segunda-feira, abril 12, 2021

Jiboia faz “contorcionismo” para se alimentar de ave; flagrante é registrado durante caminhada


Registro foi feito em Nova Europa (SP) pelo repórter do Terra da Gente, que conta em texto os detalhes da experiência. Vídeo tem a “narração” de um morador local sobre toda a situação. No interior de SP, jiboia devora pássaro na beira da estrada e surpreende moradores
Uma dose diária de vitamina D “diluída” em sete quilômetros de caminhada. O sol auxilia na absorção de cálcio, dá mais vigor aos músculos e ajuda a manter o equilíbrio, não apenas do organismo, mas da mente, algo fundamental nesse período de quarentena.
Tem sido assim, meus dias de ‘home office’ em Nova Europa, cidade com pouco mais de dez mil habitantes, que fica na região central do estado de São Paulo. Para quem ainda teima em não fazer atividade física, acha que é uma rotina cansativa e monótona, talvez não tenha experimentado caminhar mais perto da natureza. Essa história é prova de que uma voltinha ao ar livre, pode ser um grande aprendizado.
É claro, que numa época de pandemia, mesmo que seja um trajeto rápido e isolado, cabem todos os cuidados ao sair de casa. No caminho que escolhi não tem aglomeração, só algumas pessoas usando máscaras para “oxigenar” as ideias.
Caminhada ao ar livre é uma ótima dica para se conectar com a natureza
Reprodução vídeo
Quanto mais cedo, melhor. Nesse horário não tem o barulho dos carros, dos caminhões e nem das máquinas agrícolas. O que se ouve é só o canto “miúdo” das aves.
Não tem mata fechada por perto, mas em quase todo percurso tem árvores e arbustos. Ambiente ideal para o “Tico-tico rei”, ou, “Sangrinho” como a gente diz por aqui. A espécie vive em bordas de matas secundárias, cerrados e pomares. Bicho esperto, gosta de locais sombreados. E quem não gosta? Pela sombra os passos fluem mais, ainda mais quando somos seguidos de perto por um sabiá-barranco, ou, um bando de canarinhos.
“TROPEÇANDO” EM UM FLAGRANTE
Num domingo desses, na volta para casa, já ofegante, notei uma agitação no céu. Passarinhos em “frenesi”, voando de um lado para o outro.
Essa “aglomeração” dos pássaros é explicada na biologia por um termo norueguês, “mobbing”, ou, em português: “tumulto”. Um comportamento “antipredatório”, para afugentar alguma ameaça que rondava por ali. Só que dessa vez a estratégia das aves não funcionou.
Alguns metros adiante, com um olhar despretensioso, notei algo preso na cerca. Se demorei para entender que era um passarinho, rápido me questionei: “como esse bicho foi parar ali?”. Uma espiadinha mais de perto foi suficiente para entender do que se tratava. Por um instante, também me confundi com a camuflagem da jiboia, igual aconteceu com a ave que caiu na emboscada.
Lavadeira-mascarada pode ser observada perto de ambientes alagados
Rudimar Narciso Cipriani
O arame farpado protege uma área de banhado perto do Rio Itaquerê, o tipo de ambiente preferido da “lavadeira-mascarada”, ave que encontra alimento na lama.
Já tinha visto outras vezes o bando pousando tranquilamente na cerca. Só que naquele domingo, a cobra foi mais rápida.
“A jiboia pode caçar por espreita, que é ficar camuflada esperando que alguma presa passe por ali. O bote dela é muito rápido. Provavelmente, o passarinho pousou no arame e a serpente percebeu. Sentiu o cheiro pela língua, é que a jiboia tem orifícios chamados de órgãos de Jacobson que ficam no céu da boca e estão ligados ao olfato. Isso é muito importante para seguir a trilha das presas.”, explica o herpetólogo Renato Gaiga.
A impressão era que o bote tinha acontecido há pouco. A jiboia ainda segurava firme a presa.
Jiboia estava pendurada em arame farpado
Reprodução vídeo
O herpetólogo Renato Gaiga desmistifica esse comportamento de caça. “Muita gente acha que a jiboia aperta até quebrar os ossos da presa. Não é bem assim. Com a força que a serpente faz, pode ser que até quebre um osso. Também acontece de a presa morrer por asfixia, só que estudos recentes apontam que a cobra aperta tão forte, que interrompe a circulação de sangue e mata a presa dessa forma”.
Os exemplares juvenis tendem a se deslocar mais pelo alto, por serem mais leves, talvez esse comportamento justifica porque a pequena jiboia estava na cerca. Na fase adulta, a espécie prefere mais o chão e podem medir até quatro metros de comprimento.
A jiboia é considerada a segunda maior serpente do Brasil, atrás apenas da sucuri, que também usa a estratégia de asfixiar as presas.
Eu sempre tive o “pé na roça”, mas confesso que cenas assim, por um bom tempo me passavam despercebidas. Com os anos, o foco e os interesses mudaram, a vida mais perto da natureza passou a fazer mais sentido. Interessado no desfecho daquela cena, parei para gravar o comportamento da espécie. Enquanto a jiboia estudava a melhor forma de se alimentar e eu procurava o melhor ângulo para captar a imagem sem interferir, ganhei um parceiro nessa observação.
Márcio Silva parou para observar cena de predação e narrou o momento
Reprodução vídeo
OUTRO OLHAR INTERESSADO
Atraído pela mesma curiosidade, parou ao meu lado o Marcio Silva. De bota bico fino, entendido dessa vida no campo, o operador de máquinas agrícolas, com a propriedade de um biólogo, foi me descrevendo em detalhes o “contorcionismo” da serpente para se alimentar. “Do jeito que ela tá, tá ‘impropício’ pra ela engolir, porque ela tá de ponta cabeça, fazendo força pra puxar ele, se ela tivesse no chão seria mais fácil”, analisou o Marcos.
A jiboia engole a presa inteira, e para facilitar, começa pela cabeça, assim, evita que os membros se abram e dificultem a ingestão. Só que atento, o Marcio me chamou a atenção para outro detalhe: “Ela não pegou direito, óh. Tem que pegar pela cabeça. Ela tá comendo pela metade.”
Jiboia é flagrada predando ave conhecida como lavadeira-mascarada
Paulo Augusto/ TG
Nesse caso, a serpente se adaptou a ocasião, explica o herpetólogo, Renato Gaiga. “No chão a jiboia mata o bicho e pode soltar, para depois começar a engolir pela cabeça. Só que ela estava pendurada, se ela soltasse, o risco de não encontrar a presa depois é grande, então, quando ela tá pendurada, pela nossa observação, ela vai engolir por onde pegar primeiro para não perder a refeição”.
A ‘lavadeira-mascarada’ mede cerca de 16 centímetros, o que não é um problema para pequena jiboia. “A mandíbula da cobra fica solta, não é fixada na parte de cima. Além disso, a parte debaixo é dividida. O lado esquerdo, não é interligado com o direito. Então, a parte debaixo é separada e se movimenta de forma independente. O couro da boca tem uma grande elasticidade, por isso, o bicho consegue engolir presas bem maiores”.
A jiboia fez um malabarismo para se alimentar. Ao mesmo tempo que se segurava no arame farpado, se enrolava na presa e tentava engolir. “Quero ver o comportamento dela pra sair dali, como ela vai fazer?”, comentou o operador de máquinas. Só depois de uma hora e meia é que veio a resposta. A jiboia se soltou do arame e caiu no mato. “Ela vai acabar de engolir ele (pássaro) e provavelmente, vai ‘caçar’ um canto ali, pra não se mexer muito”. A serpente vai levar mais ou menos uma semana para digerir todo o alimento.
Serpente ficou por mais de uma hora pendurada com a presa
Reprodução vídeo
Em histórias assim, é normal a gente se solidarizar com a presa e condenar a pequena jiboia, principalmente em um período de tantos julgamentos. Mas pensando pelo ponto de vista da pequena jiboia, ela cumpriu muito bem o seu papel na natureza. “As serpentes, independentemente da espécie, servem de predadores para controlar a população de roedores, morcegos, insetos e vermes. Se alimentam até de outras cobras venenosas. Servem também de presas, alimento para outros animais: gaviões, gambás. Por isso, as serpentes são muito importantes no equilíbrio do meio ambiente”, completa o herpetólogo Renato Gaiga.
Fica a dica para vencer a preguiça, experimente uma boa dose diária de vitamina D com natureza, você pode se surpreender com o resultado.
*Paulo Augusto é repórter do Terra da Gente.

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