segunda-feira, março 8, 2021

Vítimas da Covid-19: o retrato da dor

Em 2 de abril, a fotografia chocante foi parar na capa do jornal americano The Washington Post, debaixo do dístico criado durante a Presidência de Trump, “A democracia morre na escuridão”, e ao lado de uma notícia sobre os temores do crescimento de casos do novo coronavírus nos Estados Unidos. Dali, dada a influência da publicação, a imagem correu o mundo. Mostrava uma profusão de valas no cemitério paulistano de Vila Formosa, destinado ao derradeiro adeus às vítimas da Covid-19. Eram enterros ainda mais tristes do que os habituais — sem familiares, sem despedida, rodeados de temor pela disseminação do vírus. Naquele momento, a estatística revelava uma média móvel de mortes em curva ascendente. Chegaram a 1 000 entre junho e agosto. A letalidade da doença era de 6,9% — ou seja, de cada 100 pessoas que testaram positivo para a infecção, quase sete não resistiam às suas complicações e morriam. A título de comparação: em dezembro, a taxa havia chegado a 2,6%, um índice exponencialmente menor, mas ainda assim preocupante.

E, no entanto, aquela cena aterradora virou marco de um tempo que passou, embora não possa ser esquecido — em homenagem aos que se foram, evidentemente, mas também como sinal de atenção para que os cuidados de distanciamento social e uso de máscara, ainda necessários, evitem a repetição da tragédia. O que se pretende é impedir dramas como o de Manaus, naquele triste meio de ano, com hospitais abarrotados, no limite do colapso das UTIs. Ali também, tal qual em Vila Formosa, houve cerimônias coletivas, de valas em profusão, simplesmente porque os corpos eram abandonados ao isolamento, sem visitas. As covas representaram a mancha de um país, o Brasil, que termina 2020 como o segundo do mundo em número de mortes na pandemia, atrás apenas dos Estados Unidos — servem, infelizmente, como contraponto de cruel realidade ao absurdo comentário do presidente Jair Bolsonaro, em março, de que a Covid-19 não passava de uma “gripezinha”. Evidentemente, foi muito mais do que isso.

Publicado em VEJA de 30 de dezembro de 2020, edição nº 2719

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