segunda-feira, março 8, 2021

De voluntária para voluntária: por que não somos cobaias?

21 de novembro, 14h56: Pela primeira vez desde que recebi a dose da potencial vacina não sinto nada. Dores, cansaço, medo, febre, taquicardia, nada. Nem parece que na terça-feira, às 18h30, recebi uma injeção no braço esquerdo. As reações que senti, especialmente na quarta, 18, são absolutamente normais para quem recebe qualquer injeção, seja de vacina, de placebo ou de antibiótico, e não me desanimaram no projeto de fazer parte da corrida científica por um imunizante contra a Covid-19. O que é um dia de mal-estar diante a possibilidade de ajudar a desenvolverem uma vacina? Até a sensação de ter sido atropelada por um caminhão valeu a pena. É isso que é ser voluntária.

Não, não gourmetizaram a palavra cobaia. Voluntários de um estudo clínico, como eu e milhares de pessoas ao redor do mundo, decidem fazer parte de pesquisas científicas pelas mais diversas razões, mas nunca porque são compelidas, ameaçadas ou levadas à força para um laboratório. A palavra cobaia pressupõe falta de voluntariedade, de livre escolha em participar ou não do projeto. Falar em cobaias humanas remete à condição de vulnerabilidade de pessoas expostas compulsoriamente a experimentos, como os que os nazistas impunham a judeus e ciganos, por exemplo.

Questionários aplicados a pessoas que se inscreveram em testes para a descoberta de vacinas ou novos medicamentos – um deles elaborado pelo pesquisador principal da clínica que conduz o estudo de que sou parte – indicam que a principal razão para que voluntários se apresentem é o desejo de conhecer melhor o próprio corpo. Em segundo lugar, a vontade de ajudar as pessoas, altruísmo mesmo. Por isso usar a palavra cobaia é ofensivo – mesmo que os verbetes nos dicionários não façam essa ressalva.

Dona Marluce Diniz é uma dona de casa de 84 anos. Mora em Natal. Assim como eu, ela é voluntária de estudos clínicos em busca de uma vacina contra o novo coronavírus. Ela, o marido, também de 84 anos, e o filho médico, de 56. O irmão se inscreveu, mas não pôde participar porque toma um remédio que influencia a coagulação do sangue. Pessoas em tratamento quimioterápico e menores de idade, por exemplo, também não estão autorizados a se submeter aos estudos clínicos.

“Meu filho me explicou o programa de voluntários da vacina e perguntou se eu queria participar. Eu disse na hora: Ave Maria, eu quero. Não tive medo. Medo eu tenho hoje, que não tem a vacina ainda”, disse ela ao blog. Amanhã, segunda-feira, ela tomará a terceira dose do estudo clínico conduzido pela Universidade de Oxford com a farmacêutica AstraZeneca. Até agora, dona Marluce não teve nenhum efeito colateral.

“Minhas amigas falaram que eu era louca”, afirmou, “mas acho que estou fazendo alguma coisa pelo Brasil, pela saúde do povo”. “Elas tomaram cloroquina. Eu não tomei porque a ciência disse que não funciona. Sou uma voluntária, e não cobaia, e quero ajudar a resolver o problema da pandemia”.

Continua após a publicidade

Ultimas Notícias

Campinas e Valinhos registram carreatas pedindo volta às aulas presenciais na fase vermelha

Apesar de liberadas pelo governo estadual, atividades presenciais em escolas públicas e particulares...

Covid-19: Regional de Campinas atinge maior média móvel de novas internações em 7 meses

Dados da Fundação Seade mostram que índice registrado neste domingo (7) é 39,4% maior que o aferido 14...

Coletivo de Hortolândia apresenta festival online de música; veja programação

Apresentações serão realizadas nos dias 7, 14 e 21 de março. Público pode acompanhar a transmissão gratuitamente pelo...

Polícia pede prisão temporária de suspeito de matar companheira a facadas em Águas de Lindóia

Diego Paiva, de 23 anos, foi ouvido e liberado no sábado; SSP informa que autoridade policial aguarda decisão...

O ranking das vacinas mais usadas no mundo

Pouco mais de um ano após o início da pandemia de coronavírus, 261 vacinas contra a Covid-19 estão em desenvolvimento. Destas, 79 estão na...
- Advertisement -