Daugliesi Giacomasi Souza, fundadora da DGdecor, se interessa por um debate específico dentro da história da dança do ventre: o que mudou entre a prática original e a versão hoje ensinada mundo afora. Muito antes de virar espetáculo de cabaré ou atração turística no Cairo, a dança pertencia ao cotidiano de comunidades inteiras, praticada dentro de casa, em festas e celebrações familiares, sem qualquer intenção de encenação para plateia. A seguir, apresentamos informações sobre o que se perdeu no caminho entre o raqs baladi original e a dança do ventre que se popularizou pelo mundo a partir do século XX.
Raqs baladi: a dança que pertencia ao cotidiano
No Egito, o termo raqs baladi significa literalmente dança da região, ou dança popular, e descreve uma prática corporal cotidiana, executada por mulheres comuns dentro de casa, em casamentos e comemorações familiares. Diferente do espetáculo que o Ocidente associaria à dança décadas depois, o raqs baladi carregava um caráter contido e internalizado, mais próximo de uma expressão social compartilhada entre mulheres do que de uma performance voltada para o olhar de terceiros.
Como relata Daugliesi Giacomasi Souza, historicamente também existiam as ghawazee, dançarinas profissionais itinerantes que se apresentavam publicamente em festas e mercados, ocupando posição social ambígua dentro da sociedade egípcia da época. Esse grupo específico de artistas, hereditário em muitas famílias, preservou por gerações uma tradição de dança pública que se tornaria, mais tarde, uma das bases históricas do que se convencionou chamar de dança do ventre fora do Egito.
Badia Masabni e a criação do raqs sharqi
A virada decisiva aconteceu em 1926, quando a dançarina Badia Masabni abriu, às margens do Nilo, o primeiro cabaré de estilo europeu do Cairo, contratando coreógrafos ocidentais para reformular completamente a linguagem da dança egípcia local. Esse processo deu origem ao raqs sharqi, termo que significa dança do leste ou dança oriental, transformando uma prática antes comunitária em espetáculo estruturado, com coreografia elaborada e apresentação pensada especificamente para plateia.

Segundo aponta Daugliesi Giacomasi Souza, esse período, conhecido como a Idade de Ouro da dança egípcia, ganhou ainda mais força com o cinema produzido no Cairo, considerado por muito tempo a Hollywood do Oriente Médio. Dançarinas como Samia Gamal e Tahia Karioka se tornaram estrelas internacionais dentro desse novo formato, consolidando uma imagem sofisticada e teatral da dança que se estenderia até o início da década de 1960.
Como o nome francês já distorcia a dança antes mesmo de ela chegar ao Ocidente?
O termo dança do ventre não nasceu no Egito, e sim na França do século XIX, cunhado por observadores europeus em meio ao contato colonial intensificado após a ocupação napoleônica no país a partir de 1798. Batizar a prática pela parte do corpo mais evidente aos olhos estrangeiros, em vez de usar qualquer nome árabe original, já reduzia uma tradição complexa a uma curiosidade corporal isolada, esvaziada do contexto social e comunitário que a sustentava.
Na compreensão de Daugliesi Giacomasi Souza, esse tipo de nomeação carrega, embutido, o próprio olhar orientalista que marcaria a recepção ocidental da dança nas décadas seguintes, associando-a repetidamente à sensualidade e ao exotismo antes mesmo de qualquer bailarina egípcia se apresentar fora do Oriente Médio. A distorção, nesse sentido, começou na linguagem, muito antes de chegar aos palcos internacionais.
O que resta do original nas aulas de hoje?
Boa parte das aulas de dança do ventre oferecidas atualmente, no Brasil e em outros países, ensina fundamentalmente a técnica do raqs sharqi consolidada no século passado, com isolamentos precisos e coreografia estruturada, deixando em segundo plano o caráter mais contido e comunitário do raqs baladi original. Essa ênfase técnica não é problema em si, mas costuma apagar da memória de quem pratica a existência de uma camada anterior, mais simples e menos teatral, da qual a dança de palco derivou.
Como pondera Daugliesi Giacomasi Souza, reconhecer essa origem dupla, entre o cotidiano do raqs baladi e a teatralidade construída do raqs sharqi, enriquece a compreensão de qualquer praticante sobre a própria dança que aprende. Entender de onde cada movimento realmente vem transforma uma sequência coreográfica em um capítulo específico de uma história muito mais longa e estratificada do que qualquer apresentação isolada consegue revelar. Talvez o maior equívoco não esteja na popularização em si, mas em esquecer que existiu uma dança inteira antes dela virar espetáculo.

