domingo, junho 13, 2021

A maior entre os menores: saiba por que a jaguatirica leva vantagem pelo tamanho


Felino apareceu mais de 30 vezes em gravações de câmeras espiãs na Mata Atlântica. Jaguatirica (Leopardus pardalis) é o maior entre os felinos de pequeno porte do Brasil
Onçafari
Ao ver as imagens registradas por câmeras espiãs no interior da mata você pode até acreditar que está vendo uma onça-pintada. As fotos e os vídeos mostram um felino amarelo com pintas pretas, cabeça e olhos redondos, orelhas em pé e comportamento típico de um predador sorrateiro: fareja tudo ao redor e faz pouco barulho. Mas as imagens enganam, e muito. O bicho flagrado é muito menor que a onça-pintada e, apesar de muitas vezes ser chamado de “oncinha”, está mais para gato que para onça. Pesa no máximo 16kg enquanto a Pintada pode passar chegar perto de 100kg. Trata-se da jaguatirica (Leopardus pardalis).
O padrão das pintas é outra característica importante para diferenciar as espécies. Enquanto a onça-pintada tem rosetas pretas, na jaguatirica as manchas se juntam numa faixa longitudinal na lateral do corpo. Estas manchas não se apresentam de forma simétrica em ambos os lados do corpo e cada padrão é único entre diferentes indivíduos.
A onça-pintada tem rosetas pretas, enquanto na jaguatirica as manchas se juntam em faixas longitudinais
Instituto Pró-carnívoros e Marcelo Ferri/TG
Esse típico felino americano ocorre desde o sul dos Estados Unidos, no Texas, até o norte da Argentina, incluindo todos os ecossistemas brasileiros. Se adapta à vários ambientes, do nível do mar a até 1,2 mil metros de altitude, mas gosta de ficar escondido na floresta por isso precisa de cobertura florestal densa.
Jaguatiricas deram as caras 34 vezes no período de 8 de dezembro de 2020 à 24 de fevereiro desse ano no Legado das Águas, uma importante reserva de Mata Atlântica no Vale do Ribeira em São Paulo. Na área estão instaladas 20 armadilhas fotográficas do Projeto Onçafari, uma ONG voltada à conservação do Meio Ambiente com ênfase na onça-pintada.
[VÍDEO: Jaguatirica deu as caras 34 vezes na reserva Legado das Águas]
“O ambiente frequentado por onças é o mesmo que o frequentado por muitos animais silvestres, são trilhas mais abertas e bem demarcadas. Acreditamos que o fato de qualquer animal ser capaz de olhar mais longe, ter um caminho mais livre, muitas vezes com bem menos obstáculos que os outros ambientes na mata, nos dá a oportunidade de muitos registros incríveis” afirma a bióloga Victória Pinheiro, do Onçafari. “Essa variedade de cheiros e circulação de espécies chama ainda mais atenção de predadores como as onças e também a jaguatirica”, completa.
Pelas trilhas do Legado passam aves, répteis e outros felinos como o gato-mourisco (Herpailurus yagouaroundi). Em um dos vídeos a jaguatirica aparece caçando um roedor. “É possível ver que ela interage bastante com a presa, dando até a impressão de estar brincando com ela. Isso nos levou até a cogitar ser uma fêmea com filhote, pois é um comportamento mais comum quando elas estão ensinando seus filhotes a caçar, porém, como não tivemos nenhum registro dessa natureza, não excluímos outras possibilidades”, diz a bióloga.
Gato-mourisco é um felino que tem o corpo mais alongado que os outros gatos selvagens neotropicais
Aline Patrícia Horikawa
Observações recentes revelaram que a jaguatirica precisa de muitas presas para encher a barriga. Caça geralmente a noite e chega a comer 800g de carne entre o pôr e o nascer do sol. “Ela é uma predadora incrível, diversos estudos mostram que suas presas são, em sua maioria, espécies de pequenos roedores e marsupiais, mas podem caçar desde pequenos répteis, até algumas aves e em ambientes que tem oportunidade, são exímias pescadoras”, completa Victória Pinheiro.
Apesar disso as populações da espécie tiveram uma redução significativa entre as décadas de 60 e 80. Nesse período o comércio internacional de peles atingiu o auge e a jaguatirica foi um dos animais que mais sofreram com a caça. Estima-se que 200 mil felinos eram mortos por ano no Brasil para retirada da pele. A jaguatirica chegou a figurar nas listas de espécies em risco de extinção, mas hoje essa ameaça é considerada “pouco preocupante” pela UICN (União Internacional para Conservação da Natureza).
Em 1962 a primeira dama norte-americana Jacqueline Kennedy foi fotografada usando um casaco de pele e impulsionou o comércio desse artigo no mundo
Divulgação/Internet
“Isso não significa que não tenhamos que dar atenção à espécie no médio em longo prazo”, afirma o biólogo Henrique Villas Boas Concone, Pesquisador Associado ao Instituto Pró-Carnívoros que atualmente elabora uma tese de doutorado sobre populações de jaguatiricas.
“É preciso levar em conta que isto se deve principalmente à situação da espécie na Amazônia, onde a floresta intacta se estende por uma enorme extensão ainda e, portanto, abriga as maiores populações no país. Porém, ao olharmos para outros biomas, a situação é distinta. Por exemplo, na Mata Atlântica, onde a densidade populacional não é tão alta quanto na Amazônia e onde o intenso desmatamento e fragmentação das áreas florestadas reduziu drasticamente as áreas apropriadas para a espécie, sua situação de conservação deve ser considerada bem mais preocupante”, completa.
Jaguatirica leva vantagem por não ser pequena nem grande demais
Mauro Regalado/Acervo Pessoal
Mas, por outro lado, essa é uma das espécies mais versáteis entre felinos do Brasil e isso traz otimismo. “A jaguatirica ocupa um nicho alimentar que quase nenhum outro animal ocupa. Por não ser tão grande, ela não disputa comida com as onças parda e pintada que preferem presas maiores. Por outro lado, a jaguatirica tem porte suficiente para superar outros felinos predadores com os quais convive como o gato-maracajá (Leopardus wiedii) e o gato-do-mato-pequeno (Leopardus tigrinus / Leopardus guttulus). Já o gato-mourisco poderia ser um concorrente se também caçasse à noite, mas, diferentemente da jaguatirica, ele é mais ativo durante o dia”, explica o biólogo. Ou seja, ela leva vantagem justamente por ser como é: nem muito grande nem pequena demais.
Gato-maracajá ocorre em áreas de mata ciliar e próximo aos arrozais
Felipe Peters/Arquivo Pessoal
“Predadores no topo da cadeia alimentar como a onça-pintada chamam bastante atenção, até pelo misticismo e histórias envolvendo a espécie, mas os mesopredadores, aqueles que estão no meio da cadeia, como a jaguatirica, são essenciais para um ambiente saudável e equilibrado. Dá pra imaginar uma onça-pintada caçando um pequeno roedor no meio de uma floresta? Não que não possa acontecer, mas é um esforço que, se imaginarmos, fica até um pouco cômico. Os pequenos felinos, especializados em presas menores, atuam no controle de diversas espécies, então uma cena como essa de uma jaguatirica caçando ativamente, é um registro muito valioso tanto para análises científicas quanto também para uso em materiais de educação ambiental, porque, uma vez que as pessoas possam ter mais contato com essas espécies de pequenos felinos, para conhecer um pouco mais de seus hábitos e comportamentos, é difícil elas não serem cativadas e se apaixonarem tanto quanto como com as espécies maiores e assim entenderem também sua importância” finaliza a bióloga Victória Pinheiro.
Ficha técnica explica detalhes sobre a jaguatirica
Arte/TG

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