domingo, maio 16, 2021

Maitacas e a escada para as araucárias


Apesar de ser conhecida como “predadora de semente”, espécie garante “acesso” ao pinhão; saiba por quê. Apesar de ser conhecida como “predadora de semente”, maitaca garante acesso ao pinhão
Está lá no dicionário: predador é o “ser vivo que mata outro para se alimentar” ou ainda “aquele que causa a destruição de algo”. Quando pensamos em aves predadoras geralmente nos vem à mente gaviões, falcões, corujas e outras aves carnívoras de bico curvado. Apesar dos seus bicos aduncos, os psitacídeos (família que reúne, papagaios, araras, periquitos e similares) são exclusivamente “vegetarianos”. Frutos, flores, folhas e néctar compõem a dieta das espécies do grupo. Mas são as sementes o principal alimento de muitos psitacídeos.
Seus bicos aduncos não são para arrancar tiras de carne, mas sim uma adaptação notável para abrir com destreza até as mais duras sementes. Dispensam a casca e consomem o embrião e as reservas ricas em nutrientes que suprem os “bebês” plantas logo após a germinação. Ao fazerem isso, papagaios, periquitos e outros membros do grupo acabam matando a futura planta e por isso, apesar de vegetarianos, os livros de ecologia (a ciência que estuda as relações entre os seres vivos e os ambientes que eles habitam) os classificam como “predadores de sementes”.
As maracanãs, por exemplo, não conseguem quebrar o fruto das palmeiras e, assim como todos os psitacídeos de médio porte, acaba roendo a carne que fica por fora
Douglas Fernando Meleti/VCnoTG
Na busca por alimento, algumas espécies de psitacídeos podem cobrir grandes distâncias e empreendem verdadeiras migrações em busca de determinadas “iguarias”. Entre os meses de abril e julho, a Serra Catarinense é palco de um dos maiores espetáculos encenados pela avifauna brasileira. É quando bandos enormes, com milhares de papagaios-charão chegam para se alimentar de um alimento apreciado não só pelas aves, mas também por muitos outros animais, o pinhão, a semente da araucária, ou pinheiro-do-paraná.
No meu quintal, aqui nas montanhas da Serra da Bocaina, próximo da divisa entre São Paulo e Rio de Janeiro, a época do pinhão é anunciada pela chegada de bandos de uma outra espécie de psitacídeo, a maitaca. Por aqui, no começo do Outono, bandos barulhentos de maitacas, variando entre 6 e até 30 indivíduos, são presença constante.
Maitaca auxilia no acesso de outros animais aos pinhões, frutos da araucária
Luciano Lima/TG
A vocalização estridente que parece dizer o seu nome “maitac, maitac, maitac” chega a dar água na boca. Não que eu seja um predador de maitacas, mas assim como elas, eu, e muitos outro bichos habitantes da Mata Atlântica, também somos vorazes predadores de pinhão, e precisamos das maitacas para conseguir alcançá-los.
A elegante araucária, na minha humilde opinião a árvore mais charmosa do Brasil, faz parte de uma família de pinheiros muito antiga (Araucariaceae), que contava com dezenas de espécies espalhadas por grande parte do globo e cujas folhas eram um dos alimentos preferidos dos grandes dinossauros herbívoros durante os períodos Jurássico e Cretáceo.
Considerada árvore de vida longa, a araucária pode viver de 200 a 300 anos
Arquivo TG
Atualmente são conhecidas 32 espécies, todas restritas ao Hemisfério Sul. Na América do Sul, além da Araucaria angustifolia, encontrada em regiões mais frias do Sudeste e Sul do Brasil e também em pequenas áreas no Paraguai e Argentina, existe ainda a Araucaria araucana, que é restrita a partes dos Andes no Chile e Argentina, e que possui o curioso nome em inglês de “Monkey Puzzle Tree”, que traduzindo significa “árvore que desafia macaco”.
Indivíduos jovens, tanto da araucária brasileira, quanto da sua prima andina, são cobertos de folhas pontiagudas como se fossem espinhos e foi esta característica que inspirou seu nome em língua inglesa. Em 1834, diversos convidados participavam de uma cerimônia na casa de um nobre inglês que havia sido organizada para celebrar o plantio de uma Araucaria araucana. Curioso com as folhas espinhentas, um dos convidados se aproximou e ao tocar a planta levou uma espetada no dedo e exclamou: “subir nesta árvore seria um desafio para um macaco”.
Ricas em reservas energéticas e aminoácidos, as sementes da araucária ficam agrupadas nas pinhas que, quando maduras, podem pesar até cinco quilos
Arquivo TG
Se subir em uma araucária jovem pode ser um desafio para um macaco, subir em uma adulta é um desafio para praticamente qualquer espécie. Seu tronco é reto com galhos que se abrem apenas nas copas, que muitas vezes estão a mais de trinta metros de altura. As folhas e as pinhas, “fruto” que contêm os pinhões, se restringem às pontas dos galhos, fazendo das araucárias árvores com silhueta inconfundível, lembrando um gigantesco candelabro.
Mas para quem tem asas, mesmo a copa da araucária é logo ali. Pousadas lá no alto, as maitacas pinçam os pinhões das pinhas, que como um quebra-cabeça do qual se vai tirando peças acaba se desmontando e gerando uma chuva de pinhões que caem ao solo. Alguns desses pinhões germinam aos pés da mãe, mas a maior parte deles são consumidos por diversas outras espécies de animais, de insetos a tatus.
Das mais de 30 espécies da família das araucárias do mundo, três produzem o fruto e estão localizadas no Brasil
Rudimar Narciso Cipriani/Acervo Pessoal
É como se a maitaca jogasse uma escada lá do alto das copas das araucárias permitindo que diversas outras espécies acessem os pinhões. Alguns desses animais, como a cutia e outros roedores, escondem os pinhões para se alimentar depois, um outro acaba sendo esquecido e germina distante da planta mãe.
Assim, mesmo sendo um predador e “matando outro ser vivo para se alimentar”, ao desmontar o quebra-cabeça da pinha para ser alimentar dos pinhões, as maitacas ajudam a tecer a teia da vida. Pois além de alimentar diversas outras espécies, também ajudam indiretamente a plantar futuras araucárias. Por isso, sempre que você abrir um dicionário ou qualquer outro livro querendo aprender sobre natureza, lembre-se dos pinhões e da frase do naturalista Alexander Agassiz: “estude a natureza, não livros”.
*Luciano Lima é ornitólogo e consultor do Terra da Gente.

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