segunda-feira, março 1, 2021

Para vacinar rapidamente é preciso despolitizar imediatamente

Assistimos hoje no mundo ao que se pode chamar de uma corrida entre infecções e injeções. Aliás, não uma, mas várias corridas – posto que os países adotaram estratégias distintas. Alguns estabeleceram suas prioridades, enquanto outros quase não se organizaram. Mas, infelizmente, sejam quantas forem as corridas, as infecções ainda estão ganhando: cerca de 5 milhões de novos casos de Covid-19 por semana têm sido registrados em todo o mundo; no Brasil, a marca de mil mortes diárias não raro é ultrapassada.

Até agora, pouco mais de 50 países começaram a ministrar vacinas, de acordo com o site Our World in Data. O número de vacinados ainda está bem abaixo de 100 milhões de pessoas nesse conjunto. Menos de 10 países administraram a primeira dose a mais de 5% de sua população. Esta guerra contra a Covid-19 é de cada país e de todos eles juntos, embora os números mostrem que o engajamento tem sido lento, na melhor das hipóteses.

Idosos têm recebido prioridade na maioria desses países – e logo em seguida vêm os profissionais de saúde. A preponderância das mortes por Covid-19 (na Inglaterra, por exemplo, são cerca de 85%) é de pessoas com 70 anos ou mais. Mas nas UTIs os internados são em média mais jovens, já que são eles os que mais resistem à agressividade do vírus. As taxas de internação hospitalar e mortes devem cair drasticamente em algumas semanas, depois que uma grande parte dos idosos receber sua primeira injeção. Mesmo assim, os sistemas de saúde vão ter de lutar até que muitas pessoas de meia-idade também sejam vacinadas, de modo a aliviar a pressão dentro das UTIs. Isso pode parecer contraintuitivo, dadas as maiores taxas de mortalidade entre os idosos. Mas os ventiladores e outras máquinas de suporte de órgãos impõem muito estresse ao corpo, e as pessoas de idade mais avançada costumam ser frágeis demais para serem colocados neles.

Israel é o lugar a se observar quando se considera como a vacinação em massa pode mudar as coisas. Foi o país que vacinou seus cidadãos mais rápido do que qualquer outro. Um sinal de que a vacinação começa a dar aos hospitais israelenses algum espaço para respirar surgiu quinze dias depois de 2 de janeiro – que foi quando a proporção de vacinados com mais de 60 anos atingiu 40%. O número de doentes graves com Covid-19 nessa faixa etária cresceu cerca de 30% na semana anterior àquela data – mas apenas 7% na semana seguinte. Em contraste, entre aqueles com idades entre 40 e 55 anos (que foram vacinados em uma taxa muito menor até então), a mudança no número de doentes críticos em cada uma dessas três semanas permaneceu constante, com aumento de 20% a 30%. Não há dúvida: há que vacinar.

Tudo isto mostra que, onde a vacinação é lenta, o número de mortes de pessoas de meia-idade relacionadas à Covid-19 pode aumentar nas próximas semanas e meses, se as medidas de contenção social continuarem a ser relaxadas. Para que a vida possa voltar a se parecer com o “normal”, é preciso vacinar rapidamente e – por ora, ao menos – usar máscara, evitar contato social, manter a distância e a higiene.

No Brasil, as atividades de vigilância sanitária são competência do SNVS (Sistema Nacional de Vigilância Sanitária), vinculado ao SUS (Sistema Único de Saúde) e que atua de modo integrado e descentralizado em todo o território nacional. As responsabilidades são compartilhadas entre União, Estados e municípios, sem relação de subordinação entre elas. Para quem vive o SUS e o conhece, para quem viu nosso programa de vacinação, um dos melhores do mundo, crescer e se estabelecer, e para quem acompanha a maturidade da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), eu diria: deixem os técnicos trabalharem. Com trabalho técnico sem politização, a saúde dos brasileiros pode prosperar.

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