sexta-feira, fevereiro 26, 2021

Daria para ter evitado a tragédia no Amazonas

por Editorial de O Globo (16/1/2021)

O pior aspecto da tragédia causada pelo novo coronavírus em Manaus é que ela era não apenas previsível, mas foi prevista. Desde novembro, os números de infectados e mortos por Covid-19 vêm subindo em todas as regiões, em especial no Norte do país. Os sinais de que o colapso se aproximava eram evidentes. Pacientes chegavam a todo momento a hospitais despreparados para o aumento da demanda. Alguém se preocupou com isso? Não. Todos os níveis de governo ignoraram os alertas emitidos por epidemiologistas, infectologistas e outros cientistas para o risco das aglomerações das festas de fim de ano.

O resultado não poderia ser outro que não o caos. A capital do Amazonas é hoje um microcosmo do Brasil, onde incúria, negligência, amadorismo e improviso se juntam para provocar um morticínio. Em vez de impor restrições mais duras no período de festas, o governo do estado relaxou a prevenção, aderindo à visão negacionista do bolsonarismo, que encheu as redes sociais de incentivos irresponsáveis à aglomeração. Tardiamente, o governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC), decretou o fechamento dos serviços não essenciais, entre 26 de dezembro e 6 de janeiro. Depois de protestos da população, ele próprio permitiu a reabertura, transformando uma decisão técnica em política. Foi preciso que a Justiça, a pedido do Ministério Público, determinasse o fechamento.

Em paralelo, uma nova variante do vírus com maior facilidade de contágio se espalhou a partir do Amazonas e preocupa o mundo todo. Aqui, é ignorada pelas autoridades que deveriam proteger a saúde da população. O alerta sobre a mutação partiu do Japão, onde, em 10 de janeiro, a variante foi detectada em recém-chegados da Amazônia.

Como de praxe, a resposta do governo federal foi tíbia — e tardia. Somente no dia 11, quando o caos já estava instalado (o estado não dispõe nem sequer de oxigênio), o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, desembarcou em Manaus para apresentar um plano de contingência. Atribuiu o agravamento da pandemia a toda sorte de espantalho: a infraestrutura hospitalar precária, as chuvas e uma estapafúrdia falta de “tratamento precoce”. Ora, que significa tratamento precoce, se isso inexiste? Faltava oxigênio, e uma representante do ministério queria obrigar médicos manauaras a receitar cloroquina, droga sem eficácia nenhuma.

Não há mistério nas medidas de prevenção: máscaras, distanciamento social, higiene das mãos, cancelamento de grandes eventos. Mas, aparentemente, a população, incentivada pelo presidente e políticos negacionistas, prefere acreditar que é tudo fantasia. Ou crê no terraplanismo da turma de Bolsonaro e Pazuello.

A tragédia que se abateu sobre Manaus no ano passado, quando as mortes mais que dobraram em virtude do vírus, deveria ter servido de alerta. Infelizmente, cometem-se os mesmos erros. Despreza-se a Ciência. Espera-se a situação se agravar ao máximo para agir. Quantos mais precisarão morrer ou ficar sem oxigênio para que as autoridades e o país aprendam?

Continua após a publicidade

Ultimas Notícias

Temporal alaga vias, inunda imóveis e derruba árvores em Campinas

Maior índice de chuvas foi registrado na Avenida Orosimbo Maia, com 46 milímetros...

Vinhedo abre processo seletivo para 12 vagas temporárias para médicos; veja áreas de atuação

Oportunidades são para profissionais das áreas de clínico geral, pediatria e medicina de família. Vinhedo abriu processo seletivo...

'Se tiver vacina para comprar, vamos comprar', diz Dário ao sinalizar Campinas em consórcio

Prefeito diz que aquisição pode ser feita com repasses de ministério ou remanejamento interno. Metrópole inicia na segunda-feira...

Mogi Guaçu restringe circulação e fecha farmácias e mercados; cidade é 1ª da região a adotar medidas mais restritivas

Regras passam a valer na madrugada de terça-feira (2) e foram adotadas após aumento em casos, mortes e...

Hortolândia recebe 2ª edição de festival de grafite neste final de semana

Intervenção artística ocorre sábado e domingo, das 9h às 18h, na Unidade Cultural 'Arlindo Zadi', bairro Jardim Amanda....
- Advertisement -