domingo, abril 18, 2021

Cadeira Julietti representa história de superação, força e amor ao próximo


Cadeira de rodas especialmente desenvolvida para prática do montanhismo pode ser encontrada em 40 pontos pelo Brasil. Cadeira ‘Julietti’ foi desenvolvida para garantir acessibilidade à trilhas e cavernas
ONG Montanha Para Todos
Até onde o amor pode nos levar? Para uma família de montanhistas de São José dos Campos a resposta é uma só: ao topo.
Durante a gravidez, aos 32 anos, Juliana Tozzi desenvolveu uma doença rara e irreversível que comprometeu severamente a coordenação motora e a fala. “E aí eu fiz uma promessa para ela que onde ela quisesse ir eu ia levar!”, lembra o esposo, Guilherme Cordeiro.
E foi o que ele fez, porém, com as cadeiras de rodas convencionais o passeio era algo muito difícil e envolvia uma grande estrutura de apoio. Diante disse Guilherme decidiu fabricar uma cadeira especialmente para Juliana, que ganhou o nome de cadeira Julietti. Ela foi projetada e construída para permitir que pessoas com deficiência física possam percorrer as trilhas mais desafiadoras. O equipamento é desmontável, fácil de transportar, possui apenas uma roda com pneu de borracha e amortecedor e necessita de dois operadores, além do passageiro. O assento fica a um metro de altura, possui encosto e cinto de segurança.
Junto ao pequeno ‘Ben’, Juliana e Guilherme se aventuram pelas matas do Brasil e do Mundo
Juliana Tozzi/Arquivo Pessoal
Com ela a família pôde novamente viver aventuras junto à natureza. A primeira viagem de Juliana com sua nova companheira “Julietti”, foi no Parque Nacional do Itatiaia em 2016. Desde então o casal já percorreu mais de 30 trilhas e subiu o vulcão Acontango, na Bolívia, com mais de seis mil metros de altitude. Juliana ficou à 200 metros do topo e se tornou a primeira cadeirante brasileira a atingir essa altitude. A aventura virou um documentário no Canal Off chamado “Julietti, uma vida nas montanhas.”
O casal então resolveu dividir essa conquista com outros cadeirantes. Fundaram um projeto, a ONG Montanha para todos, que promove a inclusão das pessoas com deficiência no mundo. Hoje 40 parques pelo Brasil possuem suas próprias “Juliettis” e permitem passeios gratuitos aos visitantes que dependem dessa acessibilidade.
Cadeira adaptada garante acessibilidade à trilhas e cavernas do Brasil e do Mundo
Juliana Tozzi/Arquivo Pessoal
O mapa da inclusão vai de norte a sul, de Boa Vista à Porto Alegre, e abrange os parques nacionais da Chapada dos Veadeiros, em Goiás, Chapada dos Guimarães, no Mato Grosso, Cavernas do Peruaçu, em Minas Gerais e da Tijuca, no Rio de Janeiro. Outras 30 cadeiras “Juliettis” foram compradas pelo Ministério do Meio Ambiente e já começaram a ser distribuídas por outras unidades de conservação federais.
Confira o mapa da Julietti
“Quando a gente fez o teste da cadeira e viralizou, mais de 30 mil pessoas começaram a compartilhar e a mídia começou a entrar em contato, a gente falou: taí. Deve ser a nossa missão espalhar isso para mais pessoas que estão nessa condição ou numa condição semelhante”, explicou Guilherme. Foi a ONG, com apoio de patrocinadores, que doou a maioria das “Juliettis” espalhadas pelo Brasil e proporcionou experiências transformadoras. “A gente se sente muito feliz, é muito gratificante quando a gente vê um vídeo ou uma foto, dá vontade de chorar, muito legal”, conta Juliana. “Todo mundo pode fazer de tudo, é só ter determinação, correr atrás, não ficar ocupado por causa de problema, dificuldade”, conclui.
A emocionante história de Juliana e sua Julietti você acompanha no Terra da Gente deste sábado (20/03), às 14h, na tela da EPTV.
Características da cadeira facilitam acesso à lugares estreitos
ONG Montanha Para Todos
Histórias que se cruzam
A estudante Alice Lage Gesualdi, de 17 anos, esperou muito para realizar o sonho de subir uma montanha. Algo absolutamente possível para muitas pessoas, para ela foi um desafio. Alice nasceu prematura de seis meses e com hidrocefalia, doença que causou lesões no cérebro e limitações motoras. Ela consegue andar mas com ajuda. Filha de montanhistas, a jovem mineira de Itajubá, guardava no baú das frustrações a injusta limitação de não poder encarar as mesmas aventuras que os pais viveram. Mas a esperança renovou quando a família descobriu que na mesma Serra da Mantiqueira onde vivem, mas do outro lado da divisa, havia sido fincada a bandeira da superação!
O Parque Nacional do Itatiaia, no Rio de Janeiro, foi uma das primeiras unidades de conservação a receber a “Julietti”.
Filha de montanhistas realizou o sonho de subir uma montanha graças à cadeira acessível
No último dia 12 de fevereiro Alice subiu na Julietti e enfrentou os 10 quilômetros do caminho íngreme e pedregoso até a “Base das Prateleiras”, a 2.460 metros de altitude junto com os pais e o irmão. A trilha tem nível de dificuldade 5 numa escala que vai até 10. Mas como mensurar o tamanho da conquista da Alice? “Superar cada obstáculo e cada dificuldade da trilha foi desafiador. Ir acompanhando as mudanças do clima e descobrindo paisagens foi incrível”, disse ela. Chegar ao topo significou também enxergar um novo horizonte. “Eu me apaixonei pelo montanhismo e não vejo a hora de viver uma nova aventura com a minha companheira Julietti”, afirma Alice.

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