domingo, maio 16, 2021

Bike na natureza: casal já pedalou mais de duas 'voltas' pelo planeta


Margit e James já fugiram de um ataque de elefante e encontraram as serpentes mais venenosas do mundo; assim que levam a vida em duas rodas: “colecionam desafios e paisagens”. O Alasca foi o ponto de partida da viagem do casal que se aventura de bicicleta pelo mundo em busca da natureza
James Polack e Margit Pirsch/Acervo Pessoal
O que fazer aos 60 anos? Trabalhar mais? Descansar? Ou procurar novos desafios? A resposta do James Polack, de 63 anos, e da Margit Pirsch, de 60, foi subir nas bicicletas e sair pelo mundo. “Nós estamos ficando velhos, se não fizermos agora, nós nunca faremos”, disse James sorrindo. Ao lado, Margit, complementa. “Nós podemos, então queremos ver o mundo”.
O casal mora na Califórnia, nos Estados Unidos, e saiu de lá antes da pandemia para encarar mais uma viagem pelo mundo. Dessa vez o desafio era pedalar por mais de um ano pelas Américas e por alguns países da África.
O roteiro começou nos EUA. O ponto de partida foi o Alasca, depois San Francisco, até chegarem ao extremo sul do país, na ilha de Key West. A cidade norte-americana que fica na Flórida, é a mais próxima de Cuba.
Confira uma das história do casal que roda o mundo sobre duas rodas em busca da natureza
A ideia dos viajantes era pedalar pelo país vizinho, mas não deu certo. Então, James e Margit pegaram um voo para Buenos Aires, seguiram de bicicleta pelo norte da Argentina, passando por Uruguai, Paraguai e Brasil.
Na região do Vale do Ribeira, no interior de São Paulo, o casal parou em uma curva da estrada para descansar um pouco e contemplar a maior área remanescente de Mata Atlântica do país, considerada pela Organização das Nações Unidas, patrimônio natural da humanidade. “Aqui é um dos lugares de natureza única. Por favor, preserve o que resta. Uma das minhas melhores lembranças foi viver em uma cabana de surfista na praia do Matadeiro, em Santa Catarina, lendo romances”, relembra James.
Foi em uma das aventuras que ocorreu o encontro inesperado da equipe do TG com os ciclistas viajantes
James Polack e Margit Pirsch/Acervo Pessoal
Por uma dessas “coincidências”, a caminhonete da reportagem do Terra da Gente também parou para filmar a paisagem, bem onde o casal estava parado. Logo, as bicicletas chamaram a atenção e não poderia ser diferente: cada uma carregava mochilas que pesavam cerca de 60 quilos.
“No carro você fica isolado, mas na bike você fica exposto ao tempo, à natureza. Não há barreiras, ficamos mais conectados com as pessoas e com a natureza”, diz Margit, justificando a escolha pelo meio de transporte. James também reforça uma preocupação ambiental deles. “Sem gasolina. A gente não polui e ainda você vê, sente o cheiro, prova (sabor), esse é o mundo real”.
O idioma em inglês entregava a origem dos viajantes, por isso a curiosidade em saber de que forma os dois foram parar ali de bicicleta. Em poucos minutos, eles explicaram sobre a “odisseia ciclística” que realizavam. A conversa foi rápida, apenas o tempo de trocar contatos, presentear o casal com um boné do programa e ouvir um pouco das impressões sobre o Brasil. “Não mudem, vocês todos são ótimos. Brasileiros são, sem dúvida, o povo mais amigável”, fez questão de dizer James.
Casal parou para contemplar a Mata Atlântica no Vale do Ribeira, no interior de SP
James Polack e Margit Pirsch/Acervo Pessoal
Depois do encontro, o casal ainda tinha um longo caminho pela frente. Pedalaram até São Paulo, capital, e pegaram um avião para a Cidade do Cabo, na África do Sul. Lá começaram a outra parte da jornada, pedalaram pelo nordeste do país até Botswana, um país bom para isso porque o relevo é plano, mas por outro lado é bem desgastante porque 70% da área é coberta pelo deserto de Kalahari. Nada que atrapalhasse a disposição do casal que pedalou pela Zâmbia e Zimbábue.
Quando chegaram ao Malawi, um dos países mais pobres do mundo, na África Oriental, as fronteiras e os aeroportos fecharam por causa da pandemia. “Ficamos sem litoral no Malawi por seis meses antes de podermos chegar ao Quênia, onde passamos mais três meses esperando a pandemia e também o fim da guerra na fronteira com a Etiópia”.
Casal de aventureiros cruzou o Oceano Índico, pouco antes de voltar pra casa
James Polack e Margit Pirsch/Acervo Pessoal
Na costa do Quênia, enquanto aproveitavam o Oceano Índico, mesmo na estação chuvosa do leste da África, Margit e James se preparavam para voltar pra casa. No blog que relatam as experiências da viagem, descreveram um pouco das incertezas antes do retorno no meio da pandemia. “A ansiedade está cortando meu apetite e distorcendo minha visão. A tontura agora me deixa pairar no ar, enquanto as lágrimas me confundem. Casa, que eu sei, não pode ser. Ainda mais com o medo que o mundo está passando. Quase não me reconheço”.
Acompanhamos pela internet o retorno dos viajantes antes do previsto. “Agora estamos de volta à Califórnia, esperando a redução dos efeitos da pandemia em viagens globais. Esperamos retomar as viagens para Nairóbi e Quênia, nesta primavera.”
O casal espera acabar a pandemia para terminar a viagem pela África
James Polack e Margit Pirsch/Acervo Pessoal
Entre montanhas e bichos, uma fuga pedalando
Estima-se que para dar uma volta completa na Terra, são 40 mil quilômetros. Então, entre uma viagem e outra, dá para dizer que Margit e James, já pedalaram o equivalente há mais de duas voltas pelo planeta. “Eu realmente não sei a quantidade exata, mas provavelmente já pedalamos cerca de 100 mil quilômetros. Por exemplo, do Alasca a Ushuaia percorremos 31 mil quilômetros”, diz James.
O casal já viajou de bicicleta por trinta e oito países e conhece quase todos biomas do mundo. “Nós estivemos nas montanhas dos Andes por cerca de oito meses acima de 12.000 pés. Possivelmente a cordilheira mais bonita do mundo. As estradas (se você pode chamá-las assim), no Peru e na Bolívia, eram bastante desafiadoras, mas a beleza das paisagens e os povos indígenas gentis, únicos e generosos tornaram tudo muito mais fácil”.
Pinguim-africano, que encontra refúgio na Península do Cabo, foi flagrada pelo casal aventureiro
James Polack e Margit Pirsch/Acervo Pessoal
O casal já encontrou pelo caminho, escorpiões, tarântulas e cobras, como por exemplo, a “mamba-negra” da África, uma das mais venenosas do mundo. Conheceram bugios, babuínos e outras espécies de macacos. Tiveram o privilégio de observar o voo dos falcões, das águias e do condor-dos-andes. Viram de perto girafas, rinocerontes, pinguins, leões, chacais e hienas.
Quem anda de bicicleta e se vê em apuros quando aparece um cachorro bravo latindo, nunca mais vai reclamar depois de saber do tamanho do bicho que eles fugiram. “Em Botswana, fomos atacados por um elefante macho na estrada. De longe a experiência mais aterrorizante até agora”.
Pedal em fuga, James e Margit já tiveram que fugir de um elefante furioso
James Polack e Margit Pirsch/Acervo Pessoal
Como se virar na estrada
James é um arquiteto, paisagista licenciado, que adaptou a bike à rotina de trabalho. “Comecei a andar de bicicleta para ir ao meu escritório e para reuniões com clientes. Depois de alguns anos, atravessei (pedalando) os Estados Unidos, em 1994. Este foi o começo de uma vida na bicicleta”.
Faz 12 anos que James conheceu a socióloga Margit e adivinha como surgiu a ideia de pedalar pelo mundo? “Surgiu em uma bicicleta, no dia em que nos conhecemos. Nossa primeira grande excursão foi do Círculo Ártico do Alasca ao Oceano Antártico, em Ushuia Argentina”.
O casal já conheceu 38 países pedalando juntos
James Polack e Margit Pirsch/Acervo Pessoal
O relacionamento resiste a todos os perrengues enfrentados na estrada. “Geralmente dormimos muito bem. Temos uma barraca para três pessoas que chamamos de lar, com almofadas com isolamento e sacos de dormir sintéticos”, conta James.
Pedalar por aí é se alimentar todo dia fora de casa, mas isso não quer dizer que as refeições são em restaurantes. “Carregamos dois fogões de acampamento multicombustíveis, quatro panelas e uma frigideira. Cozinhamos tudo o que os locais (moradores da região) comem, mas geralmente adicionamos azeite, alho e queijo”, explica James sobre o cardápio.
Sem ‘glamour’, jantar na estrada dos aventureiros também acrescenta pratos da cultura local
James Polack e Margit Pirsch/Acervo Pessoal
O casal costuma carregar filtros de água na “bagagem” e levar roupas para todas as estações. Além de capa de chuva, barraca, sacos de dormir, kit de conserto e facão. Hoje em dia, o que também não pode faltar na mochila é a tecnologia: câmera, satélite transponder para emergências, mapas e celulares com diversos aplicativos de localização.
Mesmo com todos os cuidados, sempre tem imprevistos. “Fui assaltado à mão armada nas selvas do norte do Brasil, em 1997. Reagi e quase fui morto. A bicicleta foi roubada, mas depois de três dias e muita ajuda dos habitantes locais a bicicleta foi recuperada”, comenta James sobre uma das situações mais perigosas vividas na estrada.
Perrengue: quando o casal se perdeu na Mata Atlântica, contou com a hospitalidade dos guardas de uma empresa de segurança do Brasil
James Polack e Margit Pirsch/Acervo Pessoal
Mesmo com a experiência ruim, ele nunca deixou de viajar pelo país. “Passei vários anos no Brasil, é uma das minhas culturas favoritas. A diversidade de pessoas, paisagens, música e arte. Vai para o topo da lista em todas essas categorias”, afirma James.
Por tudo que viveu no Brasil, o arquiteto viajante, tem muita história para contar. “Pedalei a maior parte do país, do sul ao norte. As experiências vão da família Mancini (amigos) em São Paulo, às baianas vendendo comida nas ruas de Salvador. Passa pelo Forró, em Itaúnas, até o samba no Rio. Como não amar?”.
O casal sempre leva um pouquinho do Brasil para a casa nos EUA, dá para perceber isso durante as entrevistas. Pela internet, em uma de nossas conversas para a reportagem, James fez questão de frisar: “Desculpe pela demora em responder. Estou ouvindo Carlinhos Brown enquanto escrevo isso”.
Em cada canto do mundo, a dupla de ciclistas encontra parceiros de pedal
James Polack e Margit Pirsch/Acervo Pessoal
Para conhecer o mundo sobre duas rodas:
Não importa qual o meio de transporte, para toda viagem é importante se programar, fazer um roteiro bem definido. Principalmente quando surgem imprevistos, a organização ajuda muito.
Talvez todo mundo que tenha um sonho parecido quer saber: como bancar roteiros tão longos? “Acontece que vivemos em um dos lugares mais caros do planeta (Califórnia) e viajamos por alguns dos lugares mais pobres (do mundo). Isso significa que nossos recursos não são afetados como poderiam ser”.
Casal estava pedalando pela África com o boné do Terra da Gente
James Polack e Margit Pirsch/Acervo Pessoal
Mesmo com a super valorização do dólar, em relação a quase todas as moedas do mundo, o casal procura sempre economizar. “Permaneça o mais independente possível. Evite jantar fora, prepare suas próprias refeições, exceto em ocasiões especiais. Evite o transporte público, aluguel de carros e outros gastos caros de viagem. A menos que você esteja comemorando, escolha o hotel mais barato, quando o acampamento grátis não estiver disponível. Procure perguntar sempre na polícia e nos bombeiros sobre lugares para acampar. Esses locais são quase sempre gratuitos, seguros e ótimas fontes de informação”.
“The World By Bicycle”, o mundo de bicicleta, essa é a página do casal nas redes sociais. Margit e James também tem um blog, onde escrevem sobre as experiências da estrada. Nessa página, tem uma frase do escritor norte-americano, Henry Miller, que define bem o estilo de vida do casal: “O destino de uma pessoa nunca é um lugar, mas uma nova maneira de olhar as coisas”.
O objetivo do casal ciclista é conhecer o mundo de bicicleta
James Polack e Margit Pirsch/Acervo Pessoal
Veja mais fotos:
Na imagem, o casal estava desbravando o continente africano
James Polack e Margit Pirsch/Acervo Pessoal
Na Península do Cabo, o casal que roda o mundo de bicicletas registrou as protagonistas das aventuras
James Polack e Margit Pirsch/Acervo Pessoal
Pela estrada, o casal se aventura em busca de mais paisagens e natureza
James Polack e Margit Pirsch/Acervo Pessoal
O encontro com a equipe do Terra da Gente foi registrado pelo casal
James Polack e Margit Pirsch/Acervo Pessoal

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