Tecnologia desenvolvida na universidade poderá levar tradução em Libras a restaurantes e transporte acessível, aproximando inteligência artificial de situações cotidianas.
Uma tecnologia desenvolvida na Unicamp, em Campinas, está avançando de uma pesquisa acadêmica para aplicações concretas de acessibilidade. Os avatares virtuais Clara e Lina, capazes de se comunicar em Libras, passaram a ser preparados para utilização em restaurantes universitários e em um projeto de transporte acessível dentro do campus. A iniciativa foi apresentada pela universidade em setembro de 2026 e envolve pesquisadores da Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação, do Instituto de Computação e do Centro de Ciência para o Desenvolvimento em Tecnologia Assistiva e Acessibilidade em Libras, o CCD-TAAL. Unicamp — Clara e Lina, avatares que se comunicam em Libras
A novidade interessa a Campinas porque mostra como inteligência artificial, computação gráfica e processamento de linguagem natural podem sair dos laboratórios e enfrentar um problema cotidiano: a dificuldade de acesso a informações para pessoas surdas. A proposta ainda está em fase de desenvolvimento e não significa que a tecnologia já esteja disponível em todos os serviços públicos ou estabelecimentos da cidade. Mesmo assim, o projeto permite entender como soluções criadas no ecossistema científico de Campinas podem influenciar a acessibilidade, o transporte e a prestação de serviços nos próximos anos.
Como funcionam os avatares de Libras desenvolvidos em Campinas
Clara e Lina são personagens digitais desenvolvidas na Unicamp para realizar comunicação em Libras, dentro de um projeto que reúne pesquisadores de diferentes áreas. O CCD-TAAL reúne pesquisadores da Unicamp, USP e Instituto de Pesquisas Tecnológicas em uma iniciativa multidisciplinar desenvolvida em parceria com a Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência. A missão do centro é desenvolver tecnologias capazes de reduzir barreiras de comunicação entre pessoas surdas e ouvintes. CCD-TAAL — Sobre o centro e suas pesquisas
A tecnologia envolve inteligência artificial, aprendizado de máquina, visão computacional e processamento de linguagem natural, com pesquisas voltadas à tradução automática entre Libras e português. O centro é financiado pela Fapesp no âmbito do processo 2024/00914-7, mostrando que a iniciativa faz parte de uma linha de pesquisa científica estruturada e não apenas de uma demonstração tecnológica isolada. A equipe reúne especialistas em computação gráfica, visão computacional, processamento de linguagem, linguística e Libras. CCD-TAAL — Equipe e áreas de pesquisa
O avanço mais recente é especialmente relevante porque coloca os avatares diante de situações reais de uso. Nos restaurantes universitários da Unicamp, a proposta é disponibilizar informações dos cardápios em Libras por meio de totens ou monitores instalados nas entradas dos estabelecimentos. As informações serão previamente gravadas para que estudantes surdos possam consultar o conteúdo de maneira mais independente. Unicamp — Aplicações de Clara e Lina no campus
Esse tipo de aplicação ajuda a explicar por que a notícia vai além de uma demonstração de tecnologia. Quando uma ferramenta digital é colocada em um restaurante, transporte ou serviço público, o desafio passa a ser a experiência do usuário, a precisão das informações e a facilidade de utilização. Para Campinas, que concentra universidades, centros de pesquisa e empresas de tecnologia, esse tipo de experimento também pode funcionar como laboratório para futuras soluções de acessibilidade em outros ambientes.
O que a tecnologia pode mudar no transporte e nos serviços de Campinas
Uma das aplicações previstas está relacionada ao VAMUS, veículo elétrico acessível utilizado gratuitamente no campus de Barão Geraldo para pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida. A proposta é instalar uma tela diante dos passageiros do banco traseiro para que informações transmitidas pelo motorista possam ser reproduzidas em Libras. O sistema também prevê uma resposta em português falado para a parte dianteira do veículo, criando uma possibilidade de comunicação nos dois sentidos. Unicamp — Projeto de acessibilidade no transporte universitário
O projeto ainda não tem data definida para implementação dessa funcionalidade, mas o potencial é relevante para Campinas porque transporte acessível depende não apenas de veículos adaptados, mas também de comunicação adequada. Uma pessoa pode conseguir embarcar em um veículo acessível e, ainda assim, encontrar dificuldade para compreender uma orientação, informar um destino ou receber uma explicação sobre uma mudança no trajeto. A utilização de recursos digitais em Libras pode ajudar a reduzir uma dessas barreiras, desde que o sistema tenha precisão e seja desenvolvido com participação efetiva da comunidade surda.
Os números do próprio campus ajudam a dimensionar a importância de testar esse tipo de solução. Segundo a Unicamp, os veículos do VAMUS já realizaram mais de 600 atendimentos em 2026, enquanto 198 novos estudantes com algum tipo de deficiência ingressaram na graduação em 2025, equivalentes a 6,05% dos ingressantes. A universidade ressalta que não possui, nesse levantamento, um dado específico sobre estudantes surdos. Unicamp — Dados sobre acessibilidade e VAMUS
Para a Região Metropolitana de Campinas, o aprendizado pode ultrapassar os limites da universidade. Tecnologias testadas em um ambiente controlado podem, no futuro, inspirar soluções para terminais, hospitais, escolas, equipamentos culturais, empresas e serviços municipais. Isso não significa que os avatares estejam prontos para substituir intérpretes humanos ou resolver todos os problemas de comunicação, mas demonstra uma tendência importante: a inteligência artificial começa a ser utilizada também para ampliar autonomia e acessibilidade, e não apenas para automação empresarial.
Por que a pesquisa da Unicamp pode gerar impacto além do campus
O projeto de Campinas faz parte de uma linha de pesquisa mais ampla que busca transformar inteligência artificial em tecnologia assistiva. O CCD-TAAL tem entre seus principais desafios justamente o desenvolvimento de tecnologias para tradução automática entre Libras e português, utilizando modelos de inteligência artificial, aprendizado de máquina, visão computacional e processamento de linguagem natural. CCD-TAAL — Tecnologia assistiva e tradução automática
Esse aspecto é importante porque uma tecnologia de tradução entre línguas de sinais e português envolve desafios muito maiores do que simplesmente converter palavras. Libras possui estrutura linguística própria e utiliza movimentos, expressões e elementos visuais que precisam ser representados adequadamente por sistemas computacionais. Por isso, o desenvolvimento exige integração entre linguística, computação gráfica, inteligência artificial, visão computacional e conhecimento produzido pela própria comunidade surda. A composição multidisciplinar da equipe do CCD-TAAL reflete justamente essa necessidade. CCD-TAAL — Pesquisadores e especialistas envolvidos
Há também uma dimensão econômica para Campinas. A cidade possui um ecossistema formado por universidades, centros de pesquisa, empresas de tecnologia e startups, e projetos desse tipo podem criar oportunidades para profissionais especializados em inteligência artificial, software, computação gráfica, processamento de linguagem e experiência do usuário. Quando uma pesquisa consegue avançar para aplicações práticas, ela também pode abrir espaço para novos projetos, parcerias, transferência de tecnologia e soluções desenvolvidas por empresas.
O desafio, entretanto, será transformar protótipos em ferramentas confiáveis e sustentáveis. Precisão na tradução, atualização das informações, acessibilidade da interface, manutenção dos equipamentos e participação dos usuários serão fatores decisivos para determinar se uma tecnologia desse tipo poderá ser ampliada. A própria equipe do CCD-TAAL trabalha com captura de movimento, visão computacional, aprendizado de máquina, processamento de linguagem natural e modelos voltados às línguas de sinais, indicando que o desenvolvimento tecnológico ainda envolve várias etapas de pesquisa. CCD-TAAL — Equipe de pesquisa e projetos
A experiência da Unicamp indica que Campinas pode ocupar um papel importante na próxima etapa da tecnologia assistiva no Brasil. Os próximos meses deverão mostrar como Clara e Lina serão incorporadas aos ambientes universitários e quais resultados serão obtidos nos testes. Se os sistemas demonstrarem utilidade e confiabilidade, a experiência poderá servir de referência para outras instituições e serviços. Para moradores de Campinas, o principal ganho potencial está em aproximar inovação científica de necessidades reais, enquanto para empresas e pesquisadores a iniciativa reforça a cidade como polo capaz de desenvolver tecnologias com impacto social.

