terça-feira, março 2, 2021

Diplomacia da vacina, pela recuperação da humanidade

O lançamento de vacinas contra o coronavírus começou nos países desenvolvidos, mas a imunização em massa levará tempo. Resolver o problema apenas em parte, no entanto, não vai significar o fim ou mesmo o controle da pandemia. Quem sabe a sociedade não tenha ainda se apercebido de que este vírus não respeita fronteiras e de que nós, seres humanos, também não queremos viver confinados dentro delas.

Neste momento, a capacidade de produção de vacinas representa o principal obstáculo, já que muitos países desenvolvidos encomendaram mais doses do que precisam. Portanto, independente dos programas de cada país e das atitudes individuais, temos que ter acesso à produção de mais vacinas. Por outro lado, independente da logística, isto custará dinheiro, e os custos associados aos programas de imunização em massa serão significativos, especialmente para países menos desenvolvidos, com recursos fiscais limitados. Diante disso, é preciso dar resposta à pergunta: onde está a solidariedade?

A China foi o primeiro país atingido pelo coronavírus, está entre os primeiros a se recuperar e foi o mais rápido a começar a lançar vacinas. Mas seu foco está na exportação de doses, em parte por sua eficácia como moeda de troca diplomática. A Índia, respeitada fonte de medicamentos genéricos, também dispõe de um enorme arsenal para empregar na vacinação – mas, afora o desafio de vacinar sua própria população (cerca de 1,3 bilhão de habitantes), o país quer ampliar seu espaço de influência apoiando países vizinhos e mesmo em outros continentes, para se contrapor ao rival chinês. Nesta esteira, os Estados Unidos se posicionam prestigiando fabricas americanas (o que nada tem de novo nas ações de defesa das próprias economias). Neste cenário, ainda que com acesso à ciência, estes atores passam a questionar eficácias, desconsiderando a situação emergencial e sem prever o ônus de não se fazer nada – o que só cria mais incertezas e inseguranças. E mais: sem considerar que muitas de nossas vacinas para outras doenças tem eficácia de não mais que 50%.

Quero dizer que estão sendo colocadas muitas questões, e a mecânica da geopolítica, com desdobramentos que concentram ainda mais poder e ainda mais recursos, acaba se misturando às necessidades estruturais pautadas pela ciência. Onde estão as lideranças mundiais, que, num cenário de catástrofe, não conseguem alinhar uma conduta única e convergente? Num cenário de guerra, em que os inimigos são países, poderíamos entender. Mas o inimigo é um vírus!

Erradicar doenças transmissíveis tem grande efeito positivo. Não apenas vidas são salvas e são garantidos a sobrevivência, o potencial de saúde e a qualidade de vida da humanidade, mas também a produtividade aumenta e as economias são fortalecidas. Isso contribui para o crescimento econômico e o bem-estar. Estimativas apresentadas no Fórum Econômico de Davos (Suíça) entre os dias 25 e 29 do mês passado evidenciam que, ao ajudar a acabar com a pandemia e evitar desastres econômicos, a vacinação contra a covid-19 iniciada em fins de 2020 nas 10 maiores economias do planeta poderá gerar benefícios equivalentes a US$ 466 bilhões até 2025. Se ficarem sem acesso a vacinas em meio à pandemia, os danos econômicos serão significativos não só para tais países, mas para as populações de todas as economias – dado que eles passarão a ser locais privilegiados para a geração de novas variantes dos vírus conhecidos. O mundo inteiro ficará em risco e décadas de progresso econômico da humanidade poderão ser perdidas.

Em abril de 2020, como resposta à emergência sanitária, a OMS (Organização Mundial da Saúde) lançou o ACT (Acelerador de Ferramentas de Acesso para o COVID-19). A iniciativa é uma parceria entre várias instituições e tem grande importância na busca de soluções globais acabar com a pandemia. Além de coordenar os esforços internacionais para controlar surtos de doenças como malária e tuberculose, a OMS também patrocina programas para prevenir e tratar tais doenças. A organização apoia ainda o desenvolvimento e a distribuição de vacinas seguras e eficazes, diagnósticos farmacêuticos e medicamentos, como por meio do Programa Ampliado de Imunização.

Tudo isto para dizer que é preciso entrar rapidamente na diplomacia da vacina. Movimentos isolados de diferentes países, interesses regionais, desejo de tirar proveito, tudo isso cria um desperdício de energia e tira o foco do problema, que requer uma liderança internacional unida. Todos os países poderiam ajudar. Temos falado muito de Israel, mas o Brasil tem um dos melhores programas de vacinação do mundo. Há outros com grande estrutura digital e precisamos de convergência de expertises. Fica aqui, então, a demanda por uma diplomacia da vacina – experiência que já se conhece do passado, e que agora precisa ganhar força e escala.

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