terça-feira, abril 13, 2021

Natureza psicodélica: substâncias alucinógenas poderão ‘cicatrizar’ o pós-pandemia, dizem especialistas


Aumento de transtornos mentais devem ocorrer com a COVID-19, especialmente no Brasil; futuro desse tipo de medicina depende também da aliança com povos indígenas e tradicionais. Ayahuasca, cogumelos mágicos, LSD, MDMA e substância extraída de sapos tem sido investigadas quanto ao potencial terapêutico
Biraci Junior Yawanawá/Acervo Pessoal
Diversos estudos identificaram que substâncias psicodélicas apresentam potenciais para auxiliar a psicoterapia, os tratamentos de depressão, de estresse pós-traumático, de prevenção ao suicídio e até mesmo apontam para mudanças na relação de pacientes com vícios, como o alcoolismo. Mas se alguns especialistas já sugerem que a passagem da COVID-19 possa dar início a uma pandemia de tristeza, será que essas substâncias se tornarão medicamentos necessários e viáveis?
Na segunda parte da reportagem “Natureza Psicodélica”, especialistas dos laboratórios às florestas, explicam qual é o possível futuro das terapias associadas a esses compostos. A matéria discute ainda a forma com que os conflitos para administração dessas substâncias ultrapassaram as páginas dos artigos científicos e convocaram assembleias em aldeias indígenas de onde esse conhecimento foi originário.
10 pontos para começar a entender a questão dos psicodélicos:
Chá de santo daime, cogumelos mágicos e LSD são exemplos
Muitas delas derivam da natureza e têm origem em povos indígenas
Brasil é o 3º maior país na produção de artigos de impacto no tema
Os naturais não viciam, mas não trazem necessariamente prazer
Pesquisas sugerem que o cérebro com eles opera de forma mais ‘livre’
Há efeitos vistos na memória e na maleabilidade do sistema nervoso
Experiências místicas, com o sagrado e a natureza são relatadas
Terapias com psicodélicos tratariam depressão, vícios e traumas
Há risco de uso de psicodélicos sem orientação, mediação e cuidado
Não há tratamentos com eles no Brasil, uso é apenas científico e ritual
Veja como essas substâncias podem transformar rumo do tratamento da depressão no Brasil e no mundo
Ouça um podcast feito pela nossa equipe que resume o tema dos psicodélicos no Brasil
Pós-pandemia psicodélico?
“Quando a pandemia acabar” deve ser uma das frases mais ouvidas na atualidade. Mas antes mesmo de que a situação aponte para um princípio de conclusão, os efeitos de sua passagem são potencializados em países onde a crise se agrava. É possível que o impacto na saúde mental derivado da passagem da COVID-19 atinja a população na velocidade de uma outra infecção e, com opções limitadas para tratamentos, os olhares se voltam para o andamento das pesquisas com as medicinas não tradicionais como forma de não repetir a história.
Stevens Rehen relembra que nos anos que sucederam a Gripe Espanhola houve um aumento de sete vezes nos casos de pessoas com transtornos mentais, depressão, crise de ansiedade e suicídio. “Infelizmente podemos vir a enfrentar situação semelhante aqui no Brasil, nos próximos anos. O estudo dos psicodélicos pode revelar possibilidades terapêuticas para cicatrizar parte dessa epidemia de tristeza”, afirma.
A depressão pode ser provocada por perdas, estresse e até problemas neurológicos
Getty Images via BBC
Visões, experiências de conexão com o universo e introspecção são alguns dos efeitos que permitem aos usuários das substâncias pensar e trabalhar com memórias traumáticas. Para o professor do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Dráulio Barros Araújo, os psicodélicos poderiam até reparar danos provocados pela infecção com a COVID-19. “Essas substâncias causam alteração de neuro plasticidade e eu entendo que elas podem encontrar um nicho importante na necessidade de reorganizar conexões no cérebro frente ao déficit deixado em quem contraiu a doença”, relata.
Os potenciais estão se provando e a demanda por possibilidades de terapia no pós-pandemia parece urgente, mas os psicodélicos ainda não são considerados tratamentos oficiais no Brasil. Como explica o psiquiatra e professor da Unicamp, Luís Fernando Tófoli, “o uso para busca de autoconhecimento, da ampliação da visão de mundo e mudanças de consciência já existe e está presente nos diversos grupos ayahuasqueiros que vão dos indígenas, aos neo-xamânicos, às religiões clássicas. Se essas substâncias forem legalizadas poderão então ser usadas para o tratamento de quem está adoecido”.
Contato com psicodélicos nas comunidades indígenas envolve cantos, danças, espaços de reclusão e rituais
Biraci Junior Yawanawá/Acervo Pessoal
O psicodélico que mais se aproxima de ser aprovados em agências regulatórias é o MDMA, uma substância sintética chamada popularmente de ecstasy que já se mostrou eficaz para o tratamento do estresse pós-traumático, alcoolismo e fobias sociais em adultos autistas. Seus estudos já estão na fase três, onde pacientes são tratados com o medicamento ou com placebo para análises da eficácia. Além dele, a psilocibina dos “cogumelos mágicos” deve ser a próxima aprovada para casos gravíssimos de depressão.
O neurocientista e empreendedor Eduardo Schenberg analisa o caminho e os prazos para essas regulamentações. “É muito alta a probabilidade de que essas duas [substâncias] sejam aprovadas primeiro pelas autoridades de saúde nos Estados Unidos e na União Europeia, nos próximos anos, e esse passe a ser um tratamento psiquiátrico inovador”, destaca.
Qual será o potencial de drogas psicodélicas no pós-pandemia
Para além das pioneiras, ayahuasca (popularmente conhecida nas cidades como chá de santo daime), LSD (substância sintética apelidada de “doce”), ibogaína (extrato de uma planta africana chamada Tabernanthe iboga), cetamina (um anestésico muito usado em animais) e o 5-MeO-DMT (substância presente na secreção do sapo Incilius alvarius) também já revelaram potenciais e buscam se firmar como terapias.
Um caminho para que isso ocorra mais rapidamente é também através dos investimentos por startups. A nível de exemplificação, a startup inglesa Beckley PsyTech obteve no início de 2021 mais de £ 17 milhões (R$ 123 milhões) para realizar testes clínicos, principalmente, com a substância derivada do sapo, o 5-MeO-DMT. Procurada pela reportagem, a empresa preferiu não dar entrevista, mas confirmou a origem e o valor do investimento.
Sapo do Rio Colorado é uma espécie estudada por liberar uma substância na pele que possui efeitos psicodélicos
Wikicommons
Mas os psicodélicos não são apenas alvo da renda, atuam também como geradores de dinheiro. A antropóloga e pesquisadora do Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS) da França, Emilia Sanabria, investiga como o contexto ritual interage com a substância para criar uma relação de cura. Em mais de três anos de projetos pela América Latina, ela destaca que o Peru criou uma cultura de turismo em massa em torno da ayahuasca. “Reduzimos as plantas dentro de uma dimensão utilitarista, experimental. Isso serve para aquilo”, afirma.
A lógica apontada por ela é um risco até mesmo de retornarmos ao ciclo que originou a COVID-19: exploração e destruição da natureza. Noções que já eram propagadas há muito tempo por detentores do conhecimento tradicional. Dentro das comunidades indígenas, a pandemia não é novidade e os psicodélicos não serão pílulas mágicas para resolver os conflitos de interesse.
Os guardiões do conhecimento
Como o avanço das pesquisas com psicodélicos impacta comunidades indígenas
Extratos de folhas, secreções de sapos, partes de cogumelos. A medicina feita a partir dos psicodélicos naturais costuma ter uma origem em comum: povos indígenas e tradicionais. Mas não demandou muito tempo para que o conhecimento superasse os limites das aldeias e partisse para as cidades, igrejas, clínicas e hospitais. Talvez nem mesmo João Paulo Tukano, fundador do Centro de Medicina Indígena de Manaus (AM), imaginasse que a construção de um espaço como esse pudesse atrair tantos olhares ocidentais.
É o que explica sua esposa, a antropóloga da etnia Sateré Mawé, Clarinda Maria Ramos: “O [Centro de Medicina] Bahserikowi, mesmo nesse momento da pandemia, tem tido procura de pessoas com problema de depressão, com problema mental. Os especialistas são indígenas do Alto Rio-Negro e, ao longo desses três anos, o atendimento tem sido muito mais voltado para as pessoas não-indígenas do que mesmo pelos povos indígenas”.
As pessoas quando tomam ayahuasca, especialmente nos rituais indígenas, se dão conta do modo de vida artificial, distante da natureza e como elas não plantam nada, não colhem nada, elas querem mais contato, mais convivência em ambientes naturais e ao ar livre
A pesquisadora Sateré Mawé acredita que a medicina ocidental “viciou” os indígenas. Um pensamento que reforça a posição da antropóloga franco-colombiana Emilia Sanabria: embora o conhecimento da tradição indígena resista e os psicodélicos ainda estejam presentes em rituais, desde a colonização, houve um processo de apagamento. “Em muitos desses contextos indígenas, a ayahuasca, por exemplo, foi proibida, toda manifestação cultural foi impedida, passou a ser escondida. Como nossos companheiros indígenas falam: ‘é segredo’”.
A comunidade indígena dos Huni Kuin do Acre foi uma das que resistiu às investidas da colonização e conservou grande parcela dos conhecimentos tradicionais. Diante do interesse atual no tema dos psicodélicos, o líder Ninawa Inu Huni Kui destaca que dificilmente a ciência e a tecnologia conseguirão reproduzir, em essência, a espiritualidade provocada pela medicina.
Dessa forma, o cuidado e o respeito com as origens das substâncias são pontos reivindicados: “Há muitas recomendações, mesmo dentro das instituições e para os cientistas, que não façam modificações, não tire o direito de originalidade dos povos indígenas que são realmente os verdadeiros detentores de todo esse conhecimento”, ressalta Ninawa.
Na imagem, os Huni Kuin utilizam as medicinas tradicionais como forma de tratamento contra a COVID-19
Ninawa Inu Huni Kui/Acervo Pessoal
Ao longo dos anos de pesquisa com os psicodélicos, Eduardo Schenberg identificou que os povos tradicionais e suas práticas culturais entrariam em choques intensos com as patentes diante do avanço nos estudos e do interesse nos psicodélicos. Em paralelo com os trabalhos clínicos, ele passou a desenvolver artigos sobre esse risco e notou que o problema já se iniciava quando o processo de publicação das informações científicas não era produzido em idiomas acessíveis pela população, já que comumente estão em inglês.
“Agora que a ciência está comprovando efeitos terapêuticos da ayahuasca a pergunta é: quem pode administrar ayahuasca? Quem pode receitar ayahuasca? São psiquiatras que vão administrar em clínicas em prédios nas cidades ou os pacientes devem procurar indígenas para participar de rituais em regiões mais afastadas do Brasil?”, questiona o neurocientista.
Para os Yawanawá a medicina tradicional é uma forma de cura, conhecimento, orientação e continuidade às tradições e à cultura
Biraci Junior Yawanawá/Acervo Pessoal
Konstantin Gerber, doutor em Direito pela PUC-SP e advogado em São Paulo, ressalta ainda o fato de 72 etnias possuírem a tradição com a ayahuasca. No caso de desenvolvimento de medicamentos ou fitoterápicos com a substância, por exemplo, os benefícios devem ser repartidos entre elas de forma monetária ou não.
“É possível ter uma autorregulamentação no âmbito do conselho profissional da psicologia, mas é possível também ter por meio de um código de ética da medicina indígena. Uma possibilidade seria o desenvolvimento de Centros de Etnobiologia geridos por Associações Indígenas para que as pesquisas sejam realizadas conjuntamente com os detentores dos saberes tradicionais, de modo a contribuir com o fortalecimento destas comunidades”, afirma o advogado.
Associações indígenas buscam compreender a extração, apropriação e fascinação do mundo branco com esses rituais psicodélicos
Biraci Júnior Yawaná/Acervo Pessoal
A antropóloga Emilia Sanabria observa que as grandes associações indígenas estão tentando definir uma posição, mas que se faz necessário um esforço de outro lado também. “Precisaríamos ter a decência e a humildade como homem branco para respeitar os termos do saber que eles [indígenas] trazem. Estou tentando abrir um espaço para pausar, questionar e retomar essa história colonizadora do saber. Isso não quer dizer que a gente descarta tudo, mas precisamos abrir as portas para outras maneiras de saber e de fazer”, afirma.
Este é exatamente o processo que prevê Biraci Junior Yawanawá. O líder da aldeia Nova Esperança no Acre destaca que a expansão das medicinas psicodélicas pelo mundo deu visibilidade aos povos tradicionais, mas que as comunidades sentiram também as plantas sagradas serem visadas como lucrativas e vulgarizadas.
Preparo da ayahuasca envolve a mistura da folha de Psychotria viridis (Chacrona) e da casca do cipó Banisteriopsis caapi (jagube) em fervura
Biraci Junior Yawanawá/Acervo Pessoal
Biraci, que fez uso de raízes e ervas quando contraiu COVID-19 em junho de 2020, também vacinou seu povo com a chegada dos primeiros lotes do imunizante ao estado. “Ficou um impasse entre os 18 povos. Uns diziam que iam tomar vacina e outros não. Fui muito criticado por isso, mas eu acredito também na ciência e, por acreditar, quero somar o trabalho de imunização com o das nossas medicinas”, sugere ele.
Essas plantas podem curar e podem prejudicar. A gente vê a ayahuasca sendo usada sem ouvir os povos que são os guardiões do conhecimento. Por que os homens querem dizer que são donos dela?

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