sábado, abril 17, 2021

Hepatite medicamentosa: entenda intoxicação pelo 'kit Covid' que levou paciente de Campinas à fila do transplante


Médica da unidade de transplante hepático do HC, Ilka Boin explica as alterações no fígado e os sintomas do tipo de hepatite que pode levar à necessidade de um transplante. Ilka Boin, médica da unidade de transplante hepático do HC da Unicamp
Reprodução/EPTV
Uso prolongado de remédios, enjoo, cansaço, confusão mental, olhos e pele amarelados. Esse é o histórico que leva ao diagnóstico de hepatite medicamentosa, doença que chamou a atenção nesta semana em um paciente que tratou a Covid-19 com medicamentos ineficazes e acabou na fila do transplante de fígado. O G1 ouviu o Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp, para explicar como se dá a evolução do fígado em casos assim.
“O paciente vem com sintomas de fadiga, cansaço, às vezes febre e até confusão mental, podendo ser leve até um estado de coma. O quadro pode levar horas ou dias na fase aguda. Não deve ser uma ideologia política, mas um alerta técnico. É o efeito da exposição contínua a nível populacional. Com certeza vão começar a aparecer casos”, diz a médica da unidade de transplante hepático do HC, Ilka Boin.
Nesta reportagem, você vai saber:
Quem é o paciente de Campinas que adquiriu hepatite após ‘kit Covid’?
O que pode causar a hepatite medicamentosa?
Quais os sintomas da hepatite medicamentosa?
Como é feito o diagnóstico pelo médico?
Quais as alterações que ocorrem no fígado?
A hepatite medicamentosa tem tratamento?
O caso de Campinas é de um homem de aproximadamente 50 anos. Após o diagnóstico, ele está em casa, na cidade de Indaiatuba (SP), e é acompanhado por médicos do HC. Sob recomendação médica, ele usou o “kit Covid”, que contém azitromicina, hidroxicloroquina e ivermectina, consideradas ineficazes pela comunidade científica.
“Em março do ano passado, a gente observou a cloroquina, depois a Annita [vermífugo], a ivermectina. Hoje tem dez medicamentos. Começou a haver um uso indiscriminado e contínuo de medicações, às vezes sozinhas ou acompanhadas, e não havia relatos desses casos antes”, completa.
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1. Quem é o paciente de Campinas que adquiriu hepatite após ‘kit Covid’?
Homem diagnosticado é praticante regular de esporte e não possui histórico de outras doenças.
Aproximadamente 50 anos.
Teve resultado positivo para Covid-19 há cerca de três meses.
Por recomendação médica, tomou ivermectina, hidroxicloroquina, azitromicina, zinco e vitamina D.
Um mês após o uso dos medicamentos, percebeu pele e olhos amarelados.
2. O que pode causar a hepatite medicamentosa?
O efeito tóxico no organismo a partir da ingestão de medicamentos em altas doses.
O quadro vai depender do medicamento ingerido, do tempo de exposição a ele, da condição de cada organismo e da idade do paciente.
A maioria dos medicamentos que consumimos é metabolizada, ou seja processada, no fígado; o paracetamol é um exemplo.
A ingestão de remédios pode levar a uma descompensação do fígado, uma mudança na forma de ele trabalhar que é prejudicial ao organismo.
Essa descompensação pode ser aguda, a forma mais grave.
3. Quais os sintomas da hepatite medicamentosa?
Os sinais no corpo podem aparecer após 24 horas de ingestão dos medicamentos ou até 1 mês depois.
Podem ocorrer: cansaço, dor de cabeça, mal-estar, fadiga, febre, náusea, desmaio, vômito, confusão mental.
Com o passar do tempo, a pessoa pode começar a perceber olhos e pele amarelados, sinais de icterícia. Além disso, o paciente pode entrar em coma subitamente.
4. Como é feito o diagnóstico pelo médico?
O médico colhe informações do histórico do paciente, sobre quadro de saúde e medicamentos ingeridos recentemente, por exemplo.
Com a informação sobre remédios ingeridos, o médico avalia a relação com os sintomas. Há substâncias que podem provocar uma reação específica e imediata num tipo de organismo e em outros não.
É feito um exame de sangue para verificar a quantidade de bile eliminada no sangue, a bilirrubina.
O diagnóstico completo depende da biópsia do fígado.
5. Quais as alterações que ocorrem no fígado?
O fígado transforma o medicamento ingerido quando é processado, para que as substâncias que compõem a medicação sejam absorvidas pelo organismo.
Quando o fígado identifica uma sobrecarga de medicamento, o hepatócito, que é a célula-mãe do fígado, é destruído. São essas as células que formam e excretam a bile no organismo.
Com a produção de bile desregulada, o fígado fica descompensado e a bile vai em excesso para o sangue, gerando níveis até 40 vezes maiores do que o normal. Isso resulta no amarelado dos olhos e da pele.
O excesso de bile também pode ocasionar a doença colestase hepática, um entupimento dos canais que excretam a bile.
Quadro pode levar horas ou dias na fase aguda.
Também pode ocorrer um quadro crônico, com sintomas de coceira, icterícia, urina escura e dor na área hepática. Fadiga, cansaço, náusea e vômito também podem aparecer.
6. A hepatite medicamentosa tem tratamento?
Depende do estágio da doença. Há casos de melhora no quadro quando é feita a suspensão imediata dos medicamentos. Há tratamento com medicação específica, mas resolve poucos casos.
Normalmente a indicação é de transplante de fígado para os casos de hepatite medicamentosa aguda. O fígado é um órgão vital, não sobrevivemos sem ele.
O quadro também pode afetar o funcionamento dos rins com a ocorrência da síndrome hepatorrenal.
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