segunda-feira, março 8, 2021

'Obrigado, Maguila': pugilista é homenageado com samba e vira enredo de desfile virtual; ouça


Compositor de Campinas (SP) transformou em versos e melodia a vida do pugilista de 62 anos, ícone do esporte nas décadas de 1980 e 1990; com carnaval tradicional cancelado pela pandemia, lutador terá a história retratada na internet. ÁUDIO: ouça o samba feito em homenagem a Maguila
Manifestação da alma brasileira, o samba é o ritmo que embala a vida de José Adilson Rodrigues dos Santos, o Maguila. Fã de Bezerra da Silva, o pugilista de 62 anos, ícone do boxe entre as décadas de 1980 e 1990, acaba de ganhar uma composição em sua homenagem e virar enredo de uma escola de samba que fará um desfile virtual – em tempos de pandemia da Covid-19, o carnaval tradicional acabou cancelado neste ano em prol da saúde.
A missão de transformar em versos uma história de perseverança, lutas – no ringue e fora dele – e conquistas coube ao compositor Thiago de Souza, de Campinas (SP), autor de dezenas de sambas-enredo para escolas de São Paulo e do Rio de Janeiro e um dos criadores do grupo ‘Os Marcheiros’, famoso pela marchinha do “Japonês da Federal”.
O resultado é um samba que narra a vida de Maguila, das conquistas no boxe e na vida pessoal, com a ideia de eternizá-lo – clique e ouça acima.
“O samba tem esse propósito de eternizar um esportista, um ídolo que é muito identificado com o povo brasileiro. O Maguila é muito carismático, tem o carisma brasileiro, de um homem simples, que gosta de samba, e que foi um herói”, define Thiago.
Maguila, em foto de 2017
Amanda Kestelman/Globoesporte.com
Inspiração em Bob Dylan
O convite para a composição surgiu do biógrafo de Maguila, Fernando Tucori, que conhecia Thiago e participou de todo o processo, além do músico Alex Mortão, também de Campinas, e de Wanderley Monteiro, compositor de diversos sambas da Portela.
Thiago conta que a primeira ideia era por uma marchinha, mas a história de Maguila, passada com detalhes por Tucori, era muito rica para o estilo. A ideia então partiu para o samba, paixão do pugilista, e a inspiração para a composição, acreditem, passou por Bob Dylan.
“Lembrei do Dylan na hora, da música que ele fez para o Hurricane. É genial, ele foi muito preciso no que ele quis passar”, destaca Thiago.
A canção citada por Thiago foi lançada por Bob Dylan no álbum “Desire” (1976) e narra a história do pugilista negro Rubin Carter, conhecido como “Hurricane”, que foi preso em 1966 acusado de um crime que garantia não ter cometido.
Com a inspiração de Dylan e a história de Maguila “mastigada” por Tucori, que desde 2016 se dedica à biografia do pugilista, Thiago conta que escrever a letra foi rápido. Mas o processo foi bem diferente da concepção de um samba enredo tradicional.
“Quando entendo o que as pessoas querem, escrevo meio rápido. No caso desse samba, é uma coisa que não acontece naturalmente, de ter o enredo e depois o samba. Foi ao contrário”, conta.
“A gente se entendeu muito bem. Escrevi uma minibiografia do Maguila e uma rimas rimas que achava legal, e a gente foi falando dos símbolos para a letra, como os versos ‘construir com as próprias mãos’ e ‘levantar uma nação’. O Maguila foi pedreiro na época do milagre econômico de São Paulo e trabalhou em tudo quanto é lugar”, conta Tucori.
Enquanto com a letra Thiago teve a participação de Tucori, Mortão e Wanderley Monteiro ajudaram o compositor com a melodia.
Maguila, 62 anos, é homenageado com samba e livro com história de sua vida está a caminho
Fernando Tucori
Desfile virtual
Thiago conta que apesar do cancelamento do carnaval 2021 por conta da pandemia, viu uma oportunidade de emplacar Maguila como enredo de um desfile virtual, com desfiles programados para setembro.
Segundo o compositor, foi feito contato com a Liga de Carnaval Virtual e uma das escolas, a “Me Chama que eu Vou” se interessou pelo enredo. O nome da escola foi até para o refrão do samba.
“Em um ano sem carnaval, vai ficar na história. É um enredo virtual, mas é o que pudemos ter neste ano. Pudemos criar história como ele fazia, dentro das condições que o mundo permite”, destaca.
Maguila, o filho Adilson Jr. e a mulher Irani em selfie feita pelo biógrafo Fernando Tucori
Fernando Tucori
Biografia quase lá
Ter a história eternizada em um samba e contada “na avenida”, mesmo que de forma virtual, é apenas uma das ações para valorizar e destacar a carreira do pugilista para as futuras gerações.
Fernando Tucori está finalizando a biografia de Maguila, e espera publicá-la em breve. Por conta da pandemia, não sabe se será ainda em 2021, já que ele não imagina fazer um lançamento sem a presença do esportista.
Diagnosticado há alguns anos com encefalopatia traumática crônica (ETC), também conhecida como “demência pugilística”, uma enfermidade neurodegenerativa evolutiva e incurável, Maguila vive em uma clínica em Itu (SP), onde é acompanhado de perto pela mulher, Irani, e pelo filho.
A doença, aliás, também está retratada no samba. Thiago define o problema no verso: “Guardou… no cinturão as cicatrizes”.
Apesar da doença, Maguila segue comunicativo e carismático, mas deve manter o isolamento em tempos de pandemia de Covid-19. O lançamento ocorrerá somente quando o pugilista puder comparecer com segurança ao evento, e também para cair nos braços do povo, como diz Tucori, aos gritos de “Maguila, Maguila”.
Memória afetiva
Thiago conta que escrever o samba sobre o Maguila envolveu muito a memória afetiva.
Em uma época que não havia tanta oferta de eventos esportivos na televisão nem internet, o boxeador, que chegou a ser campeão mundial peso-pesado pela WBF (Federação Mundial de Boxe) e lutou com grandes nomes do esporte, como Evander Holyfield e George Foreman, atraia as atenções de uma nação toda vez que subia aos ringues.
“Nossa, mexeu muito com esse universo afetivo. Meu avó adorava ver luta do Maguila, meu pai também. Remete a essa época que ficava acordado para ver as lutas”, conta Thiago.
Luta entre Maguila e James Smith, em 1987
Domicio Pinheiro / Agência Estado
Letra do samba
Menino…
feito outros tantos nasceu José
Cresceu Adilson e seguiu com fé
Buscando seu lugar no mundo
As mãos que construíam tantos lares
Atraíram os olhares
De quem reconheceu no ringue um vencedor
E a cada vez que o gongo
Despertava a emoção
Nas luvas ele erguia uma nação
Quando o amor verdadeiro
veio à tona
Sentiu a força da paixão por Irani
Seu coração beijou a lona
Sem contagem pra seguir
Guardou… no cinturão as cicatrizes
Sem esquecer suas raízes
E a humildade do grande campeão
Vida de luta, raça e vitória
Coroaram guerreiro
Para sempre na memória
De todo brasileiro
Obrigado, Maguila
Um abraço, de novo
“Me chama que eu vou”
Nos braços do povo
Um abraço, Maguila
Obrigado, de novo
“Me chama que eu vou”
Nos braços do povo
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