sexta-feira, abril 16, 2021

Pesquisadoras de MG criam protocolo de reabilitação de beija-flores e aumentam índices de recuperação e soltura


Orientações de manejo foram desenvolvidas durante tratamento de colibris entregues ao Cetas de Belo Horizonte; tamanho e idade das aves dificultam os cuidados. O maior desafio é oferecer uma dieta balanceada para as aves em tratamento
Thamiris Freitas/Arquivo Pessoal
Há oito meses a estudante de medicina veterinária, Thamiris Freitas, se dedica integralmente aos cuidados com beija-flores resgatados e encaminhados ao Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas) de Belo Horizonte, onde é estagiária. Nesse período, oito indivíduos de três espécies diferentes foram recebidos, reabilitados e devolvidos à natureza.
O sucesso do tratamento se deu graças ao protocolo alimentar desenvolvido pela jovem e por outros especialistas do Centro, após muito estudo e observações detalhadas do comportamento dos colibris. “Durante minhas pesquisas constatei que 3% da base alimentar desses animais é composta por proteínas e o restante por glicose. Ou seja, além do néctar das flores, eles se alimentam de insetos e pequenos artrópodes. Suprir essa necessidade proteica em cativeiro é muito difícil, mas conseguimos desenvolver técnicas e receitas ideais para esses casos”, conta Thamiris, que para chegar às respostas certas, tirou licenças para cuidar dos indivíduos em casa e garantir atenção em tempo integral.
“Eles precisam comer de 20 em 20 minutos, o que dificulta muito o manejo. Para os que chegam filhote, eu ensino a reconhecer que o alimento está na seringa, um trabalho que requer insistência. Por outro lado, como têm metabolismo muito rápido, parece que eles também aprendem mais depressa”, comenta.
Beija-flor-tesoura ficou 52 dias sob os cuidados de Thamiris e voltou à natureza
Thamiris Freitas/Arquivo Pessoal
Além de criar uma receita equilibrada de proteína, sem provocar hiperdosagens nas aves, a estudante precisou se atentar à hidratação e ao gasto energético dos beija-flores durante o tratamento. “Sabemos que o coração de um adulto bate até mil vezes por minuto, ou seja, ele gasta muita energia. Mas no caso dos filhotes que não voam, ou dos adultos machucados, esse gasto é menor, outra questão que tivemos que balancear”, diz.
Em oito meses foram tratados e soltos oito colibris, sendo cinco beija-flor-tesoura, dois estrelinha-ametista e um bico-reto-de-banda-branca
Pequenos e bravos
O primeiro colibri tratado por Thamiris foi um filhote de beija-flor-tesoura resgatado após cair do ninho. “Foram 52 dias sob cuidados intensos. Eu soltava ele na sala de casa para aprender a voar, a pairar no ar e encontrar alimento. Além da dieta, me preocupava com as questões comportamentais da ave: ele tinha que aprender a ser um beija-flor para voltar à natureza”, lembra a jovem, que ao longo dos meses foi desafiada por um estrelinha-ametista.
“Essa é uma as menores espécies de beija-flor das Américas. Ao pesá-lo pela primeira vez a balança ficou zerada. Depois, em uma balança de precisão, o resultado foi de dois gramas. Lidar com aves tão pequenas e delicadas, e ao mesmo tempo territorialistas e agressivas, é bem desafiador”, conta.
Reabilitação de estrelinha-ametista foi desafiador pelo tamanho da ave
Thamiris Freitas/Arquivo Pessoal
Mas a maior dificuldade não é o tamanho. “Quanto mais adulto mais difícil, porque são animais muito ativos, que na natureza ficam o tempo todo voando de flor em flor atrás de alimento. Manter essa atividade em cativeiro é complicado, assim como contê-los em um ambiente mais restrito para evitar que se machuquem”, diz.
Para mim, como estudante, aspirante a ornitóloga e apaixonada pelas aves, gratidão é a palavra que define essa oportunidade de aprender diariamente sobre essas espécies, ajudar e ver que foi algo que deu certo e pode ser ensinado para outras pessoas. Ver a visibilidade desse trabalho é muito bacana, foi algo que eu fiz pelos beija-flores
Busque por especialistas!
Outro grande desafio é cuidar de aves encaminhadas ao Cetas tempos depois do resgate. “É muito comum que as pessoas encontrem o filhotinho caído ou machucado, tentem cuidar em casa e aí, na hora que o animal começa a ter déficits nutricionais, entregam para o Cetas. É muito difícil reverter casos como esses, porque os animais chegam com problemas crônicos”, explica a médica veterinária e coordenadora do Cetas BH, Érika Procópio.
“É quase impossível cuidar dessas espécies em casa, sem instrução, porque eles demandam alimentação constante. Na tentativa de tratar a ave em casa, os beija-flores passam um dia inteiro sem se alimentar e chegam até nós em estado de hipoglicemia severa. Já conseguimos reverter alguns casos assim, mas seria muito mais fácil se chegassem logo após o resgate”, reforça Thamiris.
Há oito meses a estudante encara o desafio de aperfeiçoar o protocolo de tratamento das aves
Thamiris Freitas/Arquivo Pessoal
Conhecimento compartilhado
Mesmo quando encaminhados para centros veterinários, os beija-flores nem sempre recebem os cuidados adequados, afinal, são escassos os estudos sobre o trato dos colibris. Pensando nisso, o Cetas de BH desenvolveu um guia colaborativo de manejo alimentar, compartilhado com outros Cetas de Minas Gerais e dos demais estados brasileiros. “É um trabalho bibliográfico produzido em parceira com a ONG Waita. Tudo o que aprendemos de novidade é incluído no guia: recentemente publicamos os aprendizados sobre a dieta dos irerês, assim como dos beija-flores”, comenta Érika.
A gente acredita que conhecimento precisa ser compartilhado. Se aprendemos alguma coisa que está dando certo, que está sendo benéfico para os animais, a gente quer que o mundo inteiro saiba, para que não cometam os mesmos erros
“Esse exemplo dos beija-flores mostra como é importante estar sempre estudando e observando os animais. É através das observações que nós aprendemos, pois nesse mundo dos silvestres muita coisa ainda não foi publicada, então é na base da tentativa e erro”, diz.
Até agora oito indivíduos de cinco espécies foram reabilitados pela estudante
Thamiris Freitas/Arquivo Pessoal
Informação é proteção
Todos os animais silvestres apreendidos, recolhidos ou entregues voluntariamente em Belo Horizonte são encaminhados aos Cetas, que em um ano chegou a receber 10 mil indivíduos das mais variadas espécies.
Apreendidos são os animais de tráfico e posse irregular, recolhidos são os animais de vida livre que por algum motivo se acidentaram ou entraram em conflito com ações antrópicas, e entrega voluntária é quando a pessoa que detinha o animal de forma ilegal resolve entregá-lo
Nem todas as cidades possuem centros especializados para receber animais resgatados, no entanto, procurar auxílio de especialistas é crucial quando animais silvestres são resgatados. “O cuidado inadequado das pessoas com boas intenções acontece com várias espécies e, quando a pessoa percebe, é tarde demais. Por isso a gente reforça a necessidade de pedir orientações de profissionais”, explica Fernanda Sá, diretora da ONG Waita, que junto à equipe criou um canal de comunicação para auxiliar resgates em todo o Brasil.
“Além das redes sociais temos um número disponível para que as pessoas nos liguem e procurem ajuda. Temos contato 24 horas com especialistas de várias regiões do País e essa troca de informações pode ajudar em muitos casos. A gente sabe das boas intenções, mas precisamos de conhecimento técnico para cuidar de silvestres”, finaliza.
Para outras regiões do país também é possível pedir orientação à Polícia Ambiental.
Contato SOS Waita: 31 994624867

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