domingo, maio 16, 2021

Brasil abriga a maior diversidade de plantas nativas do Mundo


Mais de 900 cientistas de 25 países colaboraram com a atualização da lista de espécies brasileiras; publicação “Flora do Brasil 2020” está disponível na internet de forma gratuita. Áreas de floresta intocada também estão sujeitas à degradação
Luciano Lima/TG
Na semana em que se comemora o Dia da Botânica (17/04) o Terra da Gente chama a sua atenção para um dado impressionante sobre a flora do nosso país. O Brasil é conhecido mundialmente pela biodiversidade: território megadiverso tomado por florestas extensas e campos que abrigam inúmeras espécies da flora. Mas, quantas efetivamente ocorrem no País?
Depois de 115 anos da publicação da primeira – e única – obra nacional que reunia informações sobre as plantas nativas, a relação de espécies foi atualizada e os números impressionam: 46.975 plantas, algas e fungos são nativos do País, sendo 55% das plantas terrestres exclusivas do território brasileiro.
Os dados, divulgados em fevereiro deste ano na plataforma online Flora do Brasil 2020, foram levantados, analisados e validados por 979 pesquisadores de 224 instituições em 25 países. O trabalho foi coordenado pelo Jardim Botânico do Rio de Janeiro ao longo dos últimos 12 anos.
Os primeiros registros da biodiversidade brasileira datam do século XVI, com a chegada dos portugueses
Divulgação/JBRJ
“Nós brasileiros temos o privilégio de viver em um País cuja formação da história botânica foi descrita ainda no século 19, na obra monumental “Flora Brasiliensis”, coordenada por Carl Friedrich Philipp von Martius. Ou seja, quando a geração de botânicos do século 20 foi formada, já existia uma tradição e um embasamento para a ciência da classificação das plantas”, comenta Rafaela Campostrini, coordenadora do Projeto.
A botânica explica que o exemplo de Martius serviu de incentivo para o trabalho. “Quando temos um passado sólido, o futuro é muito mais factível. Nós pensávamos: se ele foi capaz de editar essa obra com muito menos ferramentas e tecnologia, por que não seria possível continuar esse estudo hoje em dia? Esse espírito sempre esteve com a gente”, lembra.
Idealizado em 2008, o projeto denominado Lista de Espécies da Flora do Brasil foi coordenado pelo Jardim Botânico do Rio de Janeiro
Divulgação/JBRJ
Além da catalogação de espécies, o levantamento reuniu descobertas: entre 2015 e 2020 aproximadamente 2.100 espécies de plantas, fungos e algas brasileiras foram descritas como novas para a ciência. “Quando você reúne dados, fica mais fácil avaliar o que ainda não foi escrito. Quanto mais informações organizadas mais rápido fica o processo de descobrir o que não está catalogado. A grande parte dos botânicos não fazem uma nova descoberta sem a referência dessa publicação”, explica Rafaela, que destaca o árduo processo de tirar a ideia do papel.
“Na última década nós digitalizamos o maior número possível de coleções botânicas para que esse projeto acontecesse. Com a digitalização os cientistas puderam visitar os herbários de qualquer lugar do País e, de maneira integrada, contribuir com as informações sobre espécies de determinadas regiões”, detalha.
Processo de catalogação de espécies contou com a participação de 979 cientistas
Plantas Pequenas do Cerrado
Livro chama a atenção para a importância das plantas pequenas do Cerrado
União taxonômica
A “Flora do Brasil 2020” é uma plataforma online, disponibilizada de forma gratuita na internet, fruto da interação entre cientistas de dados e botânicos, outro desafio enfrentado por Rafaela e pela equipe. “Nas últimas duas décadas conseguimos catalogar, de forma exemplar, a diversidade de plantas nativas do País graças a um sistema desenvolvido exclusivamente para o projeto, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ou seja: criamos uma tecnologia única, com ajuda de especialistas da computação, para desenvolver uma plataforma online integrada”, conta.
“Foi uma das partes mais complexas do processo. Parece um trabalho simples, mas como você explica o que é uma espécie, um gênero e um família para alguém que não seja da área? Depois que alinhamos esses detalhes o projeto fluiu e foi um sucesso, servindo de referência para outros países megadiversos que não possuem esse tipo de levantamento”, completa.
Plataforma colaborativa está disponível na internet e pode ser acessada gratuitamente
Divulgação/JBRJ
Rede de voluntários
A especialista também reforça a importância da participação de quase mil cientistas para o sucesso da publicação, que fazia parte das metas estipuladas na Estratégia Global para a Conservação de Plantas. “Conseguimos catalogar as espécies em um tempo que considero muito curto graças ao engajamento dos botânicos. É gratificante pensar que todos esses 979 cientistas, pesquisadores, professores e alunos de graduação e pós-graduação doaram parte do tempo em prol de um bem maior: a ciência”.
Ela destaca ainda que, mesmo publicada, a obra não terminou. “Ainda temos muito o que descobrir e catalogar. Por ano o Brasil tem, em média, 200 novas espécies descritas de plantas. Se pensarmos nesse número, e em tantos locais que nunca foram visitados por cientistas, conseguimos ter uma vaga ideia do que ainda é desconhecido” diz.
Existem lacunas imensas, o trabalho não acabou. Precisamos manter essa rede viva e seguir catalogando as espécies brasileiras
Muitas espécies têm importância cultural e econômica
Geraldo Magela Pereira/Acervo Pessoal
Conservar para conhecer
É fato que a publicação dos dados na internet, de forma gratuita, é uma estratégia de divulgação científica, afinal, qualquer pessoa pode acessar informações sobre espécies da flora brasileira sem sair de casa. No entanto, a especialista enfatiza que tal possibilidade não existirá no futuro se medidas de conservação não forem tomadas com urgência.
Contra a ‘cegueira verde’, técnico em informática publica guia com fotos de plantas do centro mineiro
“Claro que você precisa conhecer as espécies, saber quem são e onde vivem, para criar um plano de conservação. Mas de uns anos pra cá tenho invertido a famosa frase e reforçado: é preciso conservar para conhecer. Afinal, na velocidade em que os ecossistemas são destruídos, nós cientistas não temos tempo suficiente de, sequer, descobrir as espécies”, comenta.
Estamos fazendo a nossa parte, catalogando o mais rápido que a gente pode, mas a ciência não anda no ritmo do poder econômico e da destruição
Espécie nativa da Mata Atlântica, quaresmeira tem nome popular devido ao período em que floresce
Ananda Porto/TG
Ela reforça a importância de um olhar cuidadoso à flora, que por muitas vezes passa despercebida no dia a dia das pessoas. “As espécies estão em volta da gente e nós não percebemos o papel delas: o que a gente come é planta, o que vestimos é planta, objetos que usamos vêm das plantas. Elas são tão comuns que não as notamos, mas essa percepção é muito necessária”, destaca a especialista. “As árvores têm outro tempo de vida, são seres mais lentos e silenciosos do que os animais, por exemplo. Mas isso não significa que podemos derrubar árvores de 200, 300 anos; isso é um absurdo”, completa.
Aquela frase ‘conhecer para conservar’ foi importante em algum momento anterior. Hoje precisamos conservar, para conhecer e salvar
Para quem procura mais conhecimento sobre as espécies brasileiras, a botânica faz um alerta: basta um clique para mergulhar em um material cheio de informações. “É só ter curiosidade e aproveitar a oportunidade para consultar dados que antes estavam praticamente inacessíveis: muitas informações estavam dispersas em livros, grande parte em latim e em outros idiomas. Ao transformar tudo isso em conteúdo acessível, mais gente tem a chance de se informar”, finaliza Rafaela.

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