quinta-feira, fevereiro 25, 2021

Como chimpanzés e o ebola ajudaram nas pesquisas da vacina contra a Covid

Até os primeiros 7.560 brasileiros receberem a dose da vacina experimental na fase final de testes da farmacêutica da Johnson & Johnson, roedores, coelhos e macacos ocuparam a linha de frente das pesquisas em busca do imunizante contra a Covid-19. As primeiras reações adversas, se existissem, teriam de ser mensuradas neles. Experimentos com a utilização de animais são comuns na elaboração de novas drogas, no ensaio de novos métodos cirúrgicos, em testes de aparelhos como marca-passos e, claro, para comprovar a eficiência de vacinas. A fase final de pesquisas por um fármaco anti-Covid, com humanos, só é autorizada depois de os animais terem reagido bem às testagens.

Quem explicou tudo isso a uma fã de Pink e o Cérebro, o desenho animado com dois ratinhos de laboratório que querem dominar o mundo (no caso da fã, eu mesma), foi o pesquisador principal do estudo clínico do qual sou parte, Luis Augusto Russo, em uma das várias conversas que tivemos antes de receber minha ampola da vacina no dia 17 de novembro. No fármaco desenvolvido pela Universidade de Oxford, por exemplo, é utilizado um vírus atenuado e modificado de chimpanzé – e apesar dos revezes depois da revelação de que parte dos voluntários recebeu erroneamente uma dose menor do imunizante, a vacina deve ser lançada no mercado com segurança.

Para além dos animais, que desde 2008 são protegidos por uma legislação específica contra maus tratos em experimentos, lições que os cientistas aprenderam com doenças terríveis, como o ebola, também são importantes ferramentas na busca pela vacina contra a Covid. Em julho deste ano, 95.000 pessoas foram vacinadas contra o ebola em Ruanda e no Congo numa pesquisa científica da farmacêutica Janssen. O imunizante contra a doença, que vitimou mais de 11.300 pessoas na África Ocidental em um surto de 2013 a 2016, é feito a partir de um vírus enfraquecido da influenza, o adenovírus 26, com um pedacinho do vírus do ebola. Até o momento, nenhum dos voluntários deste estudo teve efeitos colaterais graves.

No caso da vacina contra o novo coronavírus da qual sou voluntária, a ideia dos pesquisadores é a mesma: usar um vírus enfraquecido da influenza, só que desta vez com um pedacinho do vírus que causa a Covid-19. Além dos ensaios relacionados a esta pandemia, esse método já foi testado em 26 outros estudos clínicos em todo o planeta, incluindo projetos de produção de vacinas contra a zika e a malária (infelizmente essas duas últimas não no Brasil). É uma plataforma bem conhecida dos cientistas e com resultados satisfatórios ao longo do tempo. Ainda em julho, a Comissão Europeia aprovou essa vacina da Janssen contra o ebola.

30 de novembro, 10h30: Recebo uma mensagem de uma voluntária da vacina contra a Covid que tomará a dose experimental na quarta-feira. “Estou mega nervosa. Você acha que está valendo a pena?”, me pergunta. Eu, particularmente, estou muito confiante de que o imunizante da Johnson & Johnson, que é o que eu estou testando, vai apresentar resultados muito positivos e, na sequência, se juntará a Pfizer, Moderna, CoronaVac, Oxford/AstraZeneca e outras tantas que vão nos ajudar a sair desta pandemia.

1º de dezembro, 2h03: De madrugada mesmo, o estudo da Janssen me manda uma notificação. Faltam duas semanas para eu ser submetida a uma nova bateria de exames para saber se desenvolvi anticorpos contra a Covid. Sou instada a escolher um horário para ser testada. Abro a agenda virtual da clínica e preencho com prazer meu nome para uma consulta no dia 15 de dezembro. Estou excepcionalmente muito otimista com esta possibilidade de vacina.

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