quinta-feira, março 4, 2021

De saída, reitor da Unicamp enaltece resposta da ciência à pandemia e equilíbrio das contas, mas lamenta gargalo da saúde


No cargo até abril, Marcelo Knobel comenta sobre desafios de gestão, entre eles a onda de ataques às universidades públicas e o negacionismo, e fala sobre luta para equilibrar o orçamento e problemas que seguem pendentes. Marcelo Knobel, reitor da Unicamp
Reprodução
Desde 2017 à frente da Unicamp, uma das melhores universidades da América Latina, o reitor Marcelo Knobel, 52 anos, avalia, no crepúsculo do mandato, que cumpriu grande parte das metas estabelecidas para sua gestão. Entre elas, o equilíbrio do orçamento, que defende ter encontrado, apesar de lamentar o gargalo na área da saúde. E atribui a fatores externos as principais dificuldades no período, entre elas a onda de ataques às universidades públicas e o negacionismo, mas enaltece a resposta que a ciência apresentou à sociedade em meio a pandemia da Covid-19.
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No posto até o mês de abril, Marcelo Knobel sabe que o momento é de organizar a casa para o próximo reitor, e diz que entregará uma universidade melhor do que recebeu. “Isso tem sempre acontecido, a universidade foi evoluindo ao longo dos anos, com consolidação de algumas coisas, principalmente na parte financeira”, diz.
Orçamento
Quando o assunto é orçamento, é preciso explicar como a maior parte do dinheiro chega à Unicamp, e como tal modelo sofre influência, positiva e negativa, diante da situação econômica do país.
A Universidade Estadual de Campinas recebe uma cota-parte de 2,2% do arrecadado com o ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias ou Serviço) em São Paulo. Ou seja, em tempos de crise, menos recursos são repassados e a instituição precisa lidar com o déficit
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“Quando eu entrei na reitoria, a gente tinha um comprometimento de 117% do orçamento, ou seja, gastava 17% a mais do que recebia por mês. Hoje está praticamente equilibrado, a gente gasta o que recebe”, defende.
Segundo o atual reitor, pela primeira vez, desde 2013, a Unicamp fechou o ano com o mesmo valor na reserva que tinha no início de 2020. “Do ponto de vista de gestão financeira, a gente conseguiu atingir o equilíbrio.”
Questionado sobre o quanto a reserva, acumulada em momentos de fartura econômica, ainda poderia socorrer a Unicamp nos próximos anos, o atual reitor definiu que há uma certa tranquilidade e que, assim como todos os brasileiros, espera que a crise acabe em breve.
“Espero que quando a crise acabar, a economia tenha uma certa pujança. E a universidade está saneada para voltar a crescer, depende desse contexto. Tem um caminho pavimentado. Não está pronto, mas certamente teve avanços”, afirma.
Vista aérea do campus da Unicamp, em Campinas (SP)
Antoninho Perri/Ascom/Unicamp
Gargalos na saúde
Se por um lado defende que a Unicamp tenha encontrado um equilíbrio financeiro, Knobel lamenta que uma questão pendente há vários anos não tenha avançado. Ele diz que diferentemente de outras universidades estaduais, como USP e Unesp, o financiamento dos serviços de saúde recaem sobre o orçamento.
“O HC, o Caism, o Gastrocentro, o Hemocentro, são financiados 100% SUS, mas a tabela do SUS está defasada, não corresponde nem a 25% dos custos dos hospitais. Além de um comprometimento de quase 40% com aposentadorias, uma boa parcela do orçamento vai para financiar nossa área de saúde. O caminho para resolver a questão orçamentária da Unicamp passa por resolver essa questão da saúde”, pontua.
De acordo com o professor, durante o mandato ele levou a questão ao governo do estado, tanto na gestão anterior como na atual, mas que o contexto da pandemia impede uma conversa com o atual secretário de Estado da Saúde.
“Temos conversado com os prefeitos da região, os deputados estaduais, todos sabem dessa questão, temos feito isso de forma recorrente”, diz.
Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp, referência para toda a região de Campinas
Reprodução/EPTV
Em nota, a Secretaria de Estado da Saúde informa que mantém convênios com a Unicamp para “repasses provenientes do Tesouro Estadual que totalizam mais de R$ 56,4 milhões para custeio de diversos tipos de atendimento, desde funcionamento da farmácia de alto custo até o custeio de leitos de UTI e enfermaria, inclusive para enfrentamento da pandemia de Covid-19”.
A pasta ainda informa que os valores da tabela de Média e Alta Complexidade fixados pelo Ministério da Saúde e destinados pela fonte federal para a Unicamp totalizam R$ 11,8 milhões para HC, CAISM, Hemocentro, Gastrocentro, Cepre e Cipoi.
“O reajuste dos repasses pelo Governo Federal é fundamental para auxiliar os serviços SUS de todo o Brasil”, completa a secretaria.
Dos ataques à pandemia
Ao repassar os quatro anos de gestão, Marcelo Knobel enfrentou uma verdadeira montanha-russa na relação universidade pública e parte da sociedade.
Ele fala dos ataques do governo federal e abertura da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar as três universidades estaduais, mas que, paradoxalmente, com o surgimento da pandemia, tanto Unicamp como outros centros de pesquisa puderam mostrar a importância da ciência à população.
“A Unicamp conseguiu rapidamente se reinventar. Criamos a força-tarefa Covid, com mais de 70 grupos trabalhando de algum assunto. Contribuímos com ciência básica, com epidemiologia, com os testes. Realizamos mais de 100 mil testes para todas as prefeituras da região”, ressalta.
Segundo o professor, apesar de jogar a ciência sob os holofotes, a pandemia não cessou os movimentos negacionistas e de anti-intelectualismo.
“Não é que os críticos desaparecem, mas as vozes dos cientistas foram mais ouvidas. O que temos de fazer é continuar esse processo e mostrar, cada vez mais, a importância da ciência, da tecnologia, das universidades, da educação”, diz.
“Temos que mostrar para a sociedade que sem boa educação a gente não tem futuro como país, não tem futuro nenhum”, afirma Knobel.
‘Mea culpa’
Questionado sobre como as universidade devem agir diante desse movimento de críticas e ataques, Knobel disse que as instituições precisam aprimorar sua comunicação com a sociedade.
“É preciso fazer um ‘mea culpa’ das falhas na comunicação. Todas elas estão buscando formas mais contemporâneas de comunicação, mecanismos. É uma lição, isso ficou explícito na pandemia. É preciso alavancar isso. É um desafio, para quem não vive, não teve acesso e não conhece o ambiente universitário, qual é o investimento necessário que a sociedade faça nela e qual é o retorno”, pondera.
Sobre o acesso, o atual reitor reconhece que o “mundo ideal” passaria por uma ampliação expressiva da oferta de vagas no ensino superior, especialmente as universidades públicas. “Apenas 20% dos jovens brasileiros estão no ensino superior, dos quais 75% em universidades privadas”, detalha.
Para o professor, seria preciso “mudar o sistema” e não apenas uma universidade, num modelo semelhante ao da Califórnia, em que há níveis diferentes de acesso à educação, das universidades de pesquisa, consideradas de classe mundial, a centros de formação.
“Esse exemplo da Califórnia funciona bem, seria um sistema para massificar e que tivesse conexão com as universidades de classe mundial, como Unicamp, USP, Unesp, UFsCar, Unifest, entre outras”, afirma.
“A Unicamp oferece 3,3 mil vagas. Vamos dobrar isso? Seria muito pouco. Precisaria ter uma mudança sistêmica, completa, para massificar. Nem toda universidade precisa ser de excelência em pesquisa, como é a Unicamp. Sei da realidade financeira do país, que o momento atual não permite. Mas podemos ser criativos e buscar soluções coerentes. Esse projeto não precisa ser federal, poderia ser de um estado com a pujança de São Paulo”, opina.
Democratização do acesso
Enquanto mudanças de sistema não são implantadas, o reitor chega ao final do mandato destacando as políticas de inclusão e acessibilidade implantadas na Unicamp no período de sua gestão, como a aprovação de cotas étnico-raciais desde o vestibular 2019, a criação do vestibular indígena, as vagas para estudantes com bom desempenho em olimpíadas de conhecimento.
“A universidade só melhora com diferentes olhares, diferentes culturas, formas de pensar. É benéfico para a sociedade esse aspecto mais amplo do acesso. Cumprimos nosso papel social, uma importante missão, e ao mesmo tempo a universidade se beneficia. É um caminho muito importante de diversificação, de construir uma inclusão social de maneira mais efetiva”, afirma.
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Além disso, ações que já ocorriam na universidade relacionadas a garantia de direitos fundamentais ganharam corpo com a criação da Diretoria Executiva de Direitos Humanos, cujas atividades passaram a ser coordenadas em um nível superior dentro da Unicamp.
A diretoria possui cinco comissões assessoras: de diversidade; acessibilidade, observatório de Direitos Humanos; de violência sexual e de gênero; e a cátedra de refugiados.
“Esse é um assunto que tem uma visibilidade importante, um avanço importantíssimo da Unicamp nesses últimos anos”, conclui.
Candidatos durante 2ª fase do vestibular 2020 da Unicamp, antes da pandemia
Antonio Scarpinetti
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