Richard Lucas da Silva Miranda, fundador da LT Studios, publisher brasileira de jogos digitais com atuação no mercado de games e tecnologia, observa que o esports deixou de ser apenas uma vitrine para os jogos e passou a influenciar a forma como eles são pensados, lançados e mantidos.
Os números de audiência ajudam a entender o tamanho do fenômeno. A primeira etapa do CBLOL 2026, campeonato brasileiro de League of Legends, somou 12,3 milhões de visualizações e 7,9 milhões de horas assistidas, segundo o Olhar Digital. A etapa brasileira da Free Fire World Series teve 12,8 milhões de visualizações e 4,1 milhões de horas.
Um ecossistema que vai além do jogo
O esports brasileiro se sustenta em várias camadas. Há as ligas oficiais, como o CBLOL, organizado pela Riot Games desde 2012, que foi pausado em 2024 para dar lugar à liga continental das Américas e voltou em 2026 em formato reformulado. Há os campeonatos independentes de Counter-Strike, conduzidos por organizadoras como ESL, BLAST e PGL. E há os circuitos de Free Fire, com a C.O.P.A., que reuniu 24 equipes e R$ 100 mil em premiação na última edição.
Ademais, Richard Lucas da Silva Miranda comenta que soma-se a isso a presença de clubes tradicionais. Corinthians e Flamengo mantêm divisões de esports, o que pode aproximar o público do futebol dessas competições.
O papel dos streamers
Boa parte da audiência passa por transmissões de criadores de conteúdo. O streamer Gaules foi o segundo mais assistido do Brasil em 2025, com 95,5 milhões de horas transmitidas, segundo a Stream Charts citada pelo Olhar Digital. Reportagem do Meio & Mensagem, de 2023, já mostrava que a final da Liga Brasileira de Free Fire, transmitida no canal de Nobru, teve audiência de 300 mil pessoas.
Esse modelo tem consequência direta para quem desenvolve. Um jogo que funciona bem para quem assiste, com partidas fáceis de acompanhar e momentos marcantes, tende a ganhar mais espaço nas transmissões e a atrair novos jogadores.
O que um jogo precisa para entrar nesse circuito
Nem todo título tem vocação competitiva. Para entrar nesse universo, o jogo precisa de regras claras, equilíbrio entre personagens ou estratégias e partidas com duração previsível. Também precisa de estabilidade técnica, porque um erro durante um campeonato é visto por milhares de pessoas ao mesmo tempo.

Richard Lucas da Silva Miranda avalia que o estúdio que pretende construir uma cena competitiva deve começar pelo básico: manter o jogo estável, atualizar o equilíbrio com transparência e escutar a comunidade antes de investir em premiações. Segundo ele, o campeonato é consequência de um jogo que as pessoas já querem jogar, e não o contrário.
Patrocínio e sustentabilidade
O interesse de marcas é um indício de maturidade do setor. A matéria do Meio & Mensagem informava que, em 2023, a Liga Brasileira de Free Fire seria totalmente custeada por patrocínios pela primeira vez em quatro anos. O dado sugere que a competição passou a atrair anunciantes dispostos a financiá-la.
Para um estúdio brasileiro, a lição é que a competição precisa ter um modelo financeiro próprio. Premiações altas sem receita correspondente criam uma estrutura frágil, e campeonatos que dependem apenas do investimento do desenvolvedor ficam mais vulneráveis quando o orçamento aperta.
Oportunidades para estúdios menores
Um estúdio pequeno não precisa começar com um circuito profissional. Torneios comunitários, eventos online e parcerias com criadores de conteúdo permitem testar o interesse do público com custo menor. Esses eventos também geram dados valiosos sobre como os jogadores usam o jogo em situações de pressão.
Vale ainda observar o ciclo de vida do título. Um jogo competitivo precisa de atualizações constantes e de uma comunidade ativa, o que exige planejamento de equipe e de caixa para anos, e não apenas para o lançamento.
Competir exige permanência
O esports lembra que, em jogos, a relação com o público se estende por muito tempo depois da venda. Quem escolhe esse caminho assume um compromisso de longo prazo com jogadores, organizadores e patrocinadores.
Richard Lucas da Silva Miranda, fundador da LT Studios, resume o ponto ao afirmar que o estúdio que entra no competitivo precisa pensar menos no troféu e mais na infraestrutura que mantém o jogo vivo, porque é essa base que transforma um campeonato isolado em um mercado.

