quarta-feira, janeiro 20, 2021

Nem novo, nem normal

Considerado em 2019 o segundo país mais feliz de todos (o primeiro lugar ficou com a Finlândia), a Dinamarca ocupou esse posto em 2013 e 2016, liderando o Índice Mundial de Felicidade, segundo a Organização das Nações Unidas. O site Family Life Goals comenta que nesse país, os serviços de saúde e de educação são gratuitos. Sua geografia permite que, de qualquer ponto da Dinamarca, as pessoas estejam a uma distância máxima de 52 km do mar. Que privilégio! Além disso, são valores fundamentais para os dinamarqueses, a empatia e a afeição, o que torna o país próspero e seus habitantes compassivos. A empatia faz parte do currículo padrão, ensinando às crianças dinamarquesas o significado de entender e compartilhar seus sentimentos, bem como capacitando-as a identificar e trabalhar estados emocionais.

Ao me deparar com esses dados, “bateu” a curiosidade de saber a posição do Brasil nesse ranking, o que fui procurar. Nosso país ocupa atualmente a 32ª posição, entre 153 países mais felizes. Na primeira edição, em 2012, éramos o 25º colocado e o 17º, em 2016.

Confiança é fundamental para o estabelecimento e a manutenção dos relacionamentos. A percepção de que se pode desenvolver uma relação de ajuda mútua e cumplicidade libera a substância ocitocina na corrente sanguínea, provocando uma conexão empática entre as pessoas. Isso se dá, porque a ocitocina baixa a tensão, relaxando nossa musculatura e reduzindo nossa ansiedade, enquanto favorece que nossa pressão se estabilize.

Mas o que é empatia, afinal? É a condição pela qual cada um consegue reconhecer suas próprias emoções, bem como as alheias, o que compatibiliza as relações interpessoais. Empatia e ocitocina são, portanto, uma dupla imbatível para que vínculos afetivos se desenvolvam.

A empatia pressupõe capacidade de perceber, sem julgar (componente cognitivo); capacidade de reagir em sintonia com a emoção do outro (componente afetivo) e expressão verbal, postura e atitude que validam o sentimento do outro (componente comportamental).

Creio que você concorda comigo, no que tange à sensação de que está faltando empatia em boa parte do planeta e que essa falta se exacerbou com o advento da pandemia, orquestrada pelo confinamento e pela insegurança diante do futuro próximo e do longínquo. Mais que mera impressão, a certeza de que insensatez é a regra complica sobremaneira um tempo já difícil de encarar.

Todos os dias somos alvo ou temos conhecimento de atrocidades cometidas contra pessoas, independentemente de sua cor, sexo, gênero, idade, estado civil, crença ou condição socioeconômica. Indiferença, pouco caso, fake news, assédios, fraudes, abusos, assaltos, estupros, assassinatos… se repetem à exaustão, aqui e ali, apavorando-nos, ao mesmo tempo em que vamos nos habituando com fatos cada vez mais hediondos, cada vez mais comuns ou mais divulgados. Sem ocitocina nas veias, o ser humano se revela (ou se supera) na sua perplexidade ou na sua omissão , diante da violência de toda natureza, inclusive sexual.

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Lembro que, há pouco menos de uma década, era moda postar fotos e vídeos de abusos cometidos por “encoxadores” nos metros brasileiros. Enquanto uns tantos se davam ao desplante dessa prática, muitos outros se tornavam seus seguidores na internet. Esse tipo de “entretenimento” ilustra, de forma inequívoca , o que a falta de empatia pode produzir: ousados abusadores e seu abominável público fiel. Havendo quem praticasse e quem assistisse, sem vomitar, o atrevimento só fez crescer, a ponto de convivermos hoje com quem defenda e justifique (de um lado) ou politize e enviese (de outro) absurdos iguais ou piores do que esse. Não vou nomear os protagonistas, pois são de conhecimento publico e não há semana em que não manchem as páginas dos noticiários, fazendo parecer principiantes os tais “encoxadores” de um passado recente.

Nem novo nem normal. O que estamos vivendo são tempos bicudos, debochados e torpes, onde a narrativa se sobrepõe aos fatos, assim como o inverossímil desacata o óbvio, enquanto a verdade é atirada no lixão do ´deixa prá lá’. Encharcados de cortisol ¾ a substância lançada na circulação, em situações de estresse ¾ mais parecemos alienígenas do que pessoas.

Desacreditado e humilhado, o amor sai de cena, enquanto os zumbis se multiplicam e a raça humana corre sério risco de extinção

Diante desse cenário deplorável, dentro e ao redor de cada um, o sexo saudável se torna cada vez mais raro (se não impossível), ao ser sufocado pela doença de uns tantos e pela inércia de uns outros.

Palavras pesadas, para um tema e um tempo nada leves. Chego a não me reconhecer nessa total ausência de otimismo! E a lastimar não ter algo mais brando para declarar. Por outro lado, tenho a absoluta convicção de que não podemos emudecer.E insisto: nem novo nem normal. Apenas um tempo em que, enquanto os bons se calam, vão sendo enterrados junto com suas vozes, o amor e a empatia. Enquanto os bons se calam, a barbárie vocifera.

Para não sucumbir a tanta decepção e tanta tristeza, me dirijo a um hospital, a uma unidade de terapia intensiva, e observo: quanta dor, quanto sofrimento! A vida por um fio… Ao mesmo tempo, no mesmo espaço, uma contundente demonstração de empatia me devolve a crença nas pessoas e no futuro: homens e mulheres de branco , trabalhando em sobre-humano empenho para salvar seus pacientes. Homens e mulheres de branco do Brasil.

Saio, bastante aliviada, e me sento no banco de uma praça, onde crianças brincam com outras crianças , e também com seus pais. Quanta ocitocina, empatia, felicidade! Crianças e pais brasileiros.

Volto feliz para casa, recuperada do meu pessimismo, e com muita vontade de abraçar, cantar, dançar, fazer algo de bom para alguém , ou melhor, para todos. Volto, como que vacinada desse novo normal. Pego o porta- retrato , beijo saudosa a foto de meus pais, e parece que os ouço dizer, mais uma vez: faça a sua parte, não porque deseja um mundo melhor, mas para merecê-lo! Meus pais nunca foram á Dinamarca…

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