terça-feira, maio 18, 2021

Boto-cor-de-rosa, o galã da natureza


Comportamento de cortejo inclui o uso de galhos e outros objetos para atrair a fêmea; espécie é a maior entre os quatro golfinhos de rio existentes no mundo. Pesquisadores acreditam que machos cortejam as fêmeas levando galhos e outros objetos para mostrar força
Marcos Amend
Um “galanteador” cheio de charme que encanta a moça mais bela da festa e, depois de conquistá-la, some pelos rios amazônicos. Essa é a descrição do boto-cor-de-rosa nas lendas folclóricas do Brasil.
Mas o boto não é um galã apenas na fama. De hábitos solitários, apresenta display sócio-sexual, quando machos adultos utilizam galhos e outros objetos para cortejar a fêmea. “Não há estudos que comprovem 100% o motivo do comportamento, mas pensando na ecologia e biologia do boto, tudo indica que é um comportamento relacionado à reprodução”, comenta a bióloga Marina Calderón.
A especialista explica que os machos de espécies com dimorfismo sexual normalmente brigam por território e por acesso às fêmeas, no entanto, não é o caso do boto. “Eles não precisam disputar por território, porque a área de ocorrência é muito extensa, e também não disputam pelas fêmeas, já que elas não vivem em grupos. Por conta disso, acreditamos que o cortejo seja feito justamente para chamar atenção da parceira”, completa.
“Em campo é mais comum ver esse comportamento na estação seca, já que os machos e as fêmeas estão forçados a ficar mais perto do que na cheia”, destaca Marina.
Espécie é a maior entre os quatro golfinhos de rio existentes no mundo.
Rudimar Narciso Cipriani/ TG
O animal – que já foi destaque em filmes, séries e livros – é exclusivo dos rios da Bacia Amazônica. É uma das quatro espécies de cetáceos fluviais (golfinhos de rio) existentes em todo o mundo, um dos dois do Brasil.
Na Lista Brasileira de Espécies Ameaçadas de Extinção o boto-cor-de-rosa é considerado “Em Perigo”. Apesar da área de ocorrência ser extensa e o número de indivíduos historicamente abundante, o animal compõe o ranking das espécies brasileiras mais ameaçadas, resultado de um conflito antigo entre homem e natureza.
Turismo regulado é atividade positiva para a conservação dos botos, sobrevivência das comunidades locais e divulgação científica
Rudimar Narciso Cipriani/ TG
São muitas as ameaças, desde desmatamento, ocupação humana e construção de hidrelétricas (que reduzem a disponibilidade de alimento e fragmentam o habitat), até capturas acidentais em redes de pesca e atropelamentos por embarcações. No entanto, os acidentes não são os únicos responsáveis pela morte dos animais. “A pesca do boto é proibida, mas as populações tradicionais continuaram praticando para consumo direto e para venda da carne com isca na pesca de piracatinga, um peixe amazônico muito consumido na Colômbia e no Japão”, explica a bióloga Fernanda Abra.
Proibida por lei em 2015, a pesca e comercialização do bagre – que se alimenta de animais mortos; refletia diretamente na destruição de populações do boto-cor-de-rosa, assim como de tucuxis e jacarés amazônicos. Estima-se que a pesca anual da piracatinga, da forma ilegal como vinha sendo praticada, tenha provocado o aumento da mortalidade das espécies em uma taxa muito superior à taxa de mortalidade natural. Ainda: um estudo divulgado em 2011 apontou que, ao longo de uma década, algumas populações de botos da Amazônia Central podem ter sido reduzidas pela metade.
Além da lei que proíbe a pesca, o Brasil atuou com um Plano de Ação Nacional (PAN) para Conservação dos Pequenos Cetáceos, coordenado pelo ICMBio, que buscava reduzir o impacto antrópico (do homem) além de ampliar o conhecimento sobre pequenos cetáceos no País. O Plano teve sua avaliação final em janeiro de 2018 e as espécies foram contempladas no PAN Cetáceos Marinhos que está em processo de publicação.
Conheça as espécies de cetáceos que vivem em água doce
Arte TG
Outra medida importante para a conservação da espécie é o turismo sustentável. “Uma grande conquista foi regulamentar o turismo de atividades de interação com os botos-cor-de-rosa, como ocorreu no Parque Nacional de Anavilhanas. Antes da medida, a interação entre habitantes locais e turistas com os botos era descontrolada”, comenta a especialista.
Suspeita-se um declínio populacional de pelo menos 50% nas próximas três gerações ou cerca de 31 anos
“A atividade do turismo regulado gera renda para a população local, pois atrai turistas, movimenta hotéis, pousadas restaurantes e agências. As regras incluem horários rigorosos de visitação e limitam a quantidade de peixe por dia dada a cada animal, que são alimentados por uma pessoa treinada, e não pelo turista. Além disso, a área é demarcada com boias para proteger os botos de embarcações e cada grupo de visitantes assiste uma apresentação sobre as duas espécies locais: o boto-cor-de-rosa e o tucuxi”, conta.
Boto-cor-de-rosa é personagem famoso das lendas brasileiras
Detalhes do boto-cor-de-rosa
O boto-cor-de-rosa ocorre nos principais rios e lagos da bacia Amazônica, como os rios Negro, Solimões, Japurá, Purus, Juruá, Madeira, abrangendo os estados da Amazônia Legal Amazonas, Acre, Roraima, Rondônia, Pará e Amapá.
Além de ser um dos quatro golfinhos de rio existentes no mundo, a espécie é a maior da lista: os machos chegam a medir 2,55 metros de comprimento e pesam 200 quilos, enquanto as fêmeas não ultrapassam os 2,25 metros e 155 quilos.
Também chamado de boto-vermelho, boto-cor-de-rosa, é um dos símbolos da Amazônia
Yasuyoshi Chiba/AFP
Mesmo que pequenos, os olhos garantem boa visão dentro e fora da água, úteis para a captura de peixes, presas que predominam no cardápio do boto.
A cor da espécie, que inspirou o nome popular, pode variar entre cinza-escuro e rosa brilhante, dependendo da idade e do sexo: os filhotes são cinza e os machos adultos, sexualmente ativos, costumam ser mais rosados.

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