domingo, janeiro 17, 2021

Eficácia, efetividade e o ‘day-after’ do anúncio da CoronaVac

12 de janeiro, 17h05: Não é a vacina sozinha que salva vidas. O que salva vidas e pode tornar nosso mundo bem menos turbulento (e muito mais seguro) são programas colossais de imunização para aplicar essas vacinas no maior número possível de pessoas no menor espaço de tempo. Essa foi uma das principais lições que aprendi como voluntária em busca de um antígeno que possa conter o contágio e formas graves de Covid-19. E aqui entram dois conceitos que fazem toda a diferença para entendermos o anúncio desta terça-feira sobre a CoronaVac: eficácia e efetividade de uma vacina.

Para os testes clínicos da CoronaVac, pouco mais de 9.000 pessoas receberam o antígeno experimental. No grupo placebo, formado por 4.599 voluntários, 167 desenvolveram Covid-19. No grupo vacina, composto por 4.653 pessoas, 85 ficaram doentes. Portanto, 3,6% dos que receberam placebo e 1,8% dos vacinados foram infectados. Os dois percentuais são pequenos, mas a fração dos voluntários infectados não vacinados é muito maior do que a dos que receberam o fármaco verdadeiro. É baseada nesta diferença que é calculada a eficácia da vacina. No caso da CoronaVac, o Instituto Butantan disse que houve redução de 50,38% no contágio entre os vacinados na comparação com o grupo que recebeu o placebo.

A eficácia de 50,38% é uma evidência de que, em um estudo clínico controlado por cientistas, a vacina funciona. Mas nesta pandemia, temos de enfrentar o mundo real, caótico, descontrolado. É preciso, portanto, garantir que haja efetividade (e não só eficácia) de um imunizante, que ele mostre que realmente funciona no dia a dia, com suas contingências e dramas peculiares. O melhor jeito para fazer isso é garantir vacinação em todos os rincões do país, providenciar uma logística segura para que as ampolas cheguem, intactas em seus princípios ativos, a todos e – importantíssimo – imunizar o maior número possível de pessoas em um curto espaço de tempo. Assim, eficácia e efetividade caminham juntas.

É possível que, se fizermos o dever de casa de imunizar milhões de brasileiros nos próximos meses, eficácia e efetividade apresentem patamares parecidos. Mas não necessariamente é assim que acontece. Imaginem a vacina da Pfizer, com 95% de eficácia, ou a da Moderna, que ultrapassou o patamar de 94%. Se não forem distribuídas em segurança em ultracongeladores e chegarem aos braços de um grande universo de pacientes, elas continuarão a ter eficácia maravilhosa, mas baixa efetividade. E a pandemia continuará sem dar sinais de arrefecimento.

Um último ponto para se ficar atento em anúncios sobre eficácia de vacinas. Como voluntária da Janssen-Cilag, tenho de responder duas vezes por semana à seguinte pergunta: “você apresentou algum novo sintoma ou preocupação relacionado à saúde que, na sua opinião, poderia estar relacionado à infecção pelo coronavírus-19?” O problema: eu posso ser uma pessoa assintomática, e a resposta ao questionário sempre será negativa. O mesmo acontece no cálculo de eficácia dos imunizantes: é possível que pacientes que receberam a dose verdadeira no estudo clínico tenham contraído Covid, mas não perceberam porque não têm quaisquer sintomas. Se isso acontecer, nenhum deles estará na taxa de eficácia anunciada.

Como depois de quase um ano de restrições sociais e quarentenas renovadas já sabemos que pessoas assintomáticas podem transmitir o vírus, a vacina é apenas o fermento para a esperança por dias melhores. Até lá, vacinado ou não, voluntário ou não, o uso de máscaras e de medidas de segurança serve para diminuirmos a chance de, ainda que sem saber, propagarmos o vírus ou esbarrarmos com ele pelos ares.

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