terça-feira, março 9, 2021

Professar contra a vacinação é desumano

Sem juízo de valor, ou pretensiosa avaliação crítica, constato que muitos de nossos gestores, formadores de opinião de toda ordem e mesmo alguns profissionais de saúde, falharam em suas leituras acerca da pandemia da Covid-19, seja por subestimá-la, ou por se agarrarem em palpites curativos.

À medida que os estudos clínico-laboratoriais destilavam as verdades, elucidando dúvidas, todos aqueles submissos às evidências científicas se realinhavam na direção do consenso técnico, descolando-se de suposições. A habilidade contagiosa do Sars-CoV-2 foi logo confirmada, com muitos  caminhos de seus estragos sendo compreendidos, permitindo condutas protetoras de eficácias crescentes, mas a competência mortal do vírus foi cada vez mais respeitada.

Os medicamentos que encontravam guarida nos imaginários de alguns,para a cura ou modulação desta virose, foram sendo desmentidos um a um. Alguns médicos, inicialmente idolatrados pelo otimismo que sugeriam em seus protocolos farmacológicos, demoraram a aceitar confirmações da ciência, tal qual o francês Didier Raoult, verdadeiro ícone na defesa da cloroquina no tratamento da Covid-19, que apenas recentemente admitiu que este medicamento não reduz a mortalidade desta doença.

Mas nem todos se converteram à lucidez, alguns se mantiveram em suas escuridões, trancados em vestes mutilantes do bom senso, no que não aponto apenas leigos, mas também profissionais de saúde.Enquanto os imunizantes para Sars-CoV-2 eram desenvolvidos pela vanguarda da ciência planetária, sobravam médicos em demoradas postagens
descredibilizando estes projetos. Esses doutores, eventualmente bons clínicos, nunca estiveram nas altas cúpulas científicas, não possuem amplo conhecimento da tecnologia utilizada, mas encontram elemento balizador para
seu desserviço: o tempo para o desenvolvimento das outras vacinas contempladas em nosso calendário.

Um dos critérios para aceitação definitiva de uma vacina é de fato a compreensão de sua sustentação imunizadora, e esta resposta só nos poderá ser dada pelo tempo, aquele mesmo que teremos que aguardar para saber se os sobreviventes da Covid-19 desenvolvem, ou não, imunidade duradoura.

Mas, em outra indagação contrária a suas administrações estão possíveis efeitos danosos em nossos corpos, no que alinho considerações abaixo.

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As vacinas da Pfizer/BioNtech e Moderna são pequenas partes de RNA mensageiro do Sars-CoV-2 sintetizadas em laboratório, que carregam mensagens para os ribossomos (fábrica de proteínas) de nossas células ordenando a produção de um trecho muito pequeno da cápsula viral. Esse curto segmento proteico é capaz de identificar robustamente este vírus para o sistema imunológico e com isso gerar imunidade contra este agente, com eficácia de 95 %.

A tecnologia para obtenção deste imunizante de RNA mensageiro evolui há 30 anos, mas sua real utilização ocorre pela primeira vez. O quanto podem ser danosos pequenos pedaços de proteínas da cápsula viral circularem por alguns dias em nosso corpo nós não sabemos, mas é quase certo ser menos molestador que a Covid-19.

Oxford/AstraZeneca, única aposta oficial do Ministério da Saúde, utiliza vírus atenuado de resfriado de chimpanzé, no qual é introduzido material genético do Sars-CoV-2 (DNA sintetizado em laboratório). O conteúdo, uma vez injetado não possui potencial de nos adoecer, mas é capaz de utilizar nossa maquinaria celular a partir dos núcleos de nossas células para fabricar fração proteica da cápsula viral e com isso desencadear a imunização, que
alcança eficácia de 70 %.

Algumas teorias da conspiração promovem dúvidas quanto à utilização deste modelo imunizador, questionando possível alojamento definitivo de material genético viral em nosso genoma, possibilidade refutada frontalmente
pelos cientistas.

A Coronavac (Sinovac/Butantan) é composta pelo Sars-CoV-2 absolutamente inativado, incapaz de invadir nossas células e solicitar replicação de seu material genético, contudo, a totalidade de sua cápsula é
apresentada ao nosso sistema imune, que se encarrega de criar imunidade para esta virose. O contingente estudado no desenvolvimento dessa vacina contemplou profissionais de saúde na linha de frente da Covid-19, enquanto os critérios de sintomatologia aceitos foram mais rigorosos que os utilizados para os outros imunizantes. Ainda assim, a Coronavac apresentou eficácia calculada em torno de 50 %, no que assegura metade dos vacinados sem desenvolver qualquer sintomatologia.

Porém, assim como os outros dois imunizantes citados anteriormente, aquase totalidade daqueles que recebem esta vacina estão protegidos da forma grave da infecção e para desespero de alguns fanáticos é a única alternativa
reinante no país neste momento. As hipóteses da exposição sumária da população, sob o pretexto de conter a derrocada econômica ou substituir a vacinação, geraram desastres humanos e financeiros no mundo todo. E por aqui esta estratégia inocentemente adotada deixou o triste e agonizante exemplo de Manaus, demonstrando que mergulhar a população nas águas sombrias da pandemia não custa um desastre só, devasta reiteradas vezes.

Agora, com juízo de valor, mas com bases sustentadas pelo irrefutável valor que deve ser dado a vida, permito-me anotar que incentivar a exposição de nossa população ou não orientar o distanciamento social é irresponsável,
defender crendices terapêuticas é indecoroso, e professar contra vacinação é desumano.

<span class="hidden">–</span>Ricardo Matsukawa/VEJA.com
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