sábado, maio 15, 2021

Os avanços no cuidado do paciente com câncer no contexto da pandemia

Os estudos mais importantes e promissores para o tratamento do câncer foram apontados no documento Clinical Cancer Advances 2021, divulgado recentemente pela Sociedade Americana de Oncologia Clínica (Asco). São pesquisas com potencial para mudar a prática no consultório e a vida dos pacientes.

O perfil molecular em vários tumores como os gastrointestinais, que permitiu melhorar o prognóstico dos pacientes, escolhendo a intervenção mais apropriada, foi selecionado como o Avanço do Ano. Os estudos selecionados também destacam o papel da imunoterapia, de drogas mais inteligentes e de combinação de tratamentos, com maior eficácia.

Entre os principais avanços listados, podemos destacar o progresso de terapias direcionadas para pacientes com doença em estágio inicial, as abordagens de tratamento baseadas em biomarcadores que oferecem cuidados mais personalizados para câncer de pulmão, colorretal e gástrico, um número crescente de terapias direcionadas que oferecem sobrevida estendida para mais pacientes com tumores de difícil tratamento.

Entramos em uma era interessante, com diversas opções de terapias, que vão servir para alguns pacientes melhor do que para outros e, agora, conseguimos saber quem vai conseguir os melhores benefícios.

Utilizo como exemplo o câncer de bexiga, que é um tumor comum no Brasil, com mais de 10 mil novos casos por ano, uma doença agressiva e associada ao tabagismo. Um estudo apresentado há poucas semanas mostrou que, para quem tem um tumor operado e localmente avançado, um novo imunoterápico consegue prevenir uma recorrência da doença num número significativo de pacientes. Do mesmo modo, para aqueles homens e mulheres com casos mais avançados, imunoterápicos parecidos conseguem evitar a progressão da doença e até eventualmente curar pacientes que eram ditos incuráveis.

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Isso vale para os tumores de fígado e intestino. O câncer de fígado é tratado hoje com imunoterapia e uma droga inteligente que bloqueia os vasos do tumor, evitando que ele receba oxigênio e alimento. Para intestino, a imunoterapia também é utilizada com sucesso no tipo de câncer que tem uma alteração molecular específica chamada instabilidade de microssatélites. Quando esta mutação está presente, o medicamento imunoterápico funciona incrivelmente melhor do que a quimioterapia, reduzindo o risco de morte em 50%.

A imunoterapia também ganha espaço nos tratamentos de tumores de mama triplo negativo, tanto evitando uma recidiva quanto para a doença metastática.

O relatório deste ano das Asco propõe, ainda, um debate sobre a equidade no acesso à saúde. Uma questão relevante, principalmente no contexto da pandemia, em que o diagnóstico e o tratamento do câncer sofreram enormes prejuízos.

Neste momento, quem tem diagnóstico de câncer e está em tratamento deve conversar com o médico para que exista uma harmonia entre o que há de melhor no cuidado oncológico e a proteção contra o coronavírus.

Aqui no Brasil, o Instituto Vencer o Câncer continua o trabalho pela aprovação de um projeto de lei para aumentar o acesso a remédios orais contra a doença. A proposta pretende garantir o direito de 50 mil pacientes usuários de planos de saúde. O PL já foi aprovado no Senado, no ano passado, e espera para ser pautado na Câmara. Os remédios orais são fundamentais para pacientes com câncer porque, além de serem melhores em vários aspectos, permitem que o paciente não precise sair de casa para receber a medicação. O distanciamento social, aliado ao uso de máscaras e à vacina, são as medidas mais eficientes para o controle da pandemia.

Da mesma forma, precisamos garantir a vacinação das pessoas com câncer. E, quando a vacina estiver disponível para aquele paciente, que ele seja imunizado. Os imunizantes aprovados e disponíveis neste momento não têm nenhuma contraindicação. Mesmo imunizado, o paciente deve seguir as regras de prevenção. Caso haja qualquer sintoma, o médico deve ser informado, mesmo que sejam sinais simples. É hora de manter atenção total nos cuidados, mas não abandonar o tratamento. O câncer não espera.

<span class="hidden">–</span>Ricardo Matsukawa/VEJA.com
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