domingo, abril 18, 2021

Pai de menina de 13 anos morta por síndrome pós-Covid alerta que filha não teve sintomas de coronavírus: 'Se importem'


Paulo César Santos, de 50 anos, afirma que família contraiu Covid-19 entre dezembro e janeiro, mas que a filha caçula, vítima da síndrome, não chegou a fazer o teste na época. O óbito foi em 24 de fevereiro após falência de órgãos. Ana Clara Macedo Santos, de 13 anos, morreu em Campinas após contrair Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica pós Covid-19
Arquivo pessoal/Paulo Santos
“Era uma criança saudável, uma criança espontânea. Se ela não tivesse contraído o coronavírus, ela não teria morrido. […] Se importem. Porque infelizmente está aumentando os casos sobre crianças.”. O alerta é do pai da adolescente de 13 anos que morreu em Campinas (SP) após contrair a Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica pós-Covid-19, uma condição rara que pode atingir crianças e jovens até 19 anos. Foi o primeiro caso confirmado na metrópole.
Paulo César dos Santos, de 50 anos, trabalha como motorista. É casado, tem três filhos. Todos na família pegaram coronavírus entre dezembro e janeiro deste ano e fizeram exames, com exceção da caçula, Ana Clara Macedo Santos, que não apresentou sintomas. A família adotou os protocolos e se recuperou, sem gravidade,
Em meados de fevereiro, após cólicas que não cessavam, Ana foi hospitalizada e descobriu, por exame de sangue, que teve contato com o vírus. Ela morreu em 24 de fevereiro com falência em múltiplos órgãos.
“Não sabíamos que existia a síndrome, ficamos sabendo pelo hospital. Até então, colocavam na mídia que criança não contraía o vírus. Por isso que quando tivemos em casa, nem passou na cabeça fazer exame nela.”
De acordo com o Departamento de Vigilância em Saúde (Devisa) de Campinas, a síndrome caracteriza-se por inflamações da parede dos vasos sanguíneos de órgãos como rins, articulações, sistema nervoso central e vias respiratórias. Entenda mais sobre a síndrome no vídeo abaixo.
Entenda o que é a Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica
Origem da infecção na adolescente
Ana era aluna do 8° ano da Escola Estadual Escritora Rachel de Queiroz, que fica no bairro Jardim Yeda. Segundo o pai, ela foi para a escola apenas um dia em fevereiro. “Por causa do revezamento que estavam fazendo. No início ia ser uma vez a cada 15 dias.”, afirma.
“Não tem como a gente precisar como foi a infecção por Covid. A gente não sabe dizer da onde. Segundo as informações médicas, na data do dia 24, ela podia ter contraído sete dias antes ou até seis meses atrás. Não culpei a volta às aulas. De repente, ela foi a transmissora para nós.”, explica o pai.
Sobre a possibilidade da adolescente ter contraído o vírus na instituição de ensino, a Secretaria Estadual de Educação afirmou, em nota, que “não há qualquer indício de contaminação, tanto é que não houve nenhum caso confirmado de Covid-19”.
Ao G1, o infectologista pediátrico e coordenador do Comitê de Infectologia Pediátrica da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), Marcelo Otsuka, explicou que a maioria das crianças não desenvolve sintomas ao ser infectada com o vírus. Se desenvolve, acaba sendo a forma mais leve da doença.
Covid e crianças: saiba o que os estudos mais recentes dizem sobre volta às aulas, transmissão e gravidade da doença
Dados do Ministério da Saúde mostram que o Brasil registrou, de 1º de abril do ano passado até 13 de fevereiro, 736 casos e 46 mortes de crianças e adolescentes pela SIM-P associada à Covid-19.
Síndrome x comorbidades
O atestado de óbito de Ana Clara cita, além da Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica pós-Covid-19, a infecção por coronavírus e obesidade.
O Departamento de Vigilância em Saúde (Devisa) esclareceu, em nota, que a “obesidade considerada como comorbidade na medicina para qualquer tipo de doença.”
A família, no entanto, ressalta que a menina não possuía outras doenças. Ana Clara também praticava atividades físicas, como balé.
“Não tinha problema respiratório, nem pressão alta, coisas que podem vir com obesidade. Era uma criança saudável. Segundo a Vigilância Sanitária, foi um resultado da Covid.”
Após dois dias de internação, o quadro e agravou, com o falecimento dos órgãos. “Os rins já tinham parado, o fígado tinha parado, o pulmão estava sendo comprometido.”.
Ela deixou um legado pra nós do amor de Deus, o perdão, somos evangélicos. Quero levar o legado dela pra frente. Que tudo isso sirva de alerta que criança também pega. Se previnam, usem máscara, álcool em gel, higienização.”, completa o pai.
De febre a falta de ar: a gravidade da doença
Os sintomas podem ser febre, conjuntivite, manchas vermelhas no corpo, problemas gastrointestinais, dor abdominal, vômitos, inchaço nas articulações, tosse e falta de ar.
A SIM-P é uma grande resposta inflamatória, rara, que, em casos graves, pode acometer diversos órgãos e sistemas do corpo e levar à morte.
Os principais atingidos são o sistema cardiovascular e o trato digestivo, e também há alterações na pele e nas mucosas.
A síndrome vem sendo registrada em uma minoria de crianças atingidas pela Covid ao longo da pandemia, mas também pode ter outras causas.
Normalmente, os sintomas aparecem depois que a criança já não tem o vírus no corpo – e podem ocorrer mesmo naquelas que foram assintomáticas para a Covid-19.
Estudos apontam que meninos parecem ser mais afetados, assim como crianças negras.
Síndrome inflamatória multissistêmica é um raro efeito tardio em crianças que tiveram Covid-19
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