domingo, maio 9, 2021

Como estão os cuidados com o primeiro filhote de ararinha-azul da Caatinga após a extinção


Ave nasceu em abril de 2021 fruto de indivíduos adultos trazidos da Alemanha ao Brasil; pesquisador relata o processo para dar chances de vida à espécie que foi extinta na natureza. Primeiro filhote de ararinha-azul da Caatinga nasceu pesando aproximadamente 10 gramas em 13 de abril
ACTP/Divulgação
No meio da madrugada, os despertadores do doutor Cromwell Purchase e de outros membros da sua equipe regularmente tocam para que eles possam alimentar a esperança. É que ainda coberta por peninhas brancas e acomodada nas mãos de cuidadores, o primeiro filhote de ararinha-azul (Cyanopsitta spixii) da Caatinga brasileira, em 30 anos, recebe os cuidados da equipe de uma associação, depois de ter vindo ao mundo em 13 de abril. Muita expectativa ronda esse nascimento, já que a espécie foi considerada extinta na natureza.
Entenda os principais pontos da história da ararinha-azul na natureza
Doutor Cromwell Purchase é coordenador de projetos científicos e de campo da associação alemã ACTP (Association for the Conservation of Threatend Parrots) que, em parceria com o ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), recebeu 52 ararinhas-azuis vindas da Alemanha, em 2020, para serem monitoradas e readaptadas em seu ambiente de origem: a cidade de Curaçá (BA), na Caatinga. O pequeno filhote cuidado por eles é fruto dessas aves adultas, mas foi rejeitado pelos pais.
Conheça a história da ararinha-azul, a ave extinta da natureza exclusiva do Brasil
As ararinhas-azuis são aves originárias da Caatinga, na região de Curaçá, que desde o ano 2000 eram consideradas extintas na natureza, apenas fotos raras de observadores mostravam as últimas aparições da ave
A chegada do filhote foi resultado de um processo que se iniciou em janeiro, com as instalações de caixas de madeira para que as aves pudessem usar como ninhos artificiais. Dois casais manifestaram interesse em se relacionar, rapidamente, com a presença do recurso. “Ambos os pares puseram ovos: o primeiro pôs apenas ovos inférteis e isso acontece, pois às vezes leva tempo para que o processo de acasalamento funcione corretamente ou para que os ciclos reprodutivos das aves estejam alinhados”, explica o pesquisador responsável.
A produção de ovos inférteis é tão comum que Purchase destaca que, na natureza, a maioria das ninhadas das maracanãs-verdadeiras (“primas” das ararinhas-azuis da espécie Primolius maracana que se distribuem de forma mais abrangente e possuem melhor grau de conservação) têm ovos inférteis. Mas a equipe não desanimou com as estatísticas, já que o segundo casal de ararinhas parecia estar mais alinhado. A confirmação veio logo: dos quatro ovos botados por eles, dois eram férteis!
Filhotes de ararinha-azul nascem em Curaçá após 30 anos desde último registro de nascimento fruto de aves trazidas ao Brasil em 2020
Reprodução/TV Bahia
“É sempre emocionante ver ovos produzidos por pássaros tão raros, pois sabemos que a próxima geração está chegando”, conta o coordenador que, meses depois, presenciou o nascimento do primeiro filhote e se viu diante de um novo dilema. “Sabíamos que era um risco deixá-lo ser cuidado por pais tão inexperientes, mas todo o objetivo do projeto é ter filhotes criados pelos pais, pois eles os preparam melhor para serem soltos na natureza. Portanto, tivemos que dar uma chance”, explica.
Segundo o relato de pesquisador, os pais eram extremamente protetores com o filhote, mas pareciam não saber que tinham que alimentá-lo. Pela manhã, com a chegada da equipe para supervisionar o ninho, o filhote já havia morrido. “Foi muito triste ver a cena, mas a natureza pode ser cruel. Sabíamos que só poderíamos dar aos pais um curto período de tempo quando o segundo filhote nascesse e, se eles não o alimentassem, teríamos que pegá-lo para criação à mão”, relembra Dr. Cromwell.
Exemplares de ararinha-azul nasceram em outubro em um centro de conservação no interior de São Paulo
Divulgação/ICMBio
O segundo ovo fértil eclodiu dois dias depois. A família foi monitorada, mas os pais não alimentaram o filhote, mais uma vez. Assim, o grupo de pesquisadores decidiu “assumir a cria” e passaram a carregar, literalmente, sobre suas mãos o peso da sobrevivência da primeira ararinha-azul da Caatinga em 30 anos.
Cuidados com o filhote
Além de ser alimentado em pequenos intervalos de horário, o filhote de ararinha-azul ainda precisa se manter aquecido e apresentar um índice padrão de umidade do corpo, o que requer um monitoramento constante por parte da equipe de pesquisadores.
A resposta da ave aos procedimentos também é observada: “pesamos o filhote após cada alimentação para monitorar seu crescimento e ingestão. Tudo isso é feito para garantir que ele tenha a melhor taxa de desenvolvimento possível”, afirma Cromwell.
Os resultados já são visíveis: no dia do nascimento, o filhote pesava 10g e exatamente duas semanas depois, já pesa 100g. Segundo o pesquisador responsável, esse grau de evolução garante que o filhote está respondendo muito bem. Ele ainda destaca que os olhos da pequena ararinha estão começando a se abrir.
Aves novas e inexperientes usualmente cometem erros na criação dos filhotes, mas os pesquisadores esperam que as ararinhas-azuis se tornem aptas a cuidarem melhor das futuras gerações
ACTP/Divulgação
ACTP e as ararinhas-azuis
Desde que as mais de 50 ararinhas-azuis adultas chegaram ao Brasil, os pesquisadores do projeto se dedicam integralmente no processo de manutenção das instalações de reprodução e soltura, o que inclui cozinhar e fazer misturas de sementes, frutos e vegetais para as aves, limpar os ambientes, podar a vegetação, construir caixas-ninho onde possam se reservar para a reprodução e até estimular a formação de grupos de maracanãs-verdadeiras livres que ajudarão as ararinhas a se familiarizarem com a natureza, quando soltas.
Para isso, dois funcionários permanentes, um veterinário de plantão, um grupo de campo que varia de quatro a seis pessoas e o auxílio de profissionais do ICMBio, em determinadas tarefas, compõem a equipe responsável. Para doutor Cromwell esse projeto é pioneiro por tentar reintroduzir uma ave extinta sem “professores selvagens”, apenas mediado por humanos e com o futuro auxílio das maracanãs-verdadeiras. Em Minas Gerais, um centro de reprodução das ararinhas-azuis também tenta realizar esse feito.
Maracanã-verdadeira também é conhecida por arara-pequena ou ararinha
Rui Amires/VC no TG
“Não há garantias, só temos que fazer o nosso melhor para ensiná-los tudo o que pudermos, torná-las o mais selvagens possível e dar-lhes todas as ferramentas para terem a melhor chance de sucesso. Se tudo correr bem, poderemos ter a primeira soltura no ano que vem”, destaca o pesquisador que torce para que o filhote faça parte do primeiro grupo de ararinhas que retornará à natureza.
Dia da Caatinga
Oficializada por meio do Decreto Federal, a data de 28 de abril é considerada um marco para a Caatinga brasileira. O dia é reservado para proteger e conscientizar sobre este que é o terceiro domínio mais degradado do País e um bioma exclusivo do Brasil, dominando 11% do território.
A data é sempre especial, mas em 2021 o nascimento da espécie símbolo desse ambiente, após décadas de ameaças, acrescenta um grande motivo para comemorar. “É fantástico ter esse tipo de notícia a qualquer momento, mas tê-la em um dia nacional do habitat da espécie é muito especial. Esse filhote é o símbolo da esperança para a região e para o habitat. É a bandeira balançando ao vento no topo do mastro dizendo a todos que estamos aqui, prontos para voarmos livremente sobre a Caatinga e trazer de volta as vozes perdidas”, conclui doutor Cromwell.
Ararinhas-azuis também são foco de trabalho em Minas Gerais para conservação da espécie
Leonardo Milano/Divulgação
Quando as ararinhas-azuis retornaram à natureza, canções em homenagem a elas feitas em Curaçá (BA) se tornaram hinos de conservação da espécie

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