segunda-feira, maio 17, 2021

Dossiê da polícia revela sofrimento de jovem perseguida por ex-namorado há 10 anos: 'Me acostumei a sentir medo'


Beatriz Alencar, de 25 anos, trouxe história à tona após fazer um post em uma rede social detalhando as agressões psicológicas que sofreu. Documentos mostram situações de ameaça e humilhação praticadas pelo homem. Jovem de Americana perseguida há 10 anos por ex-namorado espera por Justiça
Um dossiê de investigação da Polícia Civil comprova os crimes contra uma jornalista de Americana (SP), praticados pelo ex-namorado dela, em uma perseguição que dura dez anos. Beatriz Alencar, de 25 anos, trouxe a situação à tona ao fazer um post no Facebook, onde explica em um relato detalhado todas as humilhações e ameaças que sofreu do rapaz que conheceu pela internet na época da escola. O texto escrito por ela viralizou e ganhou repercussão na internet.
O caso foi registrado na Polícia Civil de Americana em janeiro de 2020 e o dossiê de 400 páginas, obtido pela EPTV, afiliada da TV Globo, revela conversas por redes sociais, fotos e prints de toda a perseguição a jovem. Os crimes envolvem divulgação de imagens íntimas, criação de perfis falsos para se passar por ela em redes sociais e ameaças a Beatriz e a família dela. O processo de tortura psicológica acontece desde quando ela tinha 16 anos.
“Eu escrevi o que eu precisava falar há muito tempo. Esse foi um momento de exaustão minha. Eu não queria me expor, mas já estava me expondo de outra forma e não aguentava mais. Eu não conseguia sair na rua, fazer nada, assistir nada. Eu me acostumei a sentir medo”, disse em entrevista à EPTV.
No conteúdo obtido pela investigação, é possível ver prints de conversas onde o suspeito admite que enviava fotos íntimas da jovem para outras pessoas. Além disso, há mensagens onde ele faz comentários preconceituosos em relação ao peso de Beatriz e também palavras xenofóbicas sobre os familiares dela serem da região Nordeste do Brasil.
Beatriz fez um post no Facebook para revelar as agressões que sofria
Reprodução/EPTV
Começo e perseguição constante
A jornalista conta que conheceu o rapaz por meio de um jogo de celular. Antes de se conhecer pessoalmente, eles conversaram pela internet por dois meses. Quando descobriram que moravam próximos um do outro, começaram a se relacionar, com a autorização da mãe de Beatriz. Pouco tempo depois, a jovem identificou um comportamento estranho nele, com pedidos de fotos íntimas e sinais de possessão. Por conta disso, ela decidiu terminar o namoro.
“Minha mãe disse a ele que eu não queria conversar, mas ele disse que queria ouvir de mim que eu queria terminar. Eu fui até o portão, chorando, e disse que não queria conversar. Ali ele fez a primeira ameaça. Na frente da minha mãe. Ele me disse que tinha minhas fotos e que eu ia ver o que ele ia fazer com elas. Essa foi a última vez que eu tive contato visual com ele”, contou Beatriz.
Conversas mostram ex-namorado de Beatriz admitindo que mandava fotos íntimas dela para outras pessoas
Reprodução/EPTV
Segundo a polícia, a perseguição acontece por rede social, por telefone, e até pessoalmente, quando ele se matriculou na mesma escola em que ela estudou. A divulgação de fotos íntimas é feita pelo suspeito através dos perfis falsos em que se passa por ela. O envio das imagens é para amigos, familiares, qualquer pessoa que se aproxime dela, ou até desconhecidos.
Durante um período, Beatriz se mudou para a Austrália, mas mesmo assim ela foi encontrada pelo ex-namorado. “Ele se fez passar por uma mulher que estava me oferecendo uma oportunidade de emprego. Eu dei meu telefone, porque estava do outro lado do mundo e jamais imaginei que ele fosse me achar, mas me achou”, revelou.
Ex-namorado de Beatriz fez xingamentos contra a família dela
Reprodução/EPTV
Invisível socialmente
Para se proteger da perseguição e das ameaças, a jovem decidiu, há pelo menos cinco anos, ficar invisível para a sociedade e sumiu de qualquer rede social. Durante uma década, ela enfrentou crises de pânico, depressão, além de vários tratamentos de saúde, com uso de medicamentos. Em 2017, Beatriz pediu na Justiça uma medida protetiva, mas não resolveu. “Como ele sempre se esconde, ele não foi notificado”, disse.
A foto de Felipe Eberle foi divulgada nas redes sociais para que ele possa ser encontrado. Outro alento para a jovem foi a aprovação da lei que inclui no Código Penal o crime de perseguição, conhecido também como “stalking”, sancionada pelo presidente Jair Bolsonaro no dia 1º de abril.
“Pela minha família eu tenho muito medo. Quando a gente é adolescente, a gente tem uma cortina de fumaça na nossa frente, mas o que eu posso dizer é que as pessoas precisam contar, não podem esconder. Eu tenho esperança ainda que possa existir Justiça, de que ele vai pagar pelo que fez e que eu ainda vou viver em paz”, afirmou.
Advogado explica gravidade do caso de jovem perseguida há 10 anos por ex-namorado
Tipificação dos crimes
De acordo com o advogado de Beatriz, Paulo Sarmento, afirmou que o crime mais grave que o ex-namorado dela é acusado se refere à divulgação de fotos, desde a época que ela era adolescente. “Ele vinha colocando imagens de nudez quando ela era adolescente. Agora, ele pode se enquadrar no artigo 208 C da Lei Carolina Dieckman, que se refere a nudez adulta”, explicou.
De acordo com o defensor, o suspeito escreveu um e-mail confessando que se sentia mal por fazer essa perseguição e disse que não faria mais isso, o que não aconteceu. O inquérito permanece aberto na Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Americana. O ex-namorado de Beatriz ainda não foi ouvido.
“Esse crime, de divulgação de fotos íntimas é muito severo. É uma morte em vida para a mulher. A maioria abandona a escola. 50% delas até pensam em ações suicidas. O que nós, como sociedade, temos que fazer é não julgar essas mulheres e apoiar. Isso é fundamental”, disse a promotora de Justiça Valéria Diez Scarance Fernandes.
A Secretaria de Segurança Pública (SSP-SP) afirmou que o inquérito, além de perseguição, também apura o crime de pedofilia, já que a jovem era adolescente quando começou a se relacionar com o suspeito.
Felipe Eberle ainda não foi encontrado para ser ouvido no inquérito
Reprodução/EPTV
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