terça-feira, abril 13, 2021

Profissionais relatam pressão maior na linha de frente, exaustão e resiliência um ano após 1º caso de Covid na região de Campinas


Em vídeo, diretor de hospital em Hortolândia revela situação em UTI e apela para que população se cuide. Para médica de Campinas, lockdown é necessário, mas governo tem que garantir subsistência da população. Diretor do Hospital de Hortolândia relata superlotação e apela para que população se cuide
No primeiro ano de pandemia em Campinas (SP) e região, o novo coronavírus destruiu famílias, impôs medidas restritivas inéditas há gerações e revelou a incapacidade de parte da sociedade, incluindo inúmeros gestores públicos país afora, em assumir a responsabilidade coletiva de salvar vidas. Escancarou, também, a resiliência de profissionais de saúde que agora se arriscam em uma segunda onda aparentemente mais avassaladora.
“A gente vai conseguir vencer isso”, diz médico e diretor hospitalar de Hortolândia.
Para marcar a data do primeiro caso confirmado na metrópole do interior de SP, o G1 conversou com profissionais de saúde que atuam na linha de frente.
Um diretor de hospital da região, uma médica da atenção básica, um enfermeiro de hospital de referência e um técnico de enfermagem que voltou ao trabalho após 8 meses contam suas experiências.
UTIs lotadas, saúde mental abalada
Diretor de assistência do Hospital Municipal Mario Covas, de Hortolândia (SP), Alexandre Angione tem a missão de coordenar a equipe de profissionais de saúde da unidade. Em um ano de pandemia, os trabalhadores lidaram com a morte de nove colegas por Covid-19 e convivem com o recrudescimento de uma pandemia. Soma-se a isso o fato de que há muito menos cuidado por parte da população que, por desinformação ou até cansaço, abandonou as medidas sanitárias básicas.
Os oito leitos de UTI Covid-19 mantidos no hospital ficam permanentemente lotados e Angione relata a mudança no perfil dos pacientes. “Têm pacientes muito jovens. Nosso perfil de UTI mudou muito, um perfil assustador. Uma pessoa jovem, sem comorbidade e absolutamente grave”.
“Jovens que vão sair da traqueostomia, deficiências permanentes por causa de sequelas da doença. Jovens que vão ter uma vida inteira afetada por causa da covid-19″.
UTI do Hospital Municipal Dr. Mário Covas, em Hortolândia, permanece superlotada por conta da Covid-19
Arquivo pessoal
Após um ano, o gestor descreve o abalo psicológico da equipe como uma estafa mental. “A nossa saúde mental é uma pauta triste. Faz um ano que a gente vê os amigos morrerem, faz um ano que a gente vê os outros morrerem, é um negócio tenso entubar pessoas com quem você trabalha há dez anos”.
“A gente perdeu alguns colegas. Já está em nove na nossa equipe. Técnicos, enfermeiros, médicos, é assustador. Está varrendo gente do mundo”.
Para Angione, os trabalhadores seguem em pé graças aos momentos de vitórias, de altas, e com a esperança de que a pandemia termine.
“Ali chega um momento que todo mundo começa e entender que é maior que nós. É uma situação atípica que ninguém achou, quando fez faculdade, que ia enfrentar, [mas] a gente sabia que era possível. A motivação vem no dia que a gente dá alta, no dia que um amigo se recupera e volta ao trabalho dando risada. A motivação vem de saber que vai acabar um dia, que um dia vai dar certo, que a gente vai conseguir vencer isso”.
O diretor entende que a diferença crucial entre a primeira e a segunda onda da pandemia é que a falta de compromisso com a saúde aumentou. “As pessoas estão levando menos a sério, achando que já melhorou e que existe exagero. Existe um grau de desinformação alto que afeta o sistema de saúde, que desfalcou muito de sua estrutura”.
“A gente lida com pacientes mais jovens, mais graves, com uma demanda e uma pressão sobre o sistema muito maior do que antes, e nós lidamos com uma dificuldade de entendimento e colaboração no sentido de que a gravidade é alta e as pessoas não estão percebendo isso”.
‘A gente precisava de um lockdown’
Médica da atenção básica em Campinas, Juliana (nome fictício) compara que, enquanto na primeira onda os profissionais lidavam com o desconhecimento sobre a Covid-19, na atual fase o enfrentamento passa pelo aumento desenfreado de casos com maior agravamento em pessoas mais jovens, além da desinformação e falta de assistência dos governos para que as pessoas fiquem em casa.
“A primeira onda a gente achou que ia ser muito intensa, só que essa segunda onda nem se compara à primeira. O número de casos aumentou muito, a transmissibilidade se mantém alta, a gente não tem uma ajuda do governo federal para medidas administrativas de contenção da pandemia”.
“A gente precisava de um lockdown, mas um lockdown garantindo a subsistência do trabalhador, que ele pudesse ficar em casa e recebesse no mínimo um salário mínimo ou um auxílio de R$ 600, não de R$ 200 ou R$ 300. Afinal de contas, a cesta básica está R$ 700”.
Segundo ela, na rede de saúde municipal há equipamentos de proteção individual (EPI) suficientes, mas a maior escassez é de profissionais. “O número de profissionais afastados é gigantesco, afastados por Covid-19 ou questão de saúde mental, sobrecarga, burnout… A gente tem muita gente afastada e não está conseguindo expandir o acesso à saúde e manutenção de saúde”.
Rua Treze de Maio, no centro de Campinas (SP), em dois momentos da pandemia
Osvaldo Furiatto
Por atuar na linha de frente, Juliana não encontrou a mãe e a avó durante a pandemia. Apesar de ter recebido a vacina, ela só vai revê-las quando as duas também receberem a imunização. “Eu já estou vacinada, mas mesmo assim… Eu não pego, mas transmito e como eu trabalho em contato direto, escolhi não estar em contato com elas para preservá-las do risco”.
A distância, ainda que dolorida, não a afasta do atendimento aos pacientes com novo coronavírus.
“A gente não tá cansado da guerra, até porque a gente sabia o que iria enfrentar se precisasse. Eu não vejo nenhum profissional querendo sair da linha de frente, a gente quer acabar com tudo isso logo, salvar a maior parte da nossa população, da forma que a gente conseguir”.
A permanência no combate ocorre mesmo diante da expectativa de que a fase mais difícil ainda está por vir. “Tem sido um panorama bem difícil e essa segunda onda infelizmente vai ser muito, muito pior que a primeira e vai morrer muito mais gente, porque a gente demorou um ano para chegar em 200 mil mortos e em 45 dias a gente teve 50 mil mortos”.
Falta de leitos e demanda reprimida
João* (nome fictício) é enfermeiro com atuação em dois dos principais hospitais de Campinas, um deles o Ouro Verde. Ao comparar as duas ondas da pandemia, ele elenca a menor oferta de leitos, a demanda reprimida de outras doenças e a falta de profissionais de saúde como dificuldades atuais.
O Ouro Verde possui 56 leitos exclusivos para Covid-19 que, segundo o trabalhador, estão sempre ocupados. “Eles são lotados o tempo todo. Todos os dias tem média de três, quatro óbitos e, mesmo assim, esses três, quatro óbitos saem, esses leitos ficam disponíveis e são ocupados rapidamente porque a demanda de fora é imensa”.
A queda geral do respeito ao isolamento social e a demanda por atendimento de outras doenças também complica o cenário, segundo o enfermeiro. “Dentro do local de trabalho não falta EPI, mas falta mão humana, falta RH e isso faz diferença. Em abril do ano passado até junho, a demanda reprimida era menor, hoje a demanda é muito maior”.
Por conta disso, a pressão nas unidades de saúde aumenta e a dificuldade de atendimento abala os profissionais.
“Tem funcionários que saem de lá chorando porque não fez o suficiente por falta de espaço, por falta de adequação. Mas o que acontece? Tem algumas situações mais graves, alguns profissionais com um pouco mais de estresse psicológico de trabalho, então está bem complicado mesmo”.
Foto de julho de 2020, quando Prefeitura de Campinas ampliou o número de leitos de UTI Covid-19 no Hospital Ouro Verde
Carlos Bassan
Retorno ao trabalho após 8 meses
Em junho de 2020, o técnico de enfermagem do Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp Wilson da Silva Marques, de 42 anos, foi contaminado pelo novo coronavírus. O profissional, que à época dava apoio nas UTIs geral e de Covid-19, viveu 45 dias de internação, 38 deles entubado em estado gravíssimo.
A “casa” de Marques durante o período foi o Hospital Municipal Dr. Mário Gatti, de onde ele saiu somente em 6 de agosto. “O dia que eu fui para o Mário Gatti para ser internado eu falei: ‘vim andando e vou sair andando’. E aí levantei da cadeira [de rodas], dei um tropeção e caminhei”, lembra, com humor.
Técnico de enfermagem Wilson da Silva Marques ficou 45 dias internado com Covid-19 no Hospital Mário Gatti, em Campinas
Arquivo pessoal
O período de tratamento foi longo e envolveu incontáveis sessões de fisioterapia até o fim de dezembro. O pesadelo chegou ao fim, mas deixou sequelas. Ele convive com fibrose pulmonar, dores, dormências e cansaço diariamente, mas comemora a sobrevivência e, mais recentemente, a retomada ao trabalho após oito meses.
Além do HC, onde trabalha há seis anos, Marques também atua na Policlínica 3 da Prefeitura de Campinas, para onde voltou na quarta-feira de cinzas. Já no HC, o trabalho foi retomado há cerca de duas semanas.
“Eu voltei com restrição porque não estou aguentando andar muito. O corpo dói, mesmo eu não fazendo tanto esforço, fico cansado”.
Técnico de enfermagem Wilson da Silva Marques voltou ao trabalho no HC da Unicamp após 8 meses afastado por Covid-19
Arquivo pessoal
No HC, encontrou um hospital mais cheio, com leitos sempre ocupados. Por conta das restrições, ainda não tem ficado na UTI Covid, mas afirma não ter medo, apesar do que viveu. “Medo eu não estou, mas estou mais precavido porque é uma situação que não quero mais passar na vida”.
“Para nós da área da saúde foi muito difícil no começo e continua sendo, porque corremos o risco de passarmos também para familiares. Estamos aqui na linha de frente atuando para salvar vidas”.
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