quinta-feira, janeiro 21, 2021

Volta às aulas tem que ser prioridade

Durante esses meses acompanhamos nas redes, na grande mídia e nos discursos políticos o debate do binômio Saúde vs economia. Interessante – embora triste – é ver que, num processa pandêmico de alto impacto, caracterizado pela falta de planos e de organização (e no caso da educação isso é mais que evidente), da parte dos atores políticos envolvidos (e tem algum que não esteja?) o temos é um verdadeiro jejum de ideias.

Como a tendência da política é ser imediatista e compensatória, o estruturante fica por conta da sociedade, que deve se organizar e demandar. Ela pede isto ciente dos impactos de médio e longo prazos – e o faz também por ser consciente de que a lei do mínimo esforço não pode prevalecer em um tema da maior relevância para uma sociedade como é o caso educação.

Quem sabe o momento nem seja propício, já que os números voltaram a ser preocupantes. Estamos às vésperas das férias regulares do calendário escolar. Mas isso não impede que esse debate ganhe prioridade – mesmo porque políticas públicas são criadas vêm da participação da sociedade como um todo. Um problema específico da Covid-19 é que cientistas acreditam que muitas crianças são assintomáticas: elas propagariam o vírus mesmo sem apresentar sintomas.

Até agora, poucas crianças foram afetadas pela Covid-19 – diretamente, diga-se. Já indiretamente, muitas crianças e jovens sofreram enormemente com o impacto da pandemia no seu cotidiano. De forma geral, as pesquisas sugerem que pode ser seguro reabrir escolas onde não haja grandes surtos da doença – embora medidas como o distanciamento social devam ser mantidas. Além disso, seria vital ter um bom sistema de testes e rastreamento de contatos – mas isso inexiste em diversos lugares, entre eles o Brasil.

Também está comprovado que diversas escolas pelo mundo, tanto primárias quanto secundárias, registraram grandes surtos da doença – mas os estudos também mostram que o risco de se contrair a Covid-19 entre professores, funcionários e alunos de escolas secundárias é maior que entre crianças pequenas — e esses riscos não são nada desprezíveis. Apesar disso, os dados empíricos sobre a transmissão da Sars-Cov-2 entre crianças e em ambientes educacionais são escassos. Pesquisa sobre o tema foi publicada há poucos dias na revista científica The Lancet Child & Adolescent Health, que sugere que escolas podem reabrir onde houver outras formas de se controlar a pandemia, como distanciamento social.

Foram analisadas escolas de New South Wales (Estado mais populoso da Austrália) entre janeiro e abril, quando a pandemia começou no país e atingiu seu pico. Nesse período, a maior parte das escolas ficaram abertas, mesmo quando em outros segmentos da sociedade eram registrados grandes surtos da doença. O estudo, liderado por uma pesquisadora do Centro Nacional para Pesquisa e Monitoramento de Imunidade, sugere que as escolas não foram grande foco de infecção: houve casos em apenas 25 escolas – num universo de 7,7 mil instituições (menos de 1%, portanto). O risco de infecção entre as crianças foi considerado pequeno. A situação mais preocupante (como dissemos) era a de professores e funcionários – que correspondem a apenas 10% da população escolar, mas que responderam por 56% dos casos de Covid-19 registrados em escolas.

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Os autores do estudo foram explícitos nas suas conclusões: “a transmissão de Sars-CoV-2 em ambientes educacionais pode ser mantida em baixo nível no contexto de uma resposta eficaz à epidemia. Onde medidas de mitigação da pandemia resultam em controle forte da doença escolas podem ser mantidas abertas de forma segura, para o bem educacional, social e econômico da comunidade enquanto nos adaptamos para viver com a Covid-19”.

É importante que se diga isso – até porque, se não pressionarmos mesmo com a chegada das vacinas, haverá de novo a lei do mínimo esforço. Teremos medidas generalizantes em um país continental, incapazes de atender as especificidades de cada região para que se possa ter uma volta as aulas. “Vamos aguardar”, dirão nossas autoridades – enquanto bares e shopping centers já estão abertos.

Suécia e Finlândia tiveram estratégias opostas durante a pandemia: estes fecharam escolas de março a maio; aqueles as mantiveram abertas (as primárias; escolas secundárias e faculdades fecharam a partir de 17 de março). O estudo (que não passou por revisão de pares) diz que as diferentes estratégias produziram resultados semelhantes: baixo número de contágio em pessoas de 1 a 19 anos, raros casos de internação em UTI e nenhuma morte. Em conclusão: fechar ou não escolas não teve impacto mensurável no número de casos confirmados em laboratório em crianças em idade escolar na Suécia e na Finlândia.

Os Estados Unidos analisaram o fechamento de escolas em 50 Estados americanos entre março e maio. O estudo indica que, desde então, houve queda de 62% (em média) no número de casos e de 58% no número de mortos. Destaca que outras medidas concomitantes contribuíram para esses percentuais – mas isto foi ‘aquela época, quando o uso de máscaras ainda não estava totalmente incorporado, nem as demais medidas mitigantes. O que remete a uma outra discussão, também relevante: a decisão do “quando” não pode substituir a do “como” retomar as aulas. A prioridade das esferas públicas deve ser garantir a reabertura segura das escolas. Um período tão longo de fechamento traz prejuízos emocionais a alunos e professores, além de aumentar o risco de abandono dos estudos.

Segundo o Unicef, após desastres naturais, como ciclones e terremotos, as taxas de matrícula na educação básica chegam a cair até 20%. Em situações de isolamento social, aumentam os casos de violência doméstica e de problemas financeiros, associados à evasão escolar.

A meu ver, não se pode transformar essa situação numa questão política para o ano que vem. A premissa básica é garantir a segurança e planejar a retomada organizada com cuidados gerais em relação a máscaras, distanciamento, álcool em gel, testes e, agora, vacinas. Quanto a este último ponto, é preciso saber, através da ciência de dados, estabelecer prioridades – considerando-se que, ao lado de comorbidades, idade avançada e daqueles que atuam na área da saúde, os agentes da educação são muito importantes também para o processo de uma vida mais justa.

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