de sarampo. O Brasil foi o sexto em número de notificações de uma doença que já foi considerada erradicada nas Américas e que é neutralizada com doses de vacina. Esse suposto direito ao livre arbítrio de não imunizar os próprios filhos é o portal para o negacionismo científico.

8h05: Dou uma olhada em meu cartão de vacinas da fase adulta. Ele parece um daqueles pergaminhos encontrados por arqueólogos – antigo, frágil e cheio de informações. Lá há registros de doses de tríplice viral, hepatite A e B, febre amarela (com vacinação em pistola feita pela Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia – Sudam), febre tifoide, cólera, H1N1 e vários informes totalmente ilegíveis.

Desde que me tornei voluntária em um estudo clínico em busca do antígeno contra o coronavírus passei a ter sérias dúvidas se a humanidade está mesmo caminhando para frente. Isso porque as redes sociais (sempre elas) são uma potente arena de propagação de fake news contra vacinas. A conclusão é óbvia, mas está muito bem evidenciada em um estudo dos pesquisadores Dayane Fumiyo Tokoyama Machado, Alexandre Fioravante de Siqueira e Leda Gitahy, da Unicamp, da Universidade da Califórnia e do Institute for Globally Distributed Open Research and Education, da Suécia. Na pesquisa, eles encontraram mais de 50 vídeos no YouTube em Português contendo desinformação criada com objetivos específicos e informações deliberadamente erradas sobre vacinas. O cardápio é vasto: contemplam desde a promoção de curas e tratamentos alternativos milagrosos, uma fantasiosa relação entre vacinas e autismo e, claro, teorias da conspiração como as que dizem que imunizantes causam doenças ou efeitos colaterais gravíssimos. “A rejeição a vacinas está relacionada às fake news”, me disse o pesquisador principal do estudo no qual sou voluntária, Luis Augusto Russo.

Uma grande fake news que tem se propagado como rastilho de pólvora é a que afirma que vacinas feitas com RNA mensageiro, como as desenvolvidas pela Pfizer e pela Moderna contra a Covid-19, causam doenças autoimunes em que as recebe. Os profetas da cloroquina não apresentam provas. Os cientistas, por sua vez, contabilizam evidências que desmentem qualquer risco. Não foi observado nos voluntários que receberam vacina anti-Covid desenvolvida com esta técnica nenhum que tenha desenvolvido doença autoimune, afirmou em uma rede social a vice-presidente de Programas de Epidemiologia Aplicada do Sabin Vaccine Institute Denise Garrett. “Não há nenhuma indicação que as vacinas de RNA mensageiro não sejam seguras. Eu tomaria essa vacina e a aplicaria no meu filho, o meu bem mais precioso”, disse ela. Até agora mais de 70.000 pessoas já foram voluntárias em teses de imunizantes para o coronavírus com RNA mensageiro e, apesar de não terem sido detectados efeitos adversos graves, as fake news continuam produzindo estragos importantes.

Parece que o mundo é tarja preta.

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