quarta-feira, abril 14, 2021

Livro de ficção conta detalhes sobre a descoberta de ave “prima” do joão-de-barro


Catalogada em 2012, a espécie intrigou especialistas por fazer parte de um grupo de aves andinas; narrativa científica que ‘traduz’ linguagem técnica foi publicada este ano. Pedreiro-do-espinhaço é ave exclusiva do Brasil ameaçada de extinção
Fabio Olmos/Arquivo Pessoal
Pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais descobriram em 2012 uma nova espécie de ave, popularmente conhecida como pedreiro-do-espinhaço. Mas o que isso significa para a ciência e a diversidade brasileira?
A resposta pode parecer óbvia para biólogos e naturalistas, mas um tanto quanto distante do restante da população. Mudar esse cenário foi o desafio assumido pelo biólogo e doutor em Zoologia, Marcos Rodrigues, que se divide entre os trabalhos em campo, as salas de aula e a narrativa científica: autor de ‘Um Sabiá Sujo: A aventura científica sobre a descoberta de uma ave e de um continente’, o especialista optou por transformar o texto acadêmico da pesquisa em obra literária.
Obra foi publicada no início de 2021, após anos de estudos e consultas aos relatórios técnicos
Marcos Rodrigues/Divulgação
“A ideia surgiu quando percebi, em sala de aula, que os alunos leem pouco e não conseguem compreender a linguagem científica. Minha estratégia foi escrever um blog com textos meus a partir de artigos técnicos, simplificando a linguagem, mas sem perder o conteúdo. Funcionou e, a partir disso, resolvi escrever o livro com as pesquisas que coordeno no laboratório”, explica.
Exclusivo da Serra do Espinhaço, em Minas Gerais, o pedreiro-do-espinhaço está classificado como ‘Em Perigo’ na Lista Brasileira de Espécies Ameaçadas de Extinção . A ave é da mesma família do joão-de-barro.
Conheça o pedreiro-do-espinhaço: espécie tema da obra escrita por Marcos Rodrigues
Giulia Bucheroni/Arte TG
Realidade e ficção
Ao ser encontrada na Serra do Cipó, em Minas Gerais, a ave foi inicialmente considerada um indivíduo de pedreiro (Cinclodes pabsti), comum nas serras do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. No entanto, após exames genéticos, constataram ser uma nova espécie. “Por indicação do herpetólogo Felipe Leite, fomos até à região da Serra do Breu. Lá, pela primeira vez encontramos uma população estabelecida propriamente dita, observamos vários indivíduos separados por territórios e se reproduzindo”, diz o ornitólogo Guilherme Freitas, autor principal do artigo.
O pedreiro-do-espinhaço vive em uma área restrita de 490 quilômetros quadrados, na Serra do Cipó, em Minas Gerais, onde constrói ninhos nas fendas das rochas. É muito comum vê-lo nos campos rupestres, acima de 1.500 metros de altitude
Os desafios para comprovar a descoberta de uma nova ave na região inspiraram o clima de aventura da ficção: na primeira parte da obra Marcos narra os bastidores da pesquisa a partir de referências a personalidades históricas como o ornitólogo Helmut Sick, o geógrafo Alexander von Humbboldt e o casal britânico de biólogos, Peter e Rosemary Grant. “À medida que escrevia, percebia que se tratava mesmo de uma aventura, e comecei a ler também sobre a vida de cada um dos pesquisadores que tiveram participação na descrição das espécies aparentadas ao pedreiro-do-espinhaço”, conta Marcos, que nos capítulos seguintes apresenta as descobertas de outras aves típicas dos Andes, a procura pelos familiares do pedreiro-do-espinhaço e as conclusões tiradas da descoberta da ave, desvendando o mistério de encontrar espécies andinas no Sudeste do Brasil.
O pedreiro-do-espinhaço é um pássaro grande, com cerca de 22 centímetros de comprimento
Leonardo Casadei/Arquivo Pessoal
Escrever sem os jargões científicos forçou-me a pesquisar ainda mais sobre os conceitos científicos que aprendemos na academia. Não é uma atividade fácil, mas nada que não possa ser aprendido
Respeitando a narrativa científica, o autor destaca os pesquisadores responsáveis pelos estudos e catalogação da nova espécie, assim como a importância desse trabalho para a ciência. “’Traduzir’ conteúdo é tarefa do professor, é meu trabalho diário em sala de aula. Para torná-lo interessante, o autor precisa mostrar que existe um link entre a vida real das pessoas leigas com a abstração científica”, explica o especialista, que destaca a principal estratégia da ciência na literatura. “A narrativa precisa estar associada a um hábito ou desejo do leitor: o autor de divulgação científica precisa primeiro despertar a curiosidade do leitor e ela só é despertada se o assunto tocar o dia a dia ou os sonhos dele. É preciso entender sobre o que as pessoas têm curiosidade hoje em dia e, a partir daí, entrar no assunto técnico”, completa.
Pedreiro-do-espinhaço é da mesma família do joão-de-barro
Silvia Linhares/Arquivo Pessoal
Além da obra publicada este ano pela Editora Unicamp, o doutor em zoologia já escreveu outras duas narrativas: As aves da Ilha de Santa Catarina e O equinócio dos sabiás. “Este segundo foi publicado em 2018, pela editora da UFPR em conjunto com a Fundação O Boticário, e trata de uma viagem científica por um quintal, mostrando o que existe em um jardim tropical e o que podemos observar das relações ecológicas que ali existem. O livro foi premiado pela Associação Brasileira de Editoras Universitárias”, diz Marcos, que já tem um novo livro finalizado, se dedica à produção da quinta obra e espera o apoio de editoras para a publicação.
“A narrativa científica é um estilo muito raro na literatura brasileira e, se existe, não é reconhecido ou é pouquíssimo difundido. O maior desafio é a publicação, as editoras não veem que existe mercado para esse tipo de literatura com autores brasileiros. Por outro lado, muitas dessas traduções científicas viram best-sellers”, finaliza.

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