sábado, junho 12, 2021

Jovem se torna um dos maiores especialistas do mundo em sons da natureza


O uruguaio Juan Pablo Culasso grava as paisagens sonoras e os cantos das aves Juan Pablo Culasso trabalha gravando sons da natureza
BBC
Imagine como seria contemplar a natureza apenas com o com o tato, o olfato e a audição, sem poder enxergar nada. Pode até parecer estranho para quem fica com olhos encantados pelas belezas do meio ambiente, mas um jovem uruguaio prova que é possível sentir a diversidade que nos rodeia de muitas outras formas e viver experiências transformadoras.
Juan Pablo Culasso nasceu com uma deficiência visual severa e ainda criança aprendeu a perceber os ambientes de uma maneira peculiar. “Naturalmente uma pessoa cega associa tudo ao som. Então a primeira história que meus pais me contam é que eu era muito pequenininho, estava num laticínio de uns amigos da família no Uruguai com meus irmãos que enxergam. Meus pais falaram: olha lá as vacas. Ao mesmo tempo cantou o Quero-quero (uma ave). Passadas algumas horas, a gente estava almoçando, e eu voltei a ouvir o Quero-quero e disse: são as vacas!”, contou ele em entrevista ao Terra da Gente.
Pequenas confusões como essa obrigaram Juan a apurar a audição para os bichos o que viria a transformar sua vida anos depois. Aos dezesseis anos ele foi convidado a acompanhar um grupo de biólogos durante uma incursão pela mata. “E o chefe da expedição me deu um gravador e falou: bota o fone de ouvido e tenta ouvir o que tá acontecendo com esse microfone aqui e grava. E eu apertei REC na máquina e foi uma coisa que parecia que estava me esperando. Naquele momento decidi que iria dedicar minha vida à gravação de pássaros”, revelou.
A decisão contrariou a família, que esperava que ele fosse advogado. Em vez disso veio para o Brasil e aqui encontrou aquele que viria ser o seu maior tutor, o ornitólogo Jacques Vielliard, curador do arquivo de som neotropical na Unicamp. Nos laboratórios e museus de história natural Juan Pablo provou que é importante enxergar além das aparências, afinal, no mundo das aves nem sempre o mais bonito canta melhor.
É possível admirar a natureza apenas com o tato, o olfato e a audição
Juan Pablo Culasso / Arquivo Pessoal
“Eu tocava os bicos, tocava as formas, as patas e falava assim: meu Deus, um passarinho do tamanho do meu polegar tem um canto tão incrível e um pássaro super elegante de formas e cores tem um canto, digamos, menos interessante.” O maior exemplo disso é o Uirapuru-verdadeiro (Cyphorhinus arada), dono de um dos cantos mais bonitos da natureza, mas que visualmente não chama tanto a atenção.
De tanto procurar detalhes sonoros, ele desenvolveu o chamado “ouvido absoluto”, habilidade auditiva que pouquíssimas pessoas têm. “Quando você mexe o café, eu sei dizer a nota musical que a batida da colher na xícara produz. Basicamente, para as pessoas entenderem, é isso. Você descobre isso se você estimula, então eu tive a sorte de tocar piano por muitos anos e estimular mais minha audição”, conta.
Juan Pablo é hoje um dos maiores especialista do mundo em gravação de “paisagens sonoras”, um recurso muito utilizado por pesquisadores para medir o nível de conservação e a “saúde” de determinados ambientes. No Brasil registrou os sons da Mata Atlântica, da Amazônia, Pantanal e Cerrado.
Uruguaio percorreu o Brasil para gravar “paisagens sonoras”
Juan Pablo Culasso / Arquivo Pessoal
“No Parque Nacional das Emas (Goiás), que é um parque gigante, eu consegui gravar uma das paisagens sonoras mais lindas. Pode até parecer a coisa mais simples, mas é o vento que vai passando pela grama que gera um som muito, muito interessante, muito lindo, muito prazeroso… O som da paz”, diz ele. Álbuns com as gravações de Juan Pablo estão disponíveis em plataformas de áudio como o Spotfy.
Ele hoje mora na Colômbia onde tem um pequeno estúdio para edição das gravações. Recentemente lançou uma “vaquinha virtual” com o objetivo de comprar novos equipamentos e aprimorar o trabalho.
Paralelamente Juan trabalha num projeto pioneiro de acessibilidade. “Será a primeira rota de aventurismo para pessoas com deficiência visual na América Latina. A gente está trazendo ou turismo de natureza para as pessoas cegas. Se você busca no Google por turismo de natureza para pessoas cegas não tem nada, então as pessoas se frustram. Agora, utilizando as aves e o som das aves, estou montando uma experiência que tenha plenitude para este público”, conta ele.
Juan Pablo Culasso prova que há muitas maneiras de perceber o mundo e a natureza. Bastar olhar acima das dificuldades e preconceitos. “É uma questão de provocar que todas as pessoas com deficiência visual tenham as mesmas oportunidades. Que a gente não sofra mais preconceito pela sociedade, que nós sejamos entendidos como indivíduos, como sujeitos de direito, como pessoas capazes de fazer coisas, de ter nossa vida de ter nossos sonhos”, conclui. “Eu quero ser um catalisador para que as pessoas percebam essa beleza. Eu adoro quando eu dou palestra se consigo mostrar o lindo que tem por trás de um de um som, eu adoro isso, para mim é uma coisa que me deixa feliz.”

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