segunda-feira, maio 17, 2021

Dossiê sobre mulheres na ciência criado por alunos de Indaiatuba vence etapa regional de olimpíada da Fiocruz


Esta é a 10ª edição do evento e projeto deve concorrer à fase nacional no dia 22 de abril. Biólogo comentou importância de estimular senso crítico na sala de aula: ‘Nas primeiras reuniões, eu quase não ouvia o aluno e, quando vai chegando no final, parece uma empresa júnior’. Professor de escola de Indaiatuba manda recado de incentivo aos profissionais da área
Você sabe quem foi Mileva Maric? E quais os feitos de Rosalind Franklin? Para apresentar essas e outras mulheres autoras de trabalhos que mudaram o rumo da história a ciência, mas seguem invisíveis para muita gente, alunos do 1º ano do ensino médio de uma escola de Indaiatuba (SP) criaram um dossiê que ficou em primeiro lugar na fase regional de produções escritas da 10ª Olimpíada Brasileira de Saúde e Meio Ambiente (OBSMA).
A vitória regional alçou o grupo à disputa nacional da olimpíada, etapa que está marcada para 22 de abril. Luccas Zillig, professor de biologia que orientou os estudantes, contou a importância de estimular o senso crítico na sala de aula.
“A primeira coisa que a gente fez foi discutir sobre o tema. Então, eu levei artigos para eles, eu coloquei eles em contato com o meio acadêmico e a gente foi discutindo. Eu comecei a fazer eles pensarem um pouquinho mais fora da caixinha, o que foi muito bacana, porque, nas primeiras reuniões, eu quase não ouvia o aluno e, quando vai chegando no final, parece uma empresa júnior”, comentou o biólogo.
Luccas disse que o tema partiu dele e a turma concordou. “Eu propus para os meus alunos para a gente fazer um dossiê e esse dossiê tem uma pegada meio misteriosa. A gente pensou em uma jornalista que reuniu informações ao longo da história da ciência de como as mulheres foram invisibilizadas”, explicou.
O documento tem 10 páginas por ser o limite proposto pela olimpíada e começa com uma carta de uma jornalista fictícia que teria visto uma estudante universitária perder o prêmio Nobel para o professor. Com isso, ela decidiu reunir cinco mulheres que foram apagadas da história da ciência.
Entre as cientistas escolhidas, estão Mileva Maric, esposa de Albert Einstein, que contribuiu de forma significativa na teoria da relatividade, e Rosalind Franklin que realizou um trabalho fundamental para a descoberta da estrutura de DNA.
“De todas as mulheres, tem uma foto, a ocupação delas – onde elas estudaram, país, ano – e qual foi a injustiça que foi cometida com cada uma delas e, além dessas fotos, têm anexos, como a carta, imagens, essa jornalista que a gente criou, Amanda Martin, tem a carteirinha dela de jornalista. Então, a gente pensou nesses detalhes que tornam um dossiê em um dossiê”, descreveu Luccas.
Pelo fato da proposta ter uma pauta feminista, Zillig reforçou a ideia de lugar de fala e apenas as meninas redigiram os conteúdos escritos no dossiê. Já o único menino do grupo ficou responsável pela parte técnica e estilística do processo.
Carta escrita pela jornalista Amanda Martin sobre marginalização da mulher na ciência
Luccas Zillig
Engajamento dos alunos
A participação dos estudantes foi fundamental no resultado do trabalho, de acordo com o professor de biologia. Ele contou que cada um tinha deveres a serem cumpridos e havia reuniões semanais.
“Conforme a gente ia discutindo e pesquisando, eles vão aprendendo a se posicionar, a formular argumentos, aprendem a ter responsabilidade no sentido de que cada um tem uma tarefa”, comentou o professor.
Zillig disse, em tom orgulhoso, sobre o esforço dos alunos e como sair da rotina de sala de aula trouxe um impacto positivo. “Os próprios pais, pelo o que a diretora falou, comentaram da empolgação deles por estarem fazendo parte de algo maior”, relatou.
Braço direito
Por conta da pandemia da Covid-19, todo o trabalho foi desenvolvido de forma remota com os alunos de Indaiatuba
Arquivo pessoal
Apesar de Luccas ter encabeçado o projeto, ele recebeu ajuda de Sabrina Monteiro, amiga que faz faculdade de Biologia na Ufscar. Ele contou que, como na federal são pedidas horas complementares a serem cumpridas, surgiu a ideia dos dois trabalharem juntos.
Sabrina relatou que quando foi convidada a participar da olimpíada, não pode recusar. “É muito importante que nós enquanto professores ou futuros professores saibamos a relevância que esses projetos têm na formação do aluno e do próprio profissional”, acrescentou.
A estudante universitária se envolveu em todo o projeto, mas ficou responsável, principalmente, pela elaboração do material físico. Além disso, também ressaltou o desempenho dos estudantes no processo de produção. “Foi muito gratificante poder trabalhar com alunos tão engajados e dedicados. O resultado é só uma consequência do sucesso deles”, afirmou.
Objetivo da olimpíada
A Olimpíada Brasileira de Saúde e Meio Ambiente (OBSMA) é promovida pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), centro de pesquisa do Rio de Janeiro que é referência nacional e protagoniza, por exemplo, estudo e produção de vacinas contra a Covid-19.
A olimpíada possui as modalidades de ensino fundamental e médio com três categorias: produção de texto, projeto de ciências e produção audiovisual. O desafio tem duas fases que são a regional e nacional.
O professor Luccas é bicampeão da etapa regional e foi uma vez campeão da nacional em 2018. A região na qual concorre é a sudeste que, na classificação da OBSMA, reúne os estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo.
Zillig explicou que professores e profissionais de educação e ciência da Fiocruz que avaliam os projetos e escolhem os vencedores. Neste ano, na categoria produção de texto do ensino médio na regional sudeste, o dossiê foi escolhido entre 31 trabalhos.
“O intuito da Fiocruz é que os professores e alunos discutam saúde e meio ambiente na sala de aula e façam uma crítica social. Então, é esperado que a gente consiga ‘linkar’ conteúdos de biologia, geografia, história que eles [estudantes] veem na sala de aula de uma maneira mais técnica e fazer trabalhos que os alunos relacionem esses conteúdos com fatos do dia a dia”, afirmou o biólogo.
Luccas Zillig, professor de biologia, e alunos de escola de Indaiatuba vencem etapa regional de olímpiada promovida pela Fiocruz
Luccas Zillig
*Sob a supervisão de Arthur Menicucci.
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