sexta-feira, abril 16, 2021

Explicar o óbvio pode ser necessário para conter a pandemia

Nem sempre aquilo que parece óbvio de fato o é. Triste é ver que quem deveria se aprofundar no óbvio por vezes dá sinais de que não o entende – ou pior: não quer entendê-lo. Desde os primeiros momentos, a ciência deveria ter sido respeitada. Falávamos da capacidade de transmissão do vírus como sendo o grande fator a determinar se haveria uma futura crise. Agora sugiram as cepas variantes e, pelo que parece, com capacidade de transmissão ainda maior. Repito: algumas pessoas parecem não querer entender.

Não se faz aqui crítica – e nem defesa – de governante algum. O que se faz, isso sim, é uma defesa da vida. É preciso segurar a transmissão, e isso só pode acontecer evitando contato, usando máscaras, respeitando medidas de contenção e mantendo hábitos rigorosos de higiene. Tudo isso pode resultar em efeitos negativos de natureza econômica? Claro que sim – mas esperar que a pandemia seja controlada sem que se adotem ações sérias e efetivas nesse sentido seria como pedir a um bombeiro que apagasse um incêndio em sua casa, mas que, por favor, evitasse inundar a sala de estar.

As UTIs (Unidades de Terapia Intensiva) estão lotadas, nos hospitais estão cada dia mais comuns as taxas de ocupação acima dos 100%. A cada dois minutos são internadas três pessoas e muitos perguntam onde estão os hospitais de campanha – como se mantê-los ociosos por cinco meses fosse solução. E tudo isso é meramente compensatório: o estruturante é a vacinação, que tem mostrado avanço ínfimo em nosso país. Não dispomos das vacinas, apenas corremos atrás delas, ou pelo menos dos insumos ativos – porque de capacidade fabril para produzi-las o Brasil dispõe.

Infelizmente, no tópico vacinas as conversas estão envoltas em uma grossa massa ideológica, e com isso fogem por completo da consistência, deixando completamente de lado a boa ciência. Quando se resolve agir de modo efetivo, no entanto, os resultados aparecem. Veja-se o caso de Portugal, por exemplo: o país passou por uma situação de descontrole entre o fim do ano passado e o começo deste, e a saída encontrada foi impor um lockdown em 22 de janeiro. Com isso, o país viu o número de infecções regredir de 16.432 para 979 casos no último dia 3. E o lockdown continua em vigor, sem data para acabar. O governo do país conseguiu agregar partidos de todas as correntes ideológicas, criando uma frente de união.

O Reino Unido também impôs um rigoroso confinamento, que fez os casos graves de Covid-19 retrocederem. No início do ano, diante de novos recordes de casos de coronavírus no país, o governo britânico decretou um novo lockdown de seis semanas – e em 22 de fevereiro, o governo do país já começava a discutir a saída. Nesta segunda-feira (8), por exemplo, as escolas foram reabertas, pela primeira vez em mais de três meses. A reabertura está inserida em uma estratégia de quatro estágios para desapertar as restrições. Além disso, o país foi pioneiro na vacinação, com mais de 23 milhões de doses aplicadas em um país de 67,8 milhões de habitantes, e a expectativa é que todos os adultos estejam vacinados até o final de julho.

Na França, o governo deixou Paris e sua região metropolitana de fora do lockdown que decretou nas áreas metropolitanas de Dunquerque (norte) e Nice (sul) – mas ainda assim, os parisienses e quem vive nas cidades do entorno terão de respeitar medidas de restrição mais estritas. Há ainda o caso de inegável sucesso de Israel, que, tendo já aplicado a primeira dose da vacina da Pfizer em quase 5 milhões de pessoas (mais de 50% da população do país), já começa a reabrir sua economia. Mas faz isso com planejamento e restrições: para poder entrar em um restaurante, por exemplo, o cliente tem que apresentar o “passe verde” (concedido a quem já recebeu a segunda dose). O passe será exigido também em eventos culturais. Aulas, cultos, estádios, auditórios, todos começam a retomar atividades. A vida vai aos poucos voltando à normalidade.

Os Estados Unidos fizeram uma reversão impressionante em relação ao estado em que se encontravam: sob o novo governo, a vacinação no país avança rapidamente. A média dos sete dias até o último dia 6 mostrava cerca de 2 milhões de aplicações de vacina por dia, e já se vê a imunidade de rebanho perto do fim deste mês. Dados do CDC (sigla em inglês para Centros de Controle de Doenças) mostram que 58,9 milhões de pessoas (18% da população) já receberam ao menos uma dose – e destas, cerca de 30,7 milhões (9% dos americanos) já receberam as duas.

O mundo está diante de uma ameaça sanitária de proporções não vistas em mais um século. Para se combater uma doença, não se sabe de nenhum método mais eficaz que a ciência. Claro que são necessárias políticas públicas, planejamento, engajamento da população, educação, informações, tudo isso faz parte da ação do país para imunizar as pessoas. O que com toda certeza já deu provas abundantes de não funcionar é ideologia, estudos tendenciosos e discussões pelas redes sociais.

Isso tudo é óbvio, mas às vezes o óbvio precisa ser explicado – pior: em alguns casos nem adianta explicar. É preciso continuar, no entanto: só quando estivermos adiantados na vacinação, acompanhando as medidas restritivas para conter o avanço do contágio, poderemos pensar em nos juntarmos ao clube dos países que já começa a ver alguma normalidade no horizonte.

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