sábado, abril 17, 2021

Sem equipamentos, alunos da periferia de Campinas enfrentam dificuldades no ensino remoto


Famílias chegam a dividir um celular entre sete pessoas. Para doutora em educação e professora da Unicamp, geração pode ser ‘perdida’ a longo prazo. ‘Impacto diferenciado’: sem recursos, jovens enfrentam desafios para assistir aulas online
Um celular entre sete pessoas. É assim que, em tempos de pandemia, a família da dona de casa Agnes Mari Farias se divide. Para acompanhar as aulas remotas, as crianças dependem da disponibilidade do aparelho e também da conexão de internet, que muitas vezes falha.
“Mesmo tendo celular, não tem internet, então fica complicado. […] É totalmente diferente de eles estarem em uma escola presencial, com a professora que estudou pra isso [ensinar]. Eu não estudei pra isso, então a qualidade não é a mesma”, desabafa Agnes.
A família, que reside na periferia de Campinas (SP), está entre as milhares que foram afetadas pela suspensão das aulas presenciais para tentar conter o avanço da Covid-19. Longe da sala de aula e dos professores há quase um ano, as crianças tiveram que se adaptar ao novo modelo de ensino e adaptá-lo às respectivas realidades.
“Querendo ou não, a educação é uma coisa que ninguém rouba da gente, é uma coisa que é nossa. Com a educação, a gente consegue tudo. A gente pode se formar numa profissão boa, e é isso que eu quero pra eles”, afirma a dona de casa.
Família de Agnes divide um celular entre sete pessoas
Wesley Justino/EPTV
Aprendizado
Assim como a família de Agnes, as irmãs Maria Clara e Vitória Cipriano, de 14 e 12 anos, respectivamente, têm que dividir um celular entre aulas que frequentemente se sobrepõem. Além das dificuldades de logística, elas afirmam que o aprendizado também foi prejudicado.
“Tô um pouquinho chateada, porque antes eu sabia bem mais coisas do que eu sei agora. […] Vai demorar um pouquinho pra voltar [as aulas], porque esse negócio do coronavírus ‘tá’ demorando para passar, e também ‘tá’ morrendo muita gente”, diz Vitória.
Mãe das garotas, a dona de casa Lucélia Cipriano relata que, muitas vezes, as crianças têm que parar a aula ou a tarefa pela metade para que o próximo irmão possa utilizar o celular. “Às vezes fica muito pela metade a lição deles. Começa a outra aula e a outra tem que pegar o celular, então fica difícil”.
“Eu não sei explicar [a matéria], né? Então, com a professora, ‘tava’ sendo mais fácil, dava para eles perguntarem, ir além. Só que em casa está sendo muito difícil. Alguns entendem [o que estudam sozinhos], outros não. Escreve e não sabe nem o que ‘tá’ escrevendo”, conta.
Família Cipriano reside na periferia de Campinas (SP)
Wesley Justino/EPTV
‘Geração perdida’
Para a doutora em educação e professora da Unicamp Debora Jeffrey, a pandemia provocou uma “pausa” no sistema educacional, o que pode levar a consequências profundas e duradouras na formação das crianças em idade escolar.
“A gente tem que pensar sempre que o sistema educacional é pensado e organizado num processo contínuo, com começo, meio e fim”, analisa. Para Jeffrey, a educação está no parada no “meio”, sem condições de avançar.
“A longo prazo, corremos o risco de ter uma geração perdida. Perdida no sentido de evade, não volta, e quais são as condições de regresso, de volta? Está se falando tanto de um plano emergencial para a economia, mas nós não pensamos num plano emergencial para a educação”, pontua a docente.
Em meio à pandemia, crianças tiveram o ensino prejudicado
Wesley Justino/EPTV
O que dizem a prefeitura e o estado?
Segundo o diretor do departamento pedagógico da Secretaria de Educação de Campinas, Luís Roberto Marighetti, 21 mil crianças receberam chips de dados disponibilizados pela prefeitura para o acompanhamento das aulas virtuais.
“O que a secretaria está fazendo em 2021 é renovando a possibilidade de uso desses chips, as famílias continuarão com a perspectiva de ter esse chip de dados, com acesso à internet, e perspectiva também de que as crianças tenham acesso a algum tipo de material impresso, textos, atividades e sugestões de brincadeiras”, informou.
Já a coordenadora do Centro de Mídias da secretaria de Educação do estado de São Paulo, Bruna Waitman, reforçou que a distribuição de chips é uma forma de combater a desigualdade, priorizando as famílias mais vulneráveis.
“Vale destacar aqui também uma ação que a gente está iniciando agora, que é expandir em quase 2h o tempo de estudo desses alunos que fazem parte de famílias mais vulneráveis. Por meio do uso do chip, esse aluno vai ter o acompanhamento de um professor, que funciona quase como um orientador de estudos”, disse Waitman.
VÍDEOS: volta às aulas e reabertura de escolas para crianças
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