segunda-feira, abril 12, 2021

Natureza psicodélica: substâncias podem transformar rumo do tratamento da depressão


Do chá de Santo Daime à secreção da pele de sapos, como evoluem os estudos? Brasil é o 3º maior país com pesquisas de qualidade na área que é tendência para as próximas décadas. Substâncias psicodélicas prometem revolucionar os rumos do tratamento da depressão
No princípio, havia uma só linguagem. A história dos povos Yawanawá, conta que há milhares de anos, plantas, animais e homens falavam o mesmo idioma. Mas, com o tempo, as relações intensas deram lugar à ganância, que os obrigou a se comunicarem de uma outra forma. O elo, porém, não foi totalmente rompido. “A ayahuasca é o canal de comunicação com tudo que está a nossa volta e é através dela que ainda sobrevivemos”, descreve Biraci Yawanawá, líder da aldeia Nova Esperança, a maior entre as nove comunidades da etnia no Acre.
Conhecida como Santo Daime nos ambientes urbanos e fruto da mistura e fervura em água de duas plantas da Amazônia, a bebida “mestra” dos Yawanawá é também a propulsora da pesquisa brasileira em torno dos psicodélicos. Considerado o 3º maior país na produção de artigos de impacto nesse tema, o Brasil reforça a tradição com a ayahuasca e já abraça a compreensão de outras substâncias que, assim como ela, têm manifestado potenciais terapêuticos.
Preparo do chá da ayahuasca, bebida fruto da mistura da folha de Psychotria viridis, também conhecida como Chacrona, e da casca do cipó Banisteriopsis caapi, também chamado de jagube
Janine Brasil/G1
Princípios ativos de cogumelos, extratos de plantas africanas e até mesmo compostos encontrados na pele de sapos que habitam a fronteira do México com os EUA apresentaram a capacidade de auxiliar no combate à depressão, potencializar tratamentos de estresse pós-traumático e prevenir ideias suicidas.
Em artigo no jornal The Guardian, analistas de tendências apontam o aumento do foco nos psicodélicos como uma das 20 previsões para a próxima década. Mas de que forma essas substâncias se comportam no organismo? Como deve ser um futuro tratamento? E elas são, de fato, seguras?
‘O barato’ não é louco
Falar de substâncias psicodélicas é, provavelmente, pensar nos movimentos hippies e de contracultura que pediam o fim da Guerra do Vietnã, em meados dos anos 60. Mas o conhecimento do potencial desse tipo de drogas entres povos tradicionais e indígenas é anterior e secular. As marcas forjadas pelo período de uso massivo de substâncias sintéticas nos festivais, porém, deixaram a sequela mais grave: a ruptura dos estudos pela biomedicina.
Embora os psicodélicos derivados de compostos da natureza não causem dependência, o risco à saúde mental observado gerou proibições e o afastamento da ciência. Um processo que começou a ser revertido apenas com o início dos anos 2000. “Foi crescendo a percepção de que o governo se equivocou e que essas substâncias estão mal classificadas. Elas trazem muito menos riscos do que o previsto e são muito mais potenciais do que o imaginado também”, explica o neurocientista e empreendedor, Eduardo Schenberg.
Pesquisador dos estados não ordinários de consciência que essas substâncias costumam induzir os usuários, Schenberg explica como elas poderão auxiliar num eventual processo de psicoterapia assistida por psicodélicos. “Essas substâncias temporariamente modificam a função cerebral. A pessoa passa por uma mudança de consciência e, dependendo do que for feito, aquilo pode vir a ter resultados terapêuticos”.
O psiquiatra e professor da Unicamp, Luís Fernando Tófoli, exemplifica essa dinâmica com um relato que ouviu de um usuário da ayahuasca: ele havia decidido parar de fumar, porque teve uma visão de sua imagem num caixão e soube que tinha morrido por causa do cigarro. “Algumas pessoas ficam com a ideia de que uso terapêutico [de psicodélicos] é algo que envolva ‘um barato’, ‘ficar doidão’. Embora as experiências visuais existam, não são alucinações. Alucinações são quando a pessoa tem percepções onde não tem nada no lugar. O que acontece, especialmente no caso da ayahuasca, são mirações, visões”, define.
Ayahuasca, utilizada em rituais indígenas, tem sido estudada para dependência química e depressão
Getty Images/BBC
Os estudos de Dráulio Barros Araújo, professor do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, ajudam entender os potenciais dessas substâncias. Imagens do cérebro obtidas por ressonância magnética monitoraram pacientes que nunca tinham feito uso da ayahuasca e que não estavam respondendo às terapias contra a depressão. Divididos em grupos em que parte bebeu o chá e a outra parte um placebo, as pessoas que consumiram a droga relataram, um dia após a sessão, uma melhora nos sintomas da doença.
“Durante os efeitos da ayahuasca, quando a pessoa está de olhos fechados, o cérebro exibe várias características de funcionamento que são semelhantes à quando aquela pessoa está de olhos abertos sem os efeitos. Também detectamos mudanças em conjuntos de áreas do cérebro que estão associados à capacidade de prestar atenção nos próprios pensamentos e emoções. E a terceira coisa que encontramos é que existe um aumento significativo do número de conexões que cada área do cérebro faz com outras. Seria uma metáfora dizer que, durante os efeitos da ayahuasca, o cérebro pode operar de forma mais livre!”, afirma Araújo.
Além da ayahuasca, pesquisas brasileiras já identificaram que a psilocibina, princípio ativo de centenas de cogumelos “mágicos”, ou o LSD, droga semissintética derivada de um ácido presente num fungo, provocam experiências místicas e de conexões com o que é entendido como sagrado pelos usuários, o que poderia recuperar aspectos positivos e potenciais terapêuticos.
Na dinâmica dos estudos de Stevens Rehen, cientista da UFRJ e do Instituto D’Or, pedacinhos de pele humana ou mesmo a urina são reprogramadas para “voltarem no tempo” e se comportarem como células embrionárias, que podem se tornar qualquer tecido do corpo. Sob as instruções para que essas células se transformem em tecido cerebral, os pesquisadores monitoram um organismo vivo sem sequer fazer uso de neurocirurgias. Com essas análises, o laboratório de Rehen descobriu que uma substância presente na ayahuasca que não é psicodélica é capaz de gerar novos neurônios. Mas outro estudo feito pela equipe que atingiu um grande impacto na academia envolvia a 5-MeO-DMT.
Criados em laboratório por brasileiros, minicérebros ajudam a entender o cérebro humano
“É uma substância psicodélica que está presente no sapo Bufo alvarius. Utilizamos esse tecido cerebral vivo, criado em laboratório, para destrinchar quais eram as proteínas que estavam sendo produzidas como reação à substância. Identificamos quase mil proteínas alteradas! Várias delas envolvidas com processos de neuroplasticidade e memória”, conta Rehen, que já repetiu o formato do estudo com o LSD e viu mais de 200 proteínas serem alteradas.
O Bufo alvarius, também conhecido como Sapo do Rio Colorado, é uma espécie estudada por liberar uma substância na pele que possui efeitos psicodélicos
Wikicommons
Um mergulho em águas profundas
“Você não vai estar acompanhado de um mergulhador que acabou de aprender a mergulhar para fazer caça submarina a 100 metros de profundidade. De preferência você vai estar acompanhado por pessoas que têm experiência”. É através dessa metáfora que o pesquisador Dráulio Araújo reforça a necessidade de uma situação específica e apropriada para o uso de psicodélicos.
Embora estejam se mostrando seguras e repletas de benefícios para um grande número de pessoas, todos os pesquisadores reforçam que essas substâncias trazem riscos e nenhuma delas é isenta de perigos. “Há pessoas, inclusive, que não devem fazer uso, principalmente aquelas com alguns transtornos psiquiátricos como as psicoses, a mais famosa delas é a esquizofrenia”, explica o psiquiatra Luís Fernando Tófoli.
A psilocibina, ou ‘cogumelos mágicos’, promete reduzir frequência de enxaquecas e auxiliar no combate à depressão
Getty Images
Entender as limitações, os riscos e os sacrifícios que exige o domínio dessas substâncias é uma prática até mesmo dentro das comunidades indígenas que consomem psicodélicos. Dietas, isolamento da aldeia, reclusão e abstinência sexual são apenas algumas das práticas que constroem um líder espiritual. “Morremos com a matéria e vamos estudar os espíritos. Se você passar [do processo], vai ter uma ferramenta para ajudar a curar o povo que lhe procurar. É uma relação de profundo respeito com essa planta”, afirma Biraci Yawanawá.
Respeito e receio. Ao contrário do que se pensa, as substâncias psicodélicas não provocam prazer e podem trazer à tona marcas dolorosas que devem ser reparadas com o auxílio da psicoterapia. “Aqui nós não estamos falando de psicoterapia versus substância, mas psicoterapia aliada com substância. Mesmo com antidepressivo, a gente sabe que a psicoterapia potencializa o antidepressivo. Então é importante a gente frisar que a questão aqui é terapia associada”, reforça Tófoli quanto aos estudos em desenvolvimento.
Como alerta Stevens Rehen, os psicodélicos não são “salvadores incondicionais da pátria” ou substâncias mágicas, mas poderão auxiliar a tornar a vida de algumas pessoas melhor. “Os pesquisadores seguem numa fase exploratória, de identificação de possibilidades e sua eventual aplicação terapêutica, que depende de investimento e também do acolhimento da sociedade para que ajude essa área a crescer e florescer. E é importante que a ciência psicodélica cresça também no Brasil ou poderemos, daqui a cinco ou dez anos, ter que importar medicamentos e tratamentos de fora do país, sendo que teríamos capacidade de desenvolvê-los aqui”, afirma.
Eu acho que a gente tem que tomar um certo cuidado de não achar que os psicodélicos vão salvar o mundo
Na próxima quarta-feira (17/03), confira a segunda parte da reportagem abordando os potenciais dos psicodélicos no pós-pandemia e a relação das comunidades indígenas com o tema.

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